Cowboy in the Sand

repercutindo notícia, eu + músicaJanuary 30, 2007 8:14 pm

Sempre fui um pouco reticente quanto aos chamados hits de verão. Sabidamente, ressaltava o lado descartável deles, considerando-os sem qualquer importância para qualquer cenário. Há um conhecimento de causa para pensar assim, visto que fui construído ouvindo rock e todas suas vertentes. Era um patinho feio musical no meio de um mar de alegria, pouca roupa e celebração que já teve Macarena, Na Casa do Senhor Não Existe Satanás, Maria, Maionese, Festa, Festa no Apê, Garota Nacional, Melô da Popozuda e mais recentemente Se Ela Dança Eu Danço.

Lembro do verão de 1999 quando eu e amigos que tinham esta sintonia sonora abençoamos "Push", do Matchbox 20 que saía de um carro de som em Imbé, como sendo a única música com distorção, ainda que leve, e ainda que a música não seja lá aquelas coisas. Era assim que eu era no verão. Torcendo para que tivesse um Matchbox 20 no meio do Asa de Águia.

Como o inconsciente age, os hits ficaram guardados. Se não foram dançados como se deveria, foram ao menos xingados e jamais ignorados. Até 2007.

Neste reencontro com Atlântida Sul [ver outro blog] eu percebi a real importância de um hit de verão. A celebração de uma estação mágica como o verão deve ter exatamente uma sincronia com uma música que tenha a adequação certa para o período. Completamente diferente das outras, o verão é tempo de férias, mudanças, início de ano e passa voando. Que não pesemos algo tão leve, portanto. Vamos com um hit pra estação que isso funciona, e depois a gente vê o resto.

Por essas conclusões, fiz uma seleção apurada para o verão e deixei de lado qualquer preconceito que exista e me deixei levar por estas ondas sonoras. Tá fora da praia? Aí vão então dez músicas pra se ouvir no verão 2007. Deixa de lado o preconceito, olha pras pessoas que estão na tua volta e taca volume. Vai, dança. É bom, te deixa leve.

 

- "Coração", de Claus e Vanessa

A dupla que se apresenta todo o final de semana na praia faz covers absolutamente normais de outras bandas do pop nacional. Agora, essa música é uma delícia se ouvida do jeito certo. Toca ela e fica olhando pro céu, pro mar e pras pessoas que estão passando. Impossível não decorar.

 

- "Sexy Love", de Ne-Yo

Um R&B tipicamente americano que tem uma melodia ótima e uma vibração do caralho. Pra relaxar o espírito e imaginar a negadinha dançando bem coladinha.

 

- "Fergalicious", de Fergie 

A mais dançante do verão. Provocativa, alegre, de ótimo espírito, é pista lotada no litoral. Virou hit no BBB e seria o hit do verão se não fosse lançada tão tarde.

 

- "Ai Ai Ai", de Vanessa da Mata

Preciso dizer algo?  Não né? Como tu já sabe a letra, canta alto, seja feliz, é o que importa.

 

-  "Sexual Healing", versão Ben Harper

Ben Harper é gênio. Essa versão já é antiga, mas o que ele fez com um dos maiores clássicos da história (a música de Marvin Gaye pra mim está entre as dez melhores de todos os tempos) foi inacreditável. Pegou o clima de igreja dos guetos negros e mandou pro Hawaii. Salve! 

 

- "Eu Sei", de Papas da Língua 

Eu sei, a gente conhece essa música há muito tempo. Mas deixa ela te massacrar, até enjoar, só pra você ter o prazer de que ela tocava muito naquele verão inesquecível de 2007. 

 

-  "Youth", de Matisyahu

O  judeu ortodoxo tem a manha do reggae. Colocou um peso, botou um pouco da sua personalidade e fez uma baita música.

 

- "Tremendo Vacilão", de Perla

É aquela mesma, antiga, dos anos 80, que voltou com um funk pegadíssimo. A paraguaia brega ainda tá bem de corpo e entrou de corpo e alma no mundo da Kelly Key pra soltar a mais tocada nos carros de som neste verão. Só dura uma estação, e isso é a melhor coisa.

 

- "Irreplaceable", de Beyoncé 

Já escrevi tanto sobre essa música que só tenho a dizer a quem lê este espaço o seguinte: baixa e escuta muito. Depois, vai pra praia e ouve ela mais ainda. Aí sim volta e fala comigo. 

 

- "Se ela dança, eu danço", MC Leozinho 

Hit de dois verões consecutivos não é pra qualquer um. Se eu fosse definir essa batida em uma palavra, seria "irresistível". Acha alguma melhor? 

 

 

 

artistasJanuary 13, 2007 3:53 am

Em 1995, eu achava o Lulu Santos um canalha. Em uma entrevista para a MTV, Lulu afirmou que a pior coisa que ele havia ouvido era uma "bandinha" chamava Pavement, que ele odiou e pegou a fita e passou várias vezes por cima dela com seu carro. Na época, a "bandinha" Pavement lançava seu segundo disco, chamado "Crooked Rain, Crooked Rain", que durante pelo menos seis anos morou no meu CD Player como um dos meus discos preferidos. Sem contar o CD de estréia, "Slanted and Enchanted", que eu ainda consigo dizer a ordem das faixas (será?).

 

Passados 12 anos, eu ainda sou fã de Pavement. Acho a banda que mais conseguiu representar o conceito de low-fi na história (buscando o mínimo com dissonâncias leves e harmonias simples). Logo, imagina a raiva de um moleque de 15 anos quando o Lulu Santos (odiado por quem estava dando os primeiros passos no indie, mas havia sido criado entre o grunge e o metal) falou mal da banda. Desrespeitosamente, ainda. Era o suficiente para odiá-lo com todas as forças, justamente no momento em que o Lulu tava reconquistando o público dos anos 90, com o disco "Eu e Memê, Memê e Eu", que trazia remixes e versões dançantes. Bem, o Lulu em 95 era quase a Ivete Sangalo de hoje em dia, pra se ter uma idéia. E eu tava conhecendo bandas como Rollins Band e White Zombie. Definitivamente, o Lulu não era pra mim naquele tempo.

 

O Lulu Santos continuou fazendo sucesso com suas músicas antigas e eu meio que larguei de mão a cisma que eu tinha do rapaz. Vi alguns shows dele na seqüência, mas eu odiava tanto que não achava qualidades na sua obra. Bem, eu cresci. E, principalmente, cresci musicalmente.

 

Eis que me deparo com o show do Lulu Santos no Planeta Atlântida de Santa Catarina. Prestei atenção. Do set list, eu sabia cantar, de cabo a rabo, as seguintes músicas:

- Tempos Modernos

- Como uma Onda

- De repente, Califórnia

- Apenas mais uma de amor

- Tudo Azul

- Casa

- Um certo alguém

- A Cura

- Toda forma de amor

- Assim caminha a humanidade

- Aviso aos Navegantes

- O último romântico

- Tão Bem

- Tudo Igual

- Areias Escaldantes

- Hyperconectividade

Sem contar nas versões de Dancin Days, Descobridor dos Sete Mares, Se você pensa, Assaltaram a Gramática, Sábado à Noite, Fullgás e Popstar.

 

Eu contei 23 canções, quase um setlist inteiro, do Lulu Santos que eu sei cantar. Mas eu sei todinha, com melodia, pausa e até a previsão do que vem na seqüência. Ora bolas, como saber isso sobre um artista que não tem nenhum disco na minha coleção? Ou então que eu odiava com todas as minhas forças? Alguém que eu jamais pensaria até em baixar uma música?

 

Bom, eu vi o show do Planeta e fiquei cantando todas as músicas quando percebi que eu deveria escrever sobre o Lulu Santos. Peguei as coletâneas do meu irmão e puxei algumas músicas pra mim, pra que eu pudesse relembrar. Resultado: pela primeira vez eu canto Lulu Santos com um sorriso maravilhoso, olhando aquela multidão jovem pular no Planeta, tendo uma ponta de inveja de não estar lá cantando "Tempos Modernos" e ainda apontando pro céu quando ele fala "vamos nos permitir".

 

Lulu Santos é o maior hitmaker do Brasil em todos os tempos. Um artista pop absolutamente invejável. Por sinal, o maior artista pop brasileiro de todos os tempos. Pop, puta guitarrista, afiado e com uma presença de palco inigualável. Um comandante de público, quase um maestro de multidão, repetindo o mesmo há 25 anos e jamais superado por qualquer um que venha. Talvez seja o melhor show do Brasil, ainda.

 

Ah, e eu fiz as pazes com ele do jeito mais improvável. Ele nem pediu pra entrar em casa e eu nunca quis que ele entrasse. No entanto, ao longo desses meus 18 anos acompanhando de perto a música, ele sempre dava um jeito de me invadir, de um jeito quase subliminar, fazendo com que pela primeira vez eu fizesse uma reverência total a esse artista magnífico da música brasileira.

 

Ironicamente, não sei cantar 25 músicas do Pavement, a banda que fez com que eu odiasse o Lulu, esse que eu sei cantar 25 músicas dele. E olha que eu tenho a coleção completa do Pavement. Do Lulu, só hoje, em janeiro de 2007, eu peguei algumas músicas dele. E eu já sabia todas elas de cor.

discosJanuary 12, 2007 2:44 am

R.E.M - Monster (1994) 

 

 Nas listas dos melhores discos do REM sempre entram "Murmur", "Document", "Out of Time" e "Automatic for the People". Eu completo essa lista com "Monster", de 1994. O REM surpreendeu bastante gente no início da década de 90. "Out of time" era recheado de hits, feliz, contundente e irônico. Já "Automatic…", na minha opinião a obra-prima da banda, era denso, triste, melódico e beirava a perfeição.

 

Em "Monster", o REM buscou o experimentalismo. Cheio de pedais, efeitos e dissonâncias, Monster é o disco da cozinha do REM. Enquanto Michael Stipe chefiava a trupe, ele decidiu ceder espaço para Peter Buck, Bill Berry e Mike Mills. Resultado: um disco de banda, quase um álbum de garagem, chocando quem esperava um Automatic II. 

 

"Monster" parece que foi concebido em poucos dias, como uma banda iniciante. E aí está o mérito do REM. Desprezou os milhões dos discos anteriores e simplesmente criou uma passagem absolutamente fenomenal na carreira. Hits? Ele tem! Ou você consegue resistir a "What’s The Frequency, Kenneth?", "Star 69" ou "Bang and Blame"? Ou até mesmo "Crush with eyeliner".  Ou então "Strange Currencies", uma das minhas cinco músicas preferidas do REM, que remete um pouco ao disco anterior e ao posterior, "New Adventures in Hi-Fi". Esta faixa, por sinal, destoa do resto, uma balada inconfundível, triste e extremamente bem feita.

 

"Monster" é tão rápido, na audição e na carreira da banda, que menos de um ano depois, eles lançaram outro disco. Fez pouco sucesso e os fãs acusavam de ser uma obra difícil, talvez acostumado com a super banda que o REM era, condição merecidamente conquistada com músicas inesquecíveis, como "Losing My Religion", "It’s the end of the world…", "Fall On Me", "The One I Love", "Shinny Happy People" (na minha opinião um saco e acertadamente deixada fora da coletânea de melhores dos anos 90 que eles lançaram há pouco), "Drive", "Everybody Hurts" (a melhor da banda), "Man on the Moon", "Immitation of Life" e por aí vai.

 

De Monster, muita coisa boa se aproveita. Mas o melhor mesmo foi essa urgência de uma banda estourada em experimentar. Poucos compreenderam, mas os que o fizeram, entendem do que eu estou falando. Coisa que só gente madura consegue fazer: um disco que a banda quis fazer, do jeito deles, da maneira deles e acreditando nas próprias idéias. Perto dos outros, "Monster" foi um fracasso de público. Mas era o REM e nem com um disco difícil sua trajetória foi comprometida. Isso se chama credibilidade. E isso é pra poucos.

discos 2:22 am

Hole - Celebrity Skin (1998)

 

Quem é fã de Hole sempre escolhe "Live Through This" (1994) como o melhor disco da banda. Ou então, os mais radicais elegem "Pretty on the inside" (1992) como o preferido. Particularmente, o álbum que eu mais gosto do Hole é "Celebrity Skin", de 1998.

 

Dizem que o Billy Corgan, que namorava a Courtney Love na época, escreveu todas as músicas. Sendo o líder do Smashing Pumpkins o mentor ou não, "Celebrity Skin" trouxe o Hole repaginado. Em todos os sentidos. Courtney estava mais bonita, mais alegre, menos junkie, menos riot e mais inspirada. Revela a cantora Courtney Love, dona de um timbre espetacular e se mostrando uma intérprete pop do primeiro nível.

 

Arranca com a faixa título, um petardo que aborda o tema que ela queria na época. Ela não era mais a viúva do Kurt Cobain, nem aquela boneca drogada do início de carreira (aparentemente). Na seqüência, emprestava a voz para canções pop belíssimas, como "Awful", "Malibu" e "Boys on the Radio", quase uma Sheryl Crow dos bons tempos.

 

Mais clean do que o punk-grunge-dyke do início de carreira, o pop era a saída perfeita para o Hole. Nunca a banda soou tão coesa, tão certinha e tão audível. E ela cantava sobre amor, no sentido mais puro e chiclete que o pop permite e ainda nos encanta no dia de hoje.

 

Na época, lembro que os fãs torceram o nariz pra "Celebrity Skin". Bobagem. Às vezes a maior ousadia é realmente optar pelo mais simples. Ou então a verdadeira revolução é descobrir que a rebeldia tem prazo de validade e que a real vocação pode ser cantar sobre amor, fazer melodias fáceis e agir livremente sem medo de se tornar piegas. No caso do Hole, eles acertaram em cheio. A doçura também é um mérito pra quem sabe fazer. Pena que durou um disco apenas. 

discosJanuary 8, 2007 3:08 am

Titãs - Titanomaquia

 

O melhor dos Titãs é a auto-ironia. A capacidade que eles tinham em chinelear as próprias canções sem que fizessem qualquer concessão pra alguém. Os Titãs funcionaram para os anos 80 como os Mutantes no final dos anos 60. Quer dizer, a lição básica do rock foi amplamente assimilada por eles. 

 

No início dos anos 90, o Brasil vivia uma crise fonográfica sem precedentes. O rock oitentista já era enjoado naquela época. A MPB se erguia com Marisa Monte e Ed Motta e a Daniela Mercury era a novidade da época. Das bandas dos 80, os sobreviventes que ainda tinham apelo eram Engenheiros do Hawaii e Legião Urbana, mas as duas optando por uma sonoridade diferente. Os Titãs foram por outro caminho.

 

Pouco compreendidos na época, lançaram "Tudo ao mesmo tempo agora" em 1991, um álbum espetacular no deboche. E, sem saber muito bem o que estavam fazendo, criaram "Titanomaquia", inspirado no grunge e na esteira do álbum anterior.

 

"Titanomaquia" foi massacrado pela crítica. Foi acusado de oportunista, de enferrujado, que eles não suportariam a ausência de Arnaldo Antunes. Ouvir o disco em 2007  foi uma das boas experiências até o momento. O que se nota é algo completamente diferente do que eles fizeram depois do Acústico MTV. Um álbum de rock potente, com letras absurdas, mas acima de tudo, uma produção que eles jamais teriam. Jack Endino, um dos grandes nomes do grunge, botou a mão e o resultado é surpreendente. Nunca Charles Gavin tocou tanto, nunca Tony Belotto tirou tantos hits e nunca a sonoridade pretendida, por exemplo, em "Cabeça Dinossauro" (1986) saiu tão perfeita.

 

O disco abre com "Será Que é Isso que eu Necessito?" e aí vem uma seqüência quase inacreditável: "Nem Sempre Se Pode ser Deus", "Disneylândia" e "Hereditário". Se você pensa que a abertura é só pra causar impacto em uma obra irregular, prepare-se, porque a melhor faixa vem depois: "Taxidermia".

 

"Titanomaquia" é na verdade o marco que os Titãs talvez nem percebam: o último momento em que a banda foi o que ela melhor sabe ser: cagar e andar pra todo mundo e fazer alguma coisa que desperte reação. Talvez em duas ou três músicas de "Domingo" e só. Depois, o bem sucedido Acústico e uma série de porcarias, como o disco de covers, o Volume Dois e as coisas atuais. Sem contar as canções de auto-ajuda com o tecladinho MAROTO do Sérgio Brito.

 

Mas eu me esqueço disso quando ouço a bateria de introdução em "Será que é isso…". Pra lembrar de um disco que é muito bom e poucos valorizaram. E mais: pra recordar que um dia Titãs era a banda mais autêntica do rock nacional. Até quando copiava (mal) o grunge. Afinal, eu respeito auto-caricatura no rock, sabendo que assim ele nasceu, cresceu e teve seus melhores momentos.