Titãs - Titanomaquia
O melhor dos Titãs é a auto-ironia. A capacidade que eles tinham em chinelear as próprias canções sem que fizessem qualquer concessão pra alguém. Os Titãs funcionaram para os anos 80 como os Mutantes no final dos anos 60. Quer dizer, a lição básica do rock foi amplamente assimilada por eles.
No início dos anos 90, o Brasil vivia uma crise fonográfica sem precedentes. O rock oitentista já era enjoado naquela época. A MPB se erguia com Marisa Monte e Ed Motta e a Daniela Mercury era a novidade da época. Das bandas dos 80, os sobreviventes que ainda tinham apelo eram Engenheiros do Hawaii e Legião Urbana, mas as duas optando por uma sonoridade diferente. Os Titãs foram por outro caminho.
Pouco compreendidos na época, lançaram "Tudo ao mesmo tempo agora" em 1991, um álbum espetacular no deboche. E, sem saber muito bem o que estavam fazendo, criaram "Titanomaquia", inspirado no grunge e na esteira do álbum anterior.
"Titanomaquia" foi massacrado pela crítica. Foi acusado de oportunista, de enferrujado, que eles não suportariam a ausência de Arnaldo Antunes. Ouvir o disco em 2007 foi uma das boas experiências até o momento. O que se nota é algo completamente diferente do que eles fizeram depois do Acústico MTV. Um álbum de rock potente, com letras absurdas, mas acima de tudo, uma produção que eles jamais teriam. Jack Endino, um dos grandes nomes do grunge, botou a mão e o resultado é surpreendente. Nunca Charles Gavin tocou tanto, nunca Tony Belotto tirou tantos hits e nunca a sonoridade pretendida, por exemplo, em "Cabeça Dinossauro" (1986) saiu tão perfeita.
O disco abre com "Será Que é Isso que eu Necessito?" e aí vem uma seqüência quase inacreditável: "Nem Sempre Se Pode ser Deus", "Disneylândia" e "Hereditário". Se você pensa que a abertura é só pra causar impacto em uma obra irregular, prepare-se, porque a melhor faixa vem depois: "Taxidermia".
"Titanomaquia" é na verdade o marco que os Titãs talvez nem percebam: o último momento em que a banda foi o que ela melhor sabe ser: cagar e andar pra todo mundo e fazer alguma coisa que desperte reação. Talvez em duas ou três músicas de "Domingo" e só. Depois, o bem sucedido Acústico e uma série de porcarias, como o disco de covers, o Volume Dois e as coisas atuais. Sem contar as canções de auto-ajuda com o tecladinho MAROTO do Sérgio Brito.
Mas eu me esqueço disso quando ouço a bateria de introdução em "Será que é isso…". Pra lembrar de um disco que é muito bom e poucos valorizaram. E mais: pra recordar que um dia Titãs era a banda mais autêntica do rock nacional. Até quando copiava (mal) o grunge. Afinal, eu respeito auto-caricatura no rock, sabendo que assim ele nasceu, cresceu e teve seus melhores momentos.
