Em 1995, eu achava o Lulu Santos um canalha. Em uma entrevista para a MTV, Lulu afirmou que a pior coisa que ele havia ouvido era uma "bandinha" chamava Pavement, que ele odiou e pegou a fita e passou várias vezes por cima dela com seu carro. Na época, a "bandinha" Pavement lançava seu segundo disco, chamado "Crooked Rain, Crooked Rain", que durante pelo menos seis anos morou no meu CD Player como um dos meus discos preferidos. Sem contar o CD de estréia, "Slanted and Enchanted", que eu ainda consigo dizer a ordem das faixas (será?).
Passados 12 anos, eu ainda sou fã de Pavement. Acho a banda que mais conseguiu representar o conceito de low-fi na história (buscando o mínimo com dissonâncias leves e harmonias simples). Logo, imagina a raiva de um moleque de 15 anos quando o Lulu Santos (odiado por quem estava dando os primeiros passos no indie, mas havia sido criado entre o grunge e o metal) falou mal da banda. Desrespeitosamente, ainda. Era o suficiente para odiá-lo com todas as forças, justamente no momento em que o Lulu tava reconquistando o público dos anos 90, com o disco "Eu e Memê, Memê e Eu", que trazia remixes e versões dançantes. Bem, o Lulu em 95 era quase a Ivete Sangalo de hoje em dia, pra se ter uma idéia. E eu tava conhecendo bandas como Rollins Band e White Zombie. Definitivamente, o Lulu não era pra mim naquele tempo.
O Lulu Santos continuou fazendo sucesso com suas músicas antigas e eu meio que larguei de mão a cisma que eu tinha do rapaz. Vi alguns shows dele na seqüência, mas eu odiava tanto que não achava qualidades na sua obra. Bem, eu cresci. E, principalmente, cresci musicalmente.
Eis que me deparo com o show do Lulu Santos no Planeta Atlântida de Santa Catarina. Prestei atenção. Do set list, eu sabia cantar, de cabo a rabo, as seguintes músicas:
- Tempos Modernos
- Como uma Onda
- De repente, Califórnia
- Apenas mais uma de amor
- Tudo Azul
- Casa
- Um certo alguém
- A Cura
- Toda forma de amor
- Assim caminha a humanidade
- Aviso aos Navegantes
- O último romântico
- Tão Bem
- Tudo Igual
- Areias Escaldantes
- Hyperconectividade
Sem contar nas versões de Dancin Days, Descobridor dos Sete Mares, Se você pensa, Assaltaram a Gramática, Sábado à Noite, Fullgás e Popstar.
Eu contei 23 canções, quase um setlist inteiro, do Lulu Santos que eu sei cantar. Mas eu sei todinha, com melodia, pausa e até a previsão do que vem na seqüência. Ora bolas, como saber isso sobre um artista que não tem nenhum disco na minha coleção? Ou então que eu odiava com todas as minhas forças? Alguém que eu jamais pensaria até em baixar uma música?
Bom, eu vi o show do Planeta e fiquei cantando todas as músicas quando percebi que eu deveria escrever sobre o Lulu Santos. Peguei as coletâneas do meu irmão e puxei algumas músicas pra mim, pra que eu pudesse relembrar. Resultado: pela primeira vez eu canto Lulu Santos com um sorriso maravilhoso, olhando aquela multidão jovem pular no Planeta, tendo uma ponta de inveja de não estar lá cantando "Tempos Modernos" e ainda apontando pro céu quando ele fala "vamos nos permitir".
Lulu Santos é o maior hitmaker do Brasil em todos os tempos. Um artista pop absolutamente invejável. Por sinal, o maior artista pop brasileiro de todos os tempos. Pop, puta guitarrista, afiado e com uma presença de palco inigualável. Um comandante de público, quase um maestro de multidão, repetindo o mesmo há 25 anos e jamais superado por qualquer um que venha. Talvez seja o melhor show do Brasil, ainda.
Ah, e eu fiz as pazes com ele do jeito mais improvável. Ele nem pediu pra entrar em casa e eu nunca quis que ele entrasse. No entanto, ao longo desses meus 18 anos acompanhando de perto a música, ele sempre dava um jeito de me invadir, de um jeito quase subliminar, fazendo com que pela primeira vez eu fizesse uma reverência total a esse artista magnífico da música brasileira.
Ironicamente, não sei cantar 25 músicas do Pavement, a banda que fez com que eu odiasse o Lulu, esse que eu sei cantar 25 músicas dele. E olha que eu tenho a coleção completa do Pavement. Do Lulu, só hoje, em janeiro de 2007, eu peguei algumas músicas dele. E eu já sabia todas elas de cor.

eu odeio o gênio do lulu santos.
Comment by eduardo — January 15, 2007 @ 12:07 am
Não pude deixar de ler a sua matéria e ainda me dar ao luxo de publicá-la no blog do Lulu, espero que vc não se importe. De fato também conheço muitos amigos que também tinham essa birra com Lulu Santos. A maioria deles músicos de rock q detestam tudo que é popolar demais, e por sinal os mesmos que crucificaram U2 na Turnê Pop que percorreu o mundo todo inclusive o Brasil com suas inovações sejam musicais, estéticas e principalmente no modo de se fazer um show. Lulu é muito explorável nesse sentifo também, esta sempre com um pé a frente. Até o dia que esses amigos foram comigo (cada um em 1 diferente) a um show do Lulu. Teve um que fomos numa semana no Palace na época q queria voltar na semana seguinte pois tinha ficado deslumbrado com suas guitarras e a banda que o acomanha. Têm uma música do Lulu, “Tudo Igual” por sinal onde vc cita aqui que diz: “Não leve o personagem pra cama, pode acabar sendo fatal. Então Desmonta logo essa máscara e voltemos a estaca zero, fica tudo igual. Normal”. Que fala bem dessa relação artista/público. Sou super fã de sua obra, sua obra, suas opniões são suas e nem tudo q ele fala estou de acordo, é um ser humano como qualquer outro, com suas vontades. Desde 1994 quando ganhei de minha mãe o disco Assim Caminha a Humanidade, época da qual tinha já minha banda de rock onde tocávamos Nirvana, Bush, Ira, Raul, Blur, Queen e mesmo assim eu via a musicalidade dos sons do Lulu que eu estava conhecendo nakela época também, e descobri que conhecia muito mais daquilo que ouvia no rádio e muito daquilo tudo descrevia parte de minha vida mesmo sem eu saber. Pra vc ter uma idéia da poesia desse mestre do pop brasileiro.
Comment by Will Nygma — July 19, 2007 @ 7:02 pm
O link ai do Blog do Lulu onde será postado sua história!!!!
Abraços!!!!1
Comment by Will Nygma — July 19, 2007 @ 7:05 pm