Pixies - Doolittle (1989)

Por anos, Doolittle foi meu disco preferido. Confesso que não fazia uma audição de ponta a ponta há uns bons seis anos, o que foi corrigido recentemente. Nunca tive dúvidas sobre a genialidade colocada neste álbum pelo quarteto de Boston, mas ouví-lo novamente foi um grande prazer.

 Pode um disco indie ser recheado de hits? E isso nos anos 80? Ah, pode. Doolittle é um disco tão excepcional que estaria à frente do seu tempo nos dias de hoje, em 2007. Vale lembrar que ele foi concebido há dezoito anos, completando uma maioridade sem prazo de validade.

 Pra entendermos Doolittle, há de se fazer uma radiografia do que acontecia no final dos anos 80. O pós punk e seus derivados estavam definhando no final da década. Na Inglaterra, a novidade era algo que se rotulou como shoegazer (Blur, Happy Mondays, Soup Dragons, Jesus Jones, Stone Roses, Lush), com um som que mesclava pistas de dança com o rock britânico tradicional (o "ritmo" chegou ao seu apogeu em 1991 com o brilhante Screamadelica, do Primal Scream), sendo um embrião do britpop dos anos 1990. Por um lado, havia a cena farofa norte-americana ligada a mil, com o Guns N’Roses estourado e uma série de discípulos divertidos e outros absolutamente esquecíveis. O metal também era um estilo em ascensão, e que iria se transformar em mainstream definitivo com o Metallica dois anos depois. O Jesus And Mary Chain era uma banda inglesa e talvez fossem eles os donos da grande novidade da década. Restava o chamado "rock alternativo" (depois evoluído para o conceito de "indie"), já bastante atuante nos EUA. Talvez a primeira banda "alternativa" norte-americana tenha sido o Violent Femmes, com seus flertes com o country. Ao longo da década, Husker Du, R.E.M, Sonic Youth, Dinosaur Jr, Replacements, Melvins, Butthole Surfers e Fugazi foram os principais nomes desta tendência. E, claro, Pixies.

 No entanto, esse rock alternativo precisava de um hit. Para que houvesse a consolidação do estilo, um estrago pop deveria acontecer. E no momento mais criativo da carreira, tudo o que a banda fez foi dar seqüência ao brilhante Surfer Rosa (1988) e sentar a lenha em Doolittle. Ao invés de um hit, a banda foi mais longe e soltou seis de uma vez só: Hey, Debaser, Wave of Mutilation, Monkey Gone to Heaven, Gouge Away e Here Comes Your Man. Com esta última, presença nas paradas e o público mais ortodoxo torcendo o nariz, o que pra mim é errado, já que Here Comes… é uma balada deliciosa, harmônica, melódica e alegre.

Mais do que dar direito aos independentes de fazer música pop, Doolittle abriu o precedente para dar a real do que seriam os anos 1990. Quem não era de grande gravadora, quem não tinha contratos milionários, poderia sim ser sucesso. Fórmula simples: use a criatividade. Foi o que fez um certo Kurt Cobain e bem, vocês sabem o resto.

E se fôssemos tirar toda a importância histórica de Doolittle, que fiquemos então com a obra, apenas. Perfeito da primeira à última faixa, uma sucessão de músicas fáceis com temas pesados, tocados com simplicidade e invencionismo. Um disco que o rock precisa de vez em quando (seria ótimo se tivéssemos um Doolittle agora). Pra guardar na galeria dos grandes álbuns da história, de uma banda tão incrível que mesmo vendo-os ao vivo é difícil acreditar que um dia ela existiu.