Nenhuma pessoa que se considera minimamente entendida de música consideraria Papas da Língua e Armandinho bons. Pois então, aqui estou para me livrar deste preconceito e admitir pra todo mundo: eles são ótimos.

Começo pelo Papas da Língua. Quem mora no RS sabe que há, pelo menos, nove anos, eles fazem um estrondoso sucesso por aqui. E é bem merecido. O Papas surgiu como uma banda de reggae, na esteira do Rappa e do Cidade Negra. Enquanto a primeira se voltou para a crítica social, a segunda tentou por diversas vezes um retorno ao roots, mas sem muito sucesso. O Papas foi por um terceiro caminho: se tornou pop. Pop como o Skank é pop. Reinventou o próprio som, abandonando flertes com o reggae mais puro (Democracy), com o Ska (Garotas do Brasil) e foi para a fórmula simples e correta de uma banda pop.

Para ser pop, são necessários bons músicos, boas letras e um cantor afinado e carismático. Os três fatores sobram ao Papas. Aí que venha a criatividade. E esta não faltou. Desfilando ao longo da década pelo menos uma dezena de sucessos radiofônicos locais, o Papas começa a tomar o mesmo rumo do Jota Quest, e um rumo bem merecido: dominar o Brasil e se tornar uma das dez bandas de maior sucesso no país. Tanta gente ruim vive de música, então que esses caras que estão há vinte anos na praça também vivam (e bem) fazendo uma fórmula que para os outros parece uma barbada, mas é a mais difícil de todas: criar músicas pop e que todos gostem.

O Armandinho que eu conheci tocava na noite de Atlântida no final dos anos 1990 e foi descoberto pelas rádios locais fazendo músicas de verão. O Armandinho que eu admiro é um cantor extremamente talentoso e carismático. Poucas presenças de palco são tão boas quanto a dele hoje em dia. O cara é simpático e fez boas músicas. A despeito de algumas letras fáceis, tem um domínio total da melodia e sabe passar isso para o público como poucos conseguem hoje no Brasil.

Se duvidarem do talento dele, eu lembro um detalhe. Lulu Santos começou cantando músicas praianas e se tornou o maior hitmaker do país. Se for bem aconselhado, Armandinho tem tudo pra chegar lá. Fora que o cara é muito gente boa. Tem a minha torcida.

E depois de uma era de total inércia da música pop gaúcha, finalmente dois excelentes exemplos de sucesso nacional que são merecidos. Papas da Língua e Armandinho, apostem, terão vida longa no cenário nacional. Ainda bem que eles estão aí pra nos tirar do esquema bula de remédio dos EMOS e servirem como antídoto para uma possível volta de dominação do pagode ruim, da música sertaneja e dos forrós universitários. Diversão é uma coisa, agora música pra ficar é outra história. E eu tenho a convicção que eles vieram pra ficar.