Nosso Sonho - Claudinho e Buchecha

Que o funk carioca é um ritmo que é bem mais do que um verão, isso ninguém mais duvida. Afinal, já embala há quase vinte anos o povo nas favelas e há mais de uma década já tomou de assalto as outras praças fora do Rio de Janeiro. Autêntico, brasileiro e vindo das camadas de exclusão social, ainda sofre algum preconceito por parte dos mais puritanos ou de quem é metido a intelectualóide barato. Quem não entende de música, pode criticar. Eu faço reverência a este estilo absolutamente único, original, criativo e sensacional.

Escolher a melhor música de funk carioca de todos os tempos é complicadíssimo. Se formos para um lado mais sofisticado da situação, ficaria entre "Kátia Flávia" (Fausto Fawcett e Robôs Efêmeros, 1987), "Rio 40 Graus (Fernanda Abreu, 1992) ou algum remix de "Eu e Memê, Memê e Eu" (Lulu Santos, 1995). Ou então certamente pegaria, por exemplo, o DJ Marlboro, um gênio das picapes, descobridor de talentos. Por outro lado, se formos resgatar o lado roots do funk carioca, nada supera "Rap da Felicidade", produzido pelo DJ Marlboro em 1994. Aquela, do refrão "Eu só quero é ser feliz/Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci…". Ou então, a já clássica "Se ela dança, eu danço".

No entanto, em 1997, a dupla Claudinho e Buchecha enchia um programa chamado Xuxa Park com um CD fundamental para as bases do ritmo. Investindo mais no charm, atropelou as paradas, parando na MTV, em FM de classe média alta, saindo do circuito que o funk pertencia. E nesse álbum, nada supera "Nosso Sonho".

A música é uma obra prima. Acusada de ser pedófila, por causa do amor por uma menina de 12 anos, ela investe na figura da imaginação e presta uma homenagem merecida a todos os bailes do Rio. Ao invés da revolta, fica para quem ouve uma deliciosa sensação de ingenuidade na letra, mesclada com uma alegria festiva que não combina em nada com o que mostravam na época dos bailes. A violência e o domínio do tráfico dá lugar a uma enorme festa, repleta de energia e satisfação.

Nosso Sonho tem um refrão espetacular. Mas o grande momento é quando eles falam dos bailes cariocas. Mapeando o Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense, é um recado direto àqueles que vivem numa seriedade chorosa do dia a dia das cidades. Aqui, se faz festa. Se dança, se canta e se diverte. E a gente se apaixona, mesmo que os 12 aninhos permitem apenas um olhar.

Como eles dizem, nosso sonho não vai terminar. Longa vida ao funk carioca e a todo esse sucesso merecido que eles fazem. Como em todo o estilo musical, tem muita coisa ruim sendo feita. Agora, se uma vez por ano tivermos um petardo como "Nosso Sonho", vamos ter alegria garantida para o resto da vida. E se a coisa ficar ruim, coloca essa música e vai pra pista.