Cowboy in the Sand

listasMarch 31, 2007 10:53 pm

Não é meu gosto pessoal, é só uma brincadeira do que na minha opinião são as 50 músicas POP mais relevantes para a década até o momento.

Claro, há a coincidência de Hey Ya! ser a MELHOR música da década em todos os sentidos. No mais, aquela famosa ponderação entre relevância, qualidade, popularidade e um pouco de gosto pessoal.

Aí está ela: 

1- Outkast - Hey Ya!

Já escrevi sobre este disco e sobre esta música. Ainda está para surgir alguma coisa melhor que ela na década. A definição é bem simples: Hey Ya! é perfeita. Não tem defeitos. A obra-prima da década.

2- White Stripes - Seven Nation Army 

 Melodia de guitarra cantada por um estádio todo? Lembro de Smoke on the Water, Sunshine of Your Love, Cocaine e Seven Nation Army! A melhor banda da década concebeu este hit poderoso e só perde pra Hey Ya!

3- The Strokes - Last Nite 

Tudo que foi feito no rock sujo da década teve como origem o Strokes. Mais particularmente o primeiro disco e especialmente esta fantástica música.

4- Black Eyed Peas - Where’s The Love? 

A melhor música do Black Eyed Peas é essa, muito antes deles se tornarem a principal referência do hip hop mundial.

5- Johnny Cash - Hurt 

A versão pra música do Nine Inch Nails se transformou na gravação mais linda da década até o momento. 

 6- Green Day - Boulevard of Broken Dreams

Demorou mais de dez anos de carreira para que o Green Day fizesse sua melhor música. E como veio bem!

7- Eminem - Lose Yourself 

O rap mais furioso dos Estados Unidos na década ganhou Oscar e tem uma puta letra. Pra ficar na história.

8- Beyoncé feat. Jay-Z - Crazy In Love 

A musa da década e seu primeiro hit, a faixa mais dançante até o momento.

9 - Coldplay - Yellow

A faixa que deu popularidade pra banda. E como a relevância do Coldplay é grande, ela merece estar na lista.

10- Lily Allen - Smile 

Quanto eu mais ouço, mais eu acho genial. Próxima candidata a superstar mundial (se já não é).

11- The Killers - Mr. Brightside

12- The Raconteurs - Steady as She Goes

13- Outkast - Ms. Jackson

14- White Stripes - Fell In Love With a Girl

15- Nelly Furtado - I’m Like a Bird

16- Ryan Adams - Come Pick Me Up

17- No Doubt - It’s My Life

18- Beyoncé - Irreplaceable

19- Audioslave - Like a Stone

20- System of a Down - Chop Suey

21- R.E.M - Immitation of Life

22- The Kooks - Naive

23- U2 - Vertigo

24- Weezer - Island in the Sun

25- Nelly - Dilemma

26- Jet - Are You Gonna Be My Girl?

27- Regina Spektor - Samson

28- Franz Ferdinand - Take me Out

29- Maroon 5 - This Love 

30- The Vines - Get Free

31- Scissor Sisters - I don’t feel like dancing

32- Queens of the Stone Age - No One Knows

33- The Hives - Hate to say i told you so

34- Robbie Williams - Sexed Up

35- Justin Timberlake - SexyBack

36- The Strokes - Reptilia

37- Interpol - Slow Hands

38- Mary J.Blidge - Family Affair 

39- Black Eyed Peas - Don’t Lie

40- The Killers - Somebody Told Me

41- Eminem - Stan

42- Nelly - Ride with Me

43- Slipknot - Before I Forget

44- Jimmy Eat World - The Middle

45- Madonna - Music

46- Dido - Thank You

47- Modest Mouse - Float On

48- Fountains of Wayne - Stacey’s Mom

49- Destiny’s Child - Emotion

50- My Chemical Romance - Welcome to Black Parade

 

discos, bandasMarch 30, 2007 5:04 am

Quem acompanhava música em 1993 sabia do que estaria por vir. A MTV não parava de passar noticiários e matérias com uma banda de Brasília que chegava, independente, com algo que se chamava forrocore. O forrocore era um hardcore com pitadas brasileiras, anunciando qual seria o mote da década: o resgate das origens de um som autenticamente brasileiro (esquecido pelo rock brasil dos anos 80, exceto os Paralamas) com o rock alternativo que assolava o início da década passada.

Justamente por isso, o primeiro disco do Raimundos, junto com "Da Lama ao Caos", de Chico Science & Nação Zumbi, foi a estréia de um grupo mais aguardada desde o primeiro do RPM, talvez.

Em 1994, pelo selo Banguela, eles lançaram seu primeiro disco. "Raimundos" saiu no início do ano e simplesmente virou o melhor álbum feito no Brasil nos anos 1990. Revolucionário para os padrões que vinham acontecendo, o Raimundos pegou toda a sacanagem existente do mundo e construiu as letras mais impagáveis que o rock já teve notícias.

Vamos começar com "Selim", quem sabe. Quase uma canção de ninar sobre o desejo de um cara de ser o banquinho da bicicleta só pra sentir a vagina e se molhar. A pureza de um repente nordestino transformado numa balada com uma melodia linda, tudo para ser romântico. Mas o negócio deles era putaria mesmo e aí, até criança cantou isso em 1994.

Pegaremos então "Nega Jurema", um hardcore de dois minutos que faz apologia à maconha, a piadas internas da banda e transforma o sertão num campo de batalha pelo direito de plantar, fumar, ou como eles dizem: "Cumê, cagá, bebê, fumá/São as leis da natureza e ninguém vai poder mudar". Algo a dizer a respeito? Uma das melhores letras da banda, virou clipe e hit.

"Rapante" é outra pérola. Toda construída com expressões nordestinas, a letra é irreconhecível. E não pára por aí. O disco ainda conta com "Cajueiro & Rio das Pedras", com a declaração de amor " Abre as pernas meu amor/ Quero ver ficar vermelha igualzinho a uma flor". Nada pode ser mais lindo e perfeito do que botar isso numa letra.

Aí vai com "Bê a Bá", "Cintura Fina", "Deixei de Fumar Cana Caiana" e claro "Puteiro em João Pessoa". A faixa mais pop do disco deve entrar para a galeria das melhores músicas de rock de todos os tempos. A saga de um menino que perdeu a virgindade em João Pessoa é quase falada por Rodolfo, com uma base repetida de guitarras excepcional. 

Um disco que é mais do que simplesmente bom. É histórico. Fundamental. Fenomenal. A primeira gota d’água que inundou de coisas boas os anos 1990 (Skank, Pato Fu, Chico Science, Mundo Livre, Planet Hemp), coisas ruins (Os Ostras, Virgulóides - apesar da sensacional BAGULHO NO BUMBA, Maria do Relento) e outras que a gente nem se lembra (Lagoa, Psycho Drops, Skamundongos). Sem contar Mamonas Assassinas e Charlie Brown Jr.

Raimundos foi a banda que definiu o conceito de novo rock para o Brasil e que proporcionou essa diversidade que há hoje em dia. Com eles, não precisaríamos mais ficar submetidos a uma roupagem que vinha de fora e deixaríamos de ser estereotipados. A partir dos Raimundos, cada banda poderia simplesmente fazer o que desse na telha, sem a neura da obrigação do sucesso e com a liberdade para a criação natural da música.

Pena que eles não conseguiram repetir a dose. Apesar do segundo disco ter "I Saw You Saying" e "Eu quero ver o Oco", depois se perderam bonito. Mas já entraram pra história com esta estréia maravilhosa. A última grande estréia do rock brasileiro.

listas, bandasMarch 22, 2007 5:23 am

É uma convenção que não tem uma definição exata. Mas o salto de bandas independentes norte-americanas no início dos anos 1990 facilitou as coisas para que grupos menores conseguissem lançar seus discos, investindo mais num pop descartável com pitadas do que se chmava de "alternativo". No início, a mídia as classificou neste mesmo patamar: alternative rock. Depois, ficou simplesmente pop rock.

Dificilmente estas bandas botaram três músicas boas na seqüência (honrosas exceções para Soul Asylum, de passado digno, e para o Wallflowers, que lançou ótimo disco de estréia e parou no tempo). Então, aí vai a minha lista das 20 melhores músicas de banda de bom moço americana. Aproveite. Ouça, mas não compre o disco. Baixe só a música, se é que você não tenha já. Elas valem pelas bandas. Não vai ter justificativa pra isso, mas as 20 melhores músicas de bom moço americano são essas:

1- Candlebox - Far Behind

2- Soul Asylum - Black Gold

3- The Wallflowers - 6th Avenue Heartache

4- Goo Goo Dolls - Iris

5-  Blues Traveler - Run Around

6- Live - Selling The Drama

7-  Blind Melon - No Rain

8- Semisonic - Closing Time

9- Gin Blossons - Follow You Down

10- Third Eye Blind - Semi Charmed Life

11- Everclear - I Will Buy You A New Life 

12-  Matchbox 20 - Push

13- Collective Soul - Shine

14 - Deep Blue Something - Breakfast At Tiffany’s 

15- Marcy Playground - Sex and Candy 

16- Crash Test Dummies - Mmm Mmm Mmm

17- Counting Crows - Round Here

18- Hootie and the Blowfish - Let Her Cry

19- Spin Doctors - Two Princes

20- The Calling - Wherever You Will Go 

 

Há de se salientar que algumas bandas que poderiam estar classificadas assim são realmente boas e construíram uma história um pouco mais digna, como Silverchair e Bush. Também estão fora as mais recentes, como Nickleback. E as que emulam Pearl Jam, como Creed e 3 Doors Down. A exceção de tudo isso é The Calling, com Wherever You Will Go, a melhor música brega dos últimos 10 anos no mundo.

No mais, a lista é composta por bandas que jamais vão marcar nome na história, mas fizeram estas canções divertidas e realmente boas. Tem mais coisas boas feitas por algumas delas, como You e Cover Me (Candlebox), Black Ballon e Slide (Goo Goo Dolls), Lighting Crashes (Live), Hook (Blues Traveler), discos do Soul Asylum e do Wallflowers e um que outro lampejo de outras bandas. Também me recuso a botar coisas como Lemonheads e Redd Kross na lista. São boas demais estas duas. As que estão aí ficam na lembrança de um tempo bom, os anos 90. Aquela história: os nomes ficam no esquecimento, mas a melodia fica pra sempre.

Ah, e fora isso, seus integrantes são todo o genro que o papai gostaria de ter pra sua filha né. Limpos, bem comportados e com letras espertinhas. Inofensivos. Inclusive pro rock. Mas que cumpriram bem seus papéis e melodias fáceis para o famoso "de vez em quando".

discos, bandasMarch 21, 2007 6:07 am

Para se escrever sobre a maior banda brasileira de todos os tempos, é preciso algum conhecimento de causa. Posso dizer que o disco "Quatro Estações" da Legião foi ouvido insistentemente em 1989, antes de idolatria pelo Guns N’ Roses. E que junto com os Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana foi realmente a primeira banda que eu reverenciei.

No entanto, sua obra prima veio dois anos depois. Antes de abordar o disco V quero justificar a primeira frase, quando afirmo que é a maior banda brasileira de todos os tempos.

Em termos musicais, Legião ficaria atrás de Mutantes, Novos Baianos, Chico Science e Nação Zumbi e Paralamas do Sucesso. Afinal, todas estas trouxeram inovações profundas para o rock brasileiro. Uma trouxe os Beatles, a outra a mistura com o samba, outra a mistura geral e uma consolidou um pop rock sedimentado até os dias de hoje.

No aspecto da revolução, Legião Urbana também passa longe. Aí eu citaria "Cabeça Dinossauro", dos Titãs, "Nós Vamos Invadir sua praia", do Ultraje a Rigor e "Raimundos", dos Raimundos.

Legião Urbana também não possui o maior disco do rock brasileiro, mérito que cabe ao primeiro disco dos Secos e Molhados (1973), até hoje uma obra prima sem precedentes.

Então, qual o fenômeno? Um vocalista feio e afetado, uma cozinha fraquinha e um guitarrista comum? Um som emulado de bandas inglesas dos anos 80? Uma postura tímida e que contraria os grandes ícones e clichês do rock and roll? 

Em primeiro lugar, as letras. Inegavelmente, Renato Russo era um poeta espetacular. Dá a impressão que ele foi um dos únicos brasileiros a simplesmente escrever o que ele queria, com uma sinceridade e agonia impressionantes. Desde críticas sociais (Mais do Mesmo, Que País É Esse?), passando por ironias finas (Índios), por romantismo puro e simples (e aí vão várias), Renato Russo transitou pelas mais diversas áreas conseguindo tirar as mais lindas melodias de temas complexos como suicídio (Vento no Litoral), homossexualismo (colocado primeiro em Daniel na Cova dos Leões, do Dois) e doença (Via Láctea).  E nisso, suas composições eram grandiosas. Músicas sem refrão e uma ousadia jamais vista na música. Duvida?

Bom, o primeiro verso de "Quatro Estações", o disco mais pop da Legião é simplesmente "Parece cocaína/mas é só tristeza". Ou então o que dizer de Pais e Filhos, que fez todo mundo cantar "Ela se jogou da janela do quinto andar". 

Mas o pior não é isso. O pior é "Faroeste Caboclo". Ou o melhor. Ali o Legião Urbana explodiu todos os limites do bom senso pop. A música não tem refrão, não tem quebra de melodia e é uma história imensa de nove minutos sobre a epopéia de mártir de João de Santo Cristo e foi cantada pelo Brasil todo. Uma música genial, absolutamente perfeita, difícil, demorada e de uma construção altamente delicada.

Esta é a explicação. Legião Urbana pegou a beleza que faltava no rock brasileiro. O lirismo, a sinceridade e a delicadeza numa época em que isso raramente existia. E que chegou ao auge com "V", de 1991. Quase messiânico, depois do desastre do show em Brasília (1988), eles não fizeram turnê pra divulgar o disco. Ao contrário da aparente simplicidade de "Quatro Estações", veio uma pérola mal compreendida. Músicas longas, letras tristes, depressivas, priorizando violões em acordes menores e histórias de cotidiano que volta e meia acabavam em tragédia.

Do disco, saíram "Vento no Litoral", "O Mundo Anda Tão Complicado", "Teatro dos Vampiros" e a épica "Metal Contra as Nuvens", dividida em partes, quase uma Bohemian Rhapsody da melancolia e que levaria qualquer sujeito um pouco mais triste à morte iminente. Uma obra em que a gente percebe toda a agonia que Renato Russo vivia na época, quando ele descobriu ter AIDS, tinha saído de um relacionamento terrível e tava bebendo feito louco. Um gênio aprisionado pelo próprio desejo e traído pelo instinto. Um homem triste e solitário, mas extremamente antenado, letrado e inteligente. E que soltou toda esta angústia em faixas que chegam a arrepiar se formos ouvir com cuidado.

Por isso, a maior banda de todos os tempos. Pela popularidade adquirida seguindo o caminho mais difícil quase sempre. Merece este título e por mim fica assim um bom tempo. E se você nao conhece "V" e tá meio mal, não faça isso agora. Ele realmente consegue tirar toda a sua esperança. Naquela época, não havia céu azul no cinza visto por Renato Russo, seja na aridez da Era Collor, na peça pregada pelo destino com a AIDS ou no preconceito existente contra homossexual, coisa que ele era.

Aí vem "V" e te joga mais pra baixo. Não é justo, mas ele fez isso só com poesia. Fazendo sucesso. Verdade, não é justo. É só pra admirar, abrir a boca e pensar que uma cabeça privilegiada dessas deveria ainda estar aprontando na frente da maior banda que eu já vi no Brasil.

faixasMarch 20, 2007 4:33 am

 Dominó - P da Vida (1988)

Esta PRECIOSIDADE foi composta por um cara chamado Edgar Poças (??).

P da vida surgiu da seguinte forma: o Grupo Dominó, a primeira criação de Gugu Liberato já vinha de sucessos nos anos 80. Mas algum gênio quis tornar a imagem dos quatro rapazes mais "politizada". Afinal, o Brasil atingia uma recessão e uma inflação inimagináveis. Que os bons moços passassem o recado para o país (quiçá mundo).

O resultado? Bom, eu ri. Estou comentando esta letra. 

Tô pê da vida >>Um grito de raiva que diz: "O DOMINÓ TAMBÉM TÁ PUTO DA CARA"

Olhando a gente tão pra baixo
Num baixo astral, num cambalacho >> Primeiro trocadilho esperto do compositor. Caetano adoraria.
E muito pouco amor à vida

Tô pê da vida
E o mundo em volta da ferida
Em transes loucos, transas nossas >> Esse aqui é genial. TRANSES LOUCOS, TRANSAS NOSSAS. O que eles querem dizer com isso? Acho que nem eles sabiam.
De mãos atadas vistas grossas
É muito pouco amor à vida

Tô pê da vida
Tão pondo fogo no planeta
E quem não tá vira careta
>> Depois dos anos de loucura, que venha o bom mocismo.
A fina flor do preconceito
De cor, de raça, de sujeito
>> Fim do apartheid.
Isso tem jeito (2X)

We are the world lá nas paradas >>> !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ISSO É INCRÍVEL. ELES BOTARAM ISSO NA MÚSICA. NÃO CONSIGO PENSAR EM NADA A NÃO SER EM RIR ETERNAMENTE.

E gerações desperdiçadas
Em tantas lutas sem sentido
Fecha as cortinas do passado
Mundo grilado, dolorido >> Grilado, gíria da época.
Que se conforma

Tô pê da vida
Doces jogadas ensaiadas
Nas mesas das nações unidas >>> Outra parte hilária. A ONU foi vítima da ácida crítica social do Dominó. Mesmo que eles tocassem apenas em baile de debutante e naquelas caravanas da agência PROMOARTE por Carapicuíba e Sorocaba.
Azucrinando nossas vidas
Jogos de dados combinados
Dados marcados >> E eles estão fora do sistema.

Tô pê da vida
Mas não me sinto derrotado
Não tem gatilho, nem cruzado >> Agora a vítima é José Sarney, o presidente da época.
Que vai me por nocauteado
A esperança é uma música
Canta essa música, nossa música, é nossa música… >> Quem não tá satisfeito que levantasse a mão

Tô pê da vida
Mas isso quase não é nada
Tem que enfrentar essa parada
E tem que por a mão na terra
Eu tô na guerra pela vida
Só pela vida
Viva a vida (2X) >> Viva a vida!!!!

Eu tenho a música, se quiserem. De tão ruim, tão ruim, mas tão ruim, hoje eu só consigo achar isso genial. Nenhum ser humano estúpido conseguiria ter a coragem de escrever estes versos de rima trocada, trocadilhos espertos, linguagem atual, alusão a palavrão e crítica social pretensiosa. E mais: não é um estúpido o cara que dá essa música para uma banda de garotinhos idolatrados por suburbanas paulistas e auditórios do SBT nos anos 80 produzida pelo almofadinha do Gugu Liberato.

Não, não é estúpido esse cara. Quem fez a música e quem deu ao Dominó só pode ser brilhante. Eu não conseguiria tamanha façanha. Acho que nem os maiores poetas botariam isso aí na roda. Pago pra ver.

discosMarch 18, 2007 6:47 am

O meu disco de 1993 foi "Siamese Dream", do Smashing Pumpkins, mas bem que poderia ser "Get a Grip", do Aerosmith. Tem show da banda no dia 12 de abril aqui no Brasil e eu só não vou por pura economia, porque realmente estou juntando dinheiro.

Como não estarei no Morumbi, resolvi dar uma ouvida de cabo a rabo neste disco lançado por eles em 1993. Cheguei à conclusão de "Get a Grip" é muito mais difícil e complexo do que se imagina.

Demorou 20 anos para a banda conseguir fazer um álbum histórico. Por mais que "Aerosmith" (1974), "Toys in the Attic" (1975) e "Rocks" (1976) sejam bons discos, o Aerosmith nunca foi uma banda que conseguiu colocar um grande clássico nas lojas. E para chegar até Get a Grip, há de se fazer um breve retrospecto na carreira do grupo.

O Aerosmith é a típica banda antes e depois das drogas. Nos anos 70, tinham relativo sucesso, indo na esteira hard rock da segunda metade dos anos 70. No entanto, vieram os 80 e eles não sobreviveram ao pique. Steven Tyler e Joe Perry brigavam, um não conseguia tocar e outro mal parava em pé. Resultado: drogas, overdose e separação.  Uma porrada de discos ruins e o tradicional ressurgimento, com uma banda de rap. Foi preciso uma sacada genial do RUN DMC para remixar Walk This Way e recolocar o Aerosmith num trilho certo.

O final dos anos 80 foi de "Permanent Vacation", seguindo a linha farofeira da época e de "Pump", este um disco bem mais consistente e de músicas excelentes, como "What It Takes" e a clássica "Jane’s Got a Gun".

Foi com Pump que surgiu de fato Get a Grip. Seria quase um Get a Grip I, para que em 1993 uma inspiração divina batesse na banda para compor um camalhaço de hits pra provar que eles ainda existiam. E que prova, meu deus do céu. Amazing, Cryin’, Crazy, Livin on the Edge, Eat the Rich, só pra pegar e sentar a lenha nas maiores power-ballads que os anos 90 presenciaram. No meio do grunge, o Aerosmith sofistica a farofagem, mete super produção e desbanca a barulheira e as novidades da década.

Mas o que fez de Get a Grip um disco altamente bem sucedido foi o fenômeno MTV. A MTV era em 1993 o que o youtube é hoje em dia. Talvez mais, o que a internet é em 2006. Era a primeira geração de TV a cabo e a MTV passava a ter uma audiência maciça. A MTV ditava a moda e gerenciava o que as rádios tocariam a partir de então. O Aerosmith venceu mais uma vez no quesito genialidade e tacou-lhe clipes com historinhas e uma personagem em comum em todos eles: Alicia Silverstone, em seu grande momento de celebridade. 

Tava pronto o estrago. O Aerosmith ganhava um status que não tinha nos anos 70. Eram uma superbanda, com um disco altamente pop, competente e bem feito. Steven Tyler finalmente ganharia o reconhecimento por tudo que é: um puta vocalista, uma presença de palco invejável, um carisma arrebatador e principalmente a cara de uma banda que apostou na famosa fórmula incendiária do rock: o guitarrista místico e o vocalista popular (Page-Plant, Ozzy-Tony, Jagger-Richards, Mercury-May, Axl-Slash, Lee Roth-Van Halen, Bon Scott-Angus Young e o último exemplo, mais recente, Zach De La Rocha-Tom Morello, Rage Against the Machine).

Ou seja, ouvir novamente Get a Grip me deu um prazer enorme. Além da qualidade do disco e da virada na carreira da banda, é a lembrança de um tempo onde eu decorava videoclipes, anotava paradas musicais e vivia intensamente a música com uma ingenuidade e um senso de descobrimento bem maior do que agora. Queria ir no show, mas não se pode ter tudo, certo? Então, eu fico aqui e escuto Livin’ On the Edge, a melhor faixa do disco, e desejando longa vida a esta banda que depois do álbum de 1993 lançou a melhor-balada-oldskool-farofa da década: I Don´t Want to Miss a Thing, que vai virar clássico logo logo.

faixasMarch 15, 2007 4:27 pm

The Raconteurs - Steady, as She Goes

Quando eu fiz a lista das melhores músicas de 2006,  coloquei "Steady As She Goes" em terceiro lugar, atrás da belíssima "Samson", de Regina Spektor e de "Naive", do The Kooks, esta muito mais por gosto pessoal do que qualquer outra coisa.

No entanto, Steady… é daquelas músicas inacreditáveis de tão boas. Isso é rock, por mais que esta frase seja batida e patética. Quatro notas, entrada com um baixo compassado, uma guitarra que sabe pesar na hora certa e uma letra pop. Uma música fácil de ser feita e que gruda como chiclete, pela melodia espirituosa e bom arranjo.

Aliás, o disco todo do Raconteurs é bom demais. Jack White, o cabeça do White Stripes, foi o cara que idealizou este projeto, que nada mais faz do que evidenciar suas qualidades como compositor.

A pena é que as rádios pop tocaram pouco esta música. Deveriam, seria hit em qualquer lugar. Por exemplo, é tão boa quando "Last Nite", dos Strokes, este o grande sucesso roqueiro da década. Ainda inferior a "Fell In Love With a Girl", pra mim a melhor música dos White Stripes, mas não dá pra negar: ao contrário de várias "ondas" do momento, Steady as she goes veio pra ficar.  

 

discos 6:38 am

Engenheiros do Hawaii - Filmes de Guerra, Canções de Amor (1993)

Retomando a série de discos subestimados, eis que me deparo com esta pérola que ninguém comenta.

Muito antes do formato acústico se popularizar e bem antes dele ser uma válvula de escape para o ócio criativo das bandas e se tornar um artifício pra recuperar boas vendagens nas épocas de seca,  ele servia como experimentalismo na obra dos artistas.

Neste caso, estamos diante de uma experiência semi-acústica dos Engenheiros do Hawaii. Ao contrário da maioria, eu sempre achei a banda excelente. Curiosamente, este foi o último disco realmente bom dos gaúchos. Os anteriores são ótimos, com destaque para Revolta dos Dândis (1987), O Papa é Pop (1990) e o absurdamente difícil e bem conduzido GLM (1992).

Esta série de grandes álbuns construíram a cozinha necessária para os EngHaw lançarem sua obra prima: um disco semi-acústico com poucos hits priorizando o arranjo, as composições e as experimentações sonoras.

"Filmes de Guerra, Canções de Amor" foi lançado em 1993 e não teve nenhum tipo de função caça níquel. Pelo contrário. Ao invés de botar na roda uma coletânea de sucessos, eles procuraram músicas mais intimistas do repertório da banda e desplugaram. Re-arranjaram, refizram.

Ali não tem Infinita Highway. Não tem Era um Garoto…, não tem O papa é pop, não tem Terra de Gigantes ou até as "caindo de maduro pra virarem acústicas" Refrão de Bolero e Piano Bar. Os três únicos sucessos são "Pra Ser Sincero", "Alívio Imediato" e "Exército de Um Homem Só"  E ainda o meio  hit "Muros e Grades".

No mais, releituras interessantes de músicas obscuras e faixas inéditas do mais alto grau de competência na composição. O álbum já abre com uma pérola, chamada "Mapas do Acaso", onde Humberto Gessinger (um excepcional letrista subestimado) escancara todo o cinismo de suas letras, evocando a dúvida em uma era em que tudo o que fazíamos era nos questionar (a era pós impeachment e o milagre de uma nova moeda): "Âncora/Vela/qual me leva/qual me prende?".

No meio, canções inéditas intercaladas com a apresentação ao vivo no Rio de Janeiro, com as novas versões. Tudo pra fechar com chave de ouro o trabalho. Para ser aplaudido de pé, Humbertão, Augusto Licks (baita guitarrista, o homem que definiu os rumos musicais da banda) e Carlos Maltz soltam "Realidade Virtual", talvez a melhor música dos Engenheiros em todos os tempos. Agressiva, sincera, contundente, é o encerramento perfeito para uma apresentação antológica.

Justamente no momento em que eles ficaram perto demais das capitais, acho que o ar fresco fora do Estado ajudou num processo criativo que rendeu grandes momentos. "É preciso fé cega/ E pé atrás" ensinava Humberto, colocando todo o ceticismo do mundo e violentando um otimismo desenfreado que vinha pela frente.

Uma obra genial, sob todos os aspectos. A sofisticação de arranjos semi-acústicos na era em que não precisava de uma parafernália de equipamentos que os acústicos usam hoje em dia (tem mais tomada nos desplugados do que nos outros discos). E a delicadeza de um álbum sério que deveria ser escutado por todos. De preferência, sozinho, com uma brisa batendo, com atenção nos instrumentos e nas letras. Aí, é impossível não se emocionar.

faixas 6:14 am

Cascavelletes - Sob um Céu de Blues (1990)

Sou um crítico violento do rock gaúcho. Acho que o fato dele ser objeto de culto no resto do país só ofusca uma geração talentosa que poderia ter vencido além Mampituba. Atualmente, bandas como a Cachorro Grande conseguem fazer algum sucesso fora daqui e isso é bom. Claro, não tem a mesma magia da época em que TNT, Cascavelletes, Replicantes, De Falla e outras tocavam aqui lotando ginásios e passavam batidas no restante do Brasil.

De todas as bandas oitentistas gaúchas, as duas melhores são Engenheiros do Hawaii e Cascavelletes. Os EngHaw não são nem perto de objeto de culto (conforme eu escrevo no capítulo acima). No entanto, os Cascavelletes são amados pelo povo udigrudi paulistano (principalmente). Sempre quando encontram um gaúcho, evidenciam este fanatismo e fazem questão de salientar a idolatria pelos (na época) rapazes.

A banda durou pouco tempo. O primeiro EP tinha as clássicas Menstruada, Morte por Tesão e O Dotadão deve morrer. Depois, o disco Rock A’Ula, uma pérola estudantil com faixas espetaculares, como Nega Bombom (trilha de Top Model), Moto, Sorte no Jogo Azar no Amor, Gato Preto, Eu Não quero Estudar e Jessica Rose. Uma obra prima, com certeza figura entre os maiores álbuns de rock do RS [em breve, esta lista. quero fazer dos 50 mais, exige pesquisa].

Em 1990, sem Frank Jorge no baixo, já na Graforréia, e substituído por  Luciano Albo, veio a consagração. Nada mais nada menos do que a balada mais perfeita já concebida em território pampeano. "Sob Um Céu de Blues" é uma obra prima.

Com a base de violão, tomada de acordes fáceis, a voz de Flávio Basso narra a trajetória de um cara abandonado e entra com frases como "Eu vou rolar com os bêbados/Pelas ruas imundas" ou "A fumaça cinza das fábricas/ Me dá um peso na alma" ou ainda "É como se eu estivesse carregando/ Cem toneladas de desilusão". Uma pérola pop amorosa, que beira o brega, mas não chega a isso graças à melodia pop empregada na canção.

"Sob Um Céu de Blues" chega a se tornar uma sátira volta e meia. Mas pegue pelo outro lado. Uma canção de amor raivosa, de decepção, decadência e falta de dignidade. Uma música feita pra chorar no canto, se debruçando com uma garrafa de cachaça no meio da Osvaldo Aranha, sem vergonha de admitir que os podres também amam. Cantam e se emocionam. E a trilha perfeita escolhida pra isso foi composta por Flávio Basso e Nei Van Sória. Se chama "Sob um Céu de Blues".

Graças à cretinice da banda, ela parou em rodinhas de violão. Uma pena que elas só funcionem aqui no RS e no litoral catarinense na alta temporada. Do jeito que tá, pode virar hit em algum pub de Londres, mas aposto que jamais tocaria no Raul Gil ou na MTV, que é o lugar merecido dela. Ao menos em 1990.

trilhasMarch 13, 2007 5:11 pm

Podem o brega, o technoforró e letras paupérrimas se constituirem numa grande trilha sonora? "O Céu de Suely" está aí pra provar.

O filme é absolutamente genial e a trilha não fica atrás. Dirigido pelo grande cineasta brasileiro do momento, Karim Aïnouz, ela foi feita através de pesquisas sobre o que jovens do sertão nordestino ouviam na época em que ele foi rodado. 

A abertura vem com a cantora brega Diana, ex-mulher de Odair José, com o hit "Tudo que eu Tenho". Ela abre o filme, com as imagens em flashback da personagem com seu marido que nunca aparece. Já arrepia a cena inicial, tomando conta das primeiras tramas do filme. O mais genial é que esta música é uma versão de "Everything I Own", da banda Bread, aquela de classic rock, soft rock do início dos anos 70. Mais uma adaptação que chegou ao Brasil nesta década e que cai como uma luva pra abrir o filme.

Depois, com o personagem de Hermila já no Nordeste, a adaptação feita pela trilha chega a assustar. Diversos forrós bregas demais, com arranjos de teclado de churrascaria, uma bateria programada, uma voz terrível e letras piores ainda. Mas como funciona no filme. A diversão de gente que nunca parou pra pensar que tipo de música serve ou não, a construção de um cenário belíssimo, o sertão nordestino, longe de tudo, uma alegria tão distante dos nossos olhos mas com um lirismo esplêndido.

Logo, você vai se emocionar ao ouvir coisas inacreditáveis. Por exemplo, aqui no Sul a galera se esbaldou no litoral dançando Claus e Vanessa. "Coração", um dos hits da dupla, na verdade é uma música composta pelo grupo "Aviões do Forró", uma Calypso cearense que eu nunca tinha ouvido falar. O hit do filme é "Eu não vou mais chorar", também do Aviões do Forró, cantada no karaokê pelos personagens, tal como aqui fizemos sei lá, com Faroeste Caboclo. Aliás, as cenas de forró do filme são belíssimas. Provam que a realidade é muito mais aproximada por faixa etária do que por nível social. Eles dançam forró, por aqui psytrance, mas o objetivo é apenas a diversão momentânea. E isso o filme mostra claramente.

E o mais inacreditável. Solange Almeida com (ELES) os Aviões do Forró canta Bla Bla Blá. Já ouviram? Pelo amor de deus então, baixem esta preciosidade. Bla Bla Blá é uma versão de "Torn", de Natalie Imbruglia (essa vocês conhecem, né seus globalizados) e ficou horripilante. Com um teclado e efeitinhos péssimos, uma voz cruel canta "Que por mim você morre de amor/ Se você teve a chance/ Por que desperdiçou/ Se entre eu e você, tudo terminou?" e embala um teclado a lá "Toda vez que eu chego em casa, a barata da vizinha tá na minha cama". E aí vem a melodia de Torn, com uma gaita sinistra, o teclado onipresente e uma bateria programada. E a letra segue: "Pode paráá/ desse blablablá". Uma pérola genuinamente brasileira, que demonstra nossa capacidade de desconstrução de coisas que vêm de fora. A assimilação de uma música estrangeira, estourada no mundo e a transformação desta obra em todo o seu âmago: letra, melodia e arranjo. Algo que só o povo brasileiro faz, com uma "esperteza" bárbada, um "jeitinho nordestino de ser", uma ingenuidade comovente, e eu sei lá nessas horas se eles pagaram direito autoral. Não importa, Torn mudou pra Blablablá e assim aquele povo do sertão nordestino vai eternizar esta música.

E por fim, o tema incidental chamado "Somebody Told Me" (não, não é do Killers), que pontua toda a via crucis passada pela personagem central.

A trilha mais perfeita para o que é o filme: um road movie de ônibus de viagem no Brasil. Uma das coisas mais belas que eu já ouvi nas telas nacionais. Filme que emociona, nos faz sonhar e nos dá uma sensação de perdão para qualquer erro cometido por alguém que a gente gosta. E uma trilha que me remete às imagens e me faz sonhar também como a personagem.

Tudo isso, claro, ouvindo Aviões do Forró e Diana. É bom? Não, é uma merda. Mas é tão autêntico, tão ingênuo, singelo e brasileiro que eu não posso deixar de admirar este tipo de cultura, respeitá-la e volta e meia me emocionar profundamente com isso tudo que acontece.