Oitentistas apaixonados são os mais chatos. Para eles, nada que veio depois presta. Só valeram os anos 80. Eu discuto na parte musical, argumentando que as bandas dos anos 90 são melhores que as dos anos 80. E sigo afirmando isso.
Para entender o cenário da década de 90, é preciso situar o início do período. Quando o nosso ex-presidente Fernando Collor assumiu, simplesmente abortou qualquer possibilidade cultural. O rock brasileiro havia morrido. E morto por ele mesmo, cheio de brigas internas e de falta de criatividade para superar uma fórmula ultrapassada. A verve criativa dos nossos pensadores oitentistas havia se dissipado em cocaína, ego, dinheiro ou (alguns) falta de talento. Os que acreditavam no poder revolucionário do rock brasileiro haviam se perdido em cocaína, desesperança, falta de dinheiro, ou simplesmente tinham crescido. As boas novas da música eram Marisa Monte, Daniela Mercury e Ed Motta.
No rock, os Engenheiros do Hawaii lançavam "O Papa é Pop", Legião Urbana massacrava o público com sofrimento no estupendo "V", os Titãs falavam palavrão em "Tudo ao Mesmo tempo Agora", o Barão Vermelho era o Barão Vermelho em "Supermercados da Vida" e os Paralamas exploravam o mercado latino em "Os Grãos". E as novidades? Onde estavam?
Foi preciso que as gravadoras lançassem selos alternativos para que o mercado se renovasse. Numa era sem internet (imagine), qual a saída das bandas independentes? Fitas e fitas demo entregues a bons produtores, que garimpavam talentos Brasil à fora.
Muita coisa boa surgiu. Entre elas, Raimundos, Skank, Chico Science e Nação Zumbi, Pato Fu, Planet Hemp, Mundo Livre SA, Graforréia Xilarmônica. E muita coisa ruim apareceu: Os Ostras, Virgulóides, Boi Mamão, Skamundongos, Lagoa, Little Quail and the Mad Birds. E abriu o mercado para que a atual safra fosse completamente independente. Claro, que hoje, a internet ajuda.
"Samba Poconé", do Skank, é a resposta do independente ao mainstream chato do final dos anos 80. Um soco no estômago de quem não tinha esperanças em algo bom para a música. Mas por que este disco e não o primeiro do Skank, ou o primeiro do Raimundos? Porque nele tem "Garota Nacional", a música mais tocada na década.
"Garota Nacional" é a vitória do Skank, a vitória dos independentes, e ainda, a vitória dos anos 90. Do modo de se fazer música nos anos 90. Dos ensinamentos punk aplicados ao pop. De um faça você mesmo sem jabá, com criatividade e emoção.
Se é chata ou não, isso pouco importa. Agora, se você nasceu entre 1978 e 1982, atire a primeira pedra quem nunca gritou "MARIANA VAGABUNDA" num show do Skank. E eram bons aqueles tempos.






