Cowboy in the Sand

discos, eu + músicaMarch 1, 2007 4:54 pm

Oitentistas apaixonados são os mais chatos. Para eles, nada que veio depois presta. Só valeram os anos 80. Eu discuto na parte musical, argumentando que as bandas dos anos 90 são melhores que as dos anos 80. E sigo afirmando isso.

Para entender o cenário da década de 90, é preciso situar o início do período. Quando o nosso ex-presidente Fernando Collor assumiu, simplesmente abortou qualquer possibilidade cultural. O rock brasileiro havia morrido. E morto por ele mesmo, cheio de brigas internas e de falta de criatividade para superar uma fórmula ultrapassada. A verve criativa dos nossos pensadores oitentistas havia se dissipado em cocaína, ego, dinheiro ou (alguns) falta de talento. Os que acreditavam no poder revolucionário do rock brasileiro haviam se perdido em cocaína, desesperança, falta de dinheiro, ou simplesmente tinham crescido. As boas novas da música eram Marisa Monte, Daniela Mercury e Ed Motta.

No rock, os Engenheiros do Hawaii lançavam "O Papa é Pop", Legião Urbana massacrava o público com sofrimento no estupendo "V", os Titãs falavam palavrão em "Tudo ao Mesmo tempo Agora", o Barão Vermelho era o Barão Vermelho em "Supermercados da Vida" e os Paralamas exploravam o mercado latino em "Os Grãos".  E as novidades? Onde estavam?

Foi preciso que as gravadoras lançassem selos alternativos para que o mercado se renovasse. Numa era sem internet (imagine), qual a saída das bandas independentes? Fitas e fitas demo entregues a bons produtores, que garimpavam talentos Brasil à fora.

Muita coisa boa surgiu. Entre elas, Raimundos, Skank, Chico Science e Nação Zumbi, Pato Fu, Planet Hemp, Mundo Livre SA, Graforréia Xilarmônica. E muita coisa ruim apareceu: Os Ostras, Virgulóides, Boi Mamão, Skamundongos, Lagoa, Little Quail and the Mad Birds. E abriu o mercado para que a atual safra fosse completamente independente. Claro, que hoje, a internet ajuda.

"Samba Poconé", do Skank, é a resposta do independente ao mainstream chato do final dos anos 80. Um soco no estômago de quem não tinha esperanças em algo bom para a música. Mas por que este disco e não o primeiro do Skank, ou o primeiro do Raimundos? Porque nele tem "Garota Nacional", a música mais tocada na década.

 "Garota Nacional" é a vitória do Skank, a vitória dos independentes, e ainda, a vitória dos anos 90. Do modo de se fazer música nos anos 90. Dos ensinamentos punk aplicados ao pop. De um faça você mesmo sem jabá, com criatividade e emoção.

Se é chata ou não, isso pouco importa. Agora, se você nasceu entre 1978 e 1982, atire a primeira pedra quem nunca gritou "MARIANA VAGABUNDA" num show do Skank. E eram bons aqueles tempos.

discos, eu + música 4:34 pm

Tudo por causa de uma propaganda da síndrome de Down. Sabe, eu tinha preconceito com bandas que vinham do Reino Unido.  Isso lá em 95, quando o Radiohead lançou o segundo disco da carreira, The Bends.

Acompanhei sem muito interesse High and Dry, Fake Plastic Trees e My Iron Lung, clipes que passavam na MTV. Precisou chegar 1997 para que uma belíssima propaganda veiculada em preto e branco chamasse a atenção para uma música que eu já conhecia. No clipe do supermercado, Fake Plastic Trees foi só mais uma numa época em que eu preferia ouvir o Far Beyond Driven, do Pantera. Ainda bem que eu tirei o atraso para reconhecê-la dignamente como uma das canções mais tristes da década.

Ela vem num disco excepcional. Menos instigante e conceitual que o sucessor Ok Computer, The Bends é uma coletânea de músicas tristes e belas, com uma voz desesperada de um Thom Yorke inspiradíssimo. A lindeza de The Bends inclui ainda Black Star, outra bela canção do álbum.

Uma propaganda bem feita salvou a minha vida e deu o devido reconhecimento a esta grande banda, o Radiohead. E The Bends se tornou eterno. 

discos, eu + música 4:24 pm

É uma lástima Grace ser de 1994. Isso porque, nesta lista, a escolha do disco do Jeff Buckley faz com que eu cometa uma injustiça poética com pelo menos dez discos que signficaram o mundo pra mim em 1994.

Por exemplo, eu deixo de fora o Blue Album do Weezer, algo que eu ouvi sem parar durante um tempo e serviu quase como uma bíblia sonora por um período. Deixo de fora também Crooked Rain, Crooked Rain, do Pavement, tirando a possiblidade de incluir nesta retrospectiva uma das bandas mais curiosas e bacanas da minha geração. Eu corto I’ll Comunication, do Beastie Boys, outra grande lástima. Ou não seria uma grande oportunidade para escrever sobre Last Splash, dos Breeders, a banda da Kim Deal, que eu ouvia sem parar na época. Ou quem sabe a brincadeira de Dookie, do Green Day, aquele disco pop adolescente perfeito pra mim em 94. E vem na memória o excepcional Superunknown, do Soundgarden, lembrando que a banda também será esquecida nesta lista.

Antes de explicar a justificativa sobre a escolha de Grace, eu volto até 1994. Provavelmente, foi o ano em que eu mais ouvi música. Eu via a MTV todos os dias, sempre. Eu ouvia muito rádio e gravava muitas fitas. Acho que mais da metade da minha coleção de fitas eu gravei em 1994. E chegou o CD! Ah, eu comprei meu primeiro aparelho de CD em 94, e aí eu alugava CDS (vide o Smashing Pumpkins e o Sonic Youth, já citados) e gravava. Num ritmo quase frenético. Eu não tinha grana pra comprar muitos CDS na época, então eu ia nos camelôs e comprava pacotões de fitas. Às vezes, trinta em uma tacada só. E o aluguel era baratinho. O real valia um dólar, aí alugar CDS dava pra conta. Foi quando eu conheci todas as bandas alternativas do cenário, quando Kurt Cobain morreu e meu tributo pelo grunge aumentou, sabendo-se que eu era fã do movimento nos anos anteriores. Abandonei de vez o rock farofa e passei a me dedicar em simplesmente ouvir, conhecer e gostar das bandas.

Conheci Jeff Buckley em 1995 apenas, com Last Goodbye. A segunda música que eu ouvi do cara só saiu em 2001. Ou seja, eu nem sabia quem era Jeff Buckley na época. Last Goodbye não foi notada em 1995. Logo, 94 e Jeff Buckley, pra mim, não combinam.

Então, aí vai. Por que diabos este disco representa o ano de 1994? Simples! Porque é, de fato e de direito, um dos cinco maiores discos já produzidos. Porque depois que eu conheci a obra do cara, eu fiquei absolutamente louco por tudo que ele fez, ao ponto de ter TUDO que foi gravado. Porque ele é genial, canta como poucos, tem letras maravilhosas e colocou toda a perfeição num álbum lindo. Porque ele foi a voz de lirismo e poesia dos anos 90, a década do barulho.

E principalmente porque ele foi meu último ídolo musical. Quando o conheci, percebi tudo o que eu tinha perdido em 1994. E porque se eu fui injusto com aqueles que eu admirava em 1994, eu seria muito mais injusto com este que eu vou admirar para sempre. 

discos, eu + música 6:52 am

 Eu chorei duas vezes com músicas simplesmente pela melodia delas. Na maioria das vezes, o choro com a música vem associado a algum tipo de frustração amorosa. Ou então, quando tu já ouve ela muitas vezes e te remete a um saudosismo. A primeira vez foi com nove anos, "Theme from Top Gun", instrumental de Joe Satriani composto para o filme. Eu era criança, tenho perdão.

A segunda vez ocorreu no início de 1994. Estreava na MTV, no programa Ponto Zero, o videoclipe de Disarm, de uma banda que eu não conhecia. Esta banda era o Smashing Pumpkins. A fixação pelas imagens de Disarm junto com uma música completamente diferente do que eu estava acostumado (na época, ainda pulava aos gritos com "This Love", do Panetera) me derrubou. Aos 14 anos, somos pouco sensíveis. Homens no meio dos anos 90, principalmente. Nossas intenções começavam a ir além do futebol e do botão. As mulheres entravam na nossa vida, e principalmente como objeto de nossos primeiros anseios sexuais.

Numa noite de domingo de verão, no chamado horário da deprê dominical, Disarm estreou e eu não contive nenhuma lágrima. Deixei escorrer, à vontade, sem vergonha. Fiquei à mercê de uma das mais belas melodias já compostas em todos os tempos. E passei a prestar atenção nesta banda desconhecida vinda de Chicago, com uns tipos esquisitões: um vocalista amedrontadaor, com uma pinta de louco espacial e um certo toque afeminado, uma loira esguia e masculinizada (na época) tocando baixo, um japa meio gay na guitarra e um baterista lunático era uma formação completamente inesperada.

Veio Today, Cherub Rock, Rocket, Soma, Mayonaise, Geek USA e meu deus, como pode existir um disco como este? Acabava o ano de 1994 e eu era completamente obcecado pelo Smashing Pumpkins. Com o Gish e o Siamese em mãos, o lançamento de Melloncolie and the infinite Sadness, em 95, foi como esperar uma Copa do Mundo com o Brasil em campo. E a partir daí, decidi que perfeição sonora existe. Siamese Dream é o disco mais lindo que eu já ouvi. Um álbum com canções perfeitas, que eu escuto até hoje e jamais vou deixar de ouvir. A minha banda preferida.

Ao menos, a única que ainda me faz chorar, volta e meia. A que eu idolatro, ostento camisa e digo com orgulho que eu participei do momento mais brilhante deles. E um dos discos que eu mais ouvi em 28 anos.  

discos, eu + música 6:36 am

O que mais me encantou nos primórdios da MTV era uma banda com visual parecido com o meu e que tocava um misto de metal com punk rock e hardcore melódico. O Helmet foi a primeira banda que eu queria fazer parte por um bom tempo.

Desconhecida até hoje, Page Hamilton e seus asseclas faziam um som pesado sendo limpos. Ao contrário dos compatriotas metaleiros, o visual abdicava de cabelões e caras de mau. Eram uns caras de bermudão, camiseta e tênis sentando a lenha numa trocação pura digna de luta de vale tudo.

Na época, eu já era familiarizado com o metal. E o Helmet era uma puta banda de metal, apesar de que os próprios metaleiros rejeitassem este rótulo para esta excelente banda. Foi com "Meantime" que eu conheci a banda e não parei mais de ouvir.

O Helmet tocou no verão de 93 na praia de Araçá, em Capão da Canoa, num festival chamado M2000 Summer Concert. Eu não fui. Afinal, com 13 anos, eu ainda passava o tempo jogando bola, andando de bicicleta e nem pensava em mulher. Como meus amigos eram assim, não tive companhia e minha mãe, claro, não deixou eu ir sozinho. Me arrependo até o último fio de cabelo de ter perdido este show.  

discos, eu + música 6:31 am

Meus discos preferidos lançados em 1991 são: "Black Album", do Metallica, "Slanted and Enchanted", do Pavement, "Gish", do Smashing Pumpkins, "Badmotorfinger", do Soundgarden e  "Achtung Baby", do U2. São cinco obras primas completamente diferentes entre si, mas que sintetizam o que cada uma destas bandas fez de melhor.

Resolvi, no entanto, apelar para o clichê. O mais fácil seria indicar Nevermind, do Nirvana. Trilhei este caminho porque simplesmente nada disso aqui seria possível não fosse este álbum.

Eu sofri um baque com o show do Faith No More no Rock In Rio 2. Tinha 11 anos quando pela primeira vez ouvi "Smells Like Teen Spirit" no rádio. E quando vi aquele clipe na MTV, imaginando que tipo de som era esse. O que eles estavam fazendo? O que queriam? De onde vinham?

Pense bem: aos 11 anos, eu tinha um conhecimento razoável de rock nacional e era fã do Guns N’Roses. Na época, ouvia Extreme e Skid Row. Já conhecia Ramones, mas punk pra mim era só um neguinho com cabelo moicano. Não tinha a menor idéia de como se dava a ramificação musical, de como funcionavam as coisas. Aí vem três caras, tocando muito no rádio e eu recebendo a informação de que eles estavam mudando o mundo. Era demais pra minha cabeça.

Para quem tem entre 25 e 30 anos, funcionou basicamente assim em 1991. O Nirvana foi como a chegada do apocalipse para quem fosse minimamente interessado em música. Era o diferente, o possível. Eles eram o que a gente queria ser. Não mais era preciso usar preto, se encher de anel, brinco e bracelete. Era só usar uma roupa velha e tocar na garagem de casa, tocar o que fosse possível de compor. Era um grito contra todo um establishment da época, um surto de rebeldia momentâneo que poderia capitanear quem estivesse ali.

Eu estava ali, no momento certo e na hora certa. Com a minha fita BASF e um gravador de dois deques, gravei Smells Like Teen Spirit. E Lithium. E Come As You Are. E Polly. E In Bloom. E aprendi a tocar todas. E todos aprenderam a tocar todas ouvindo.

Se você acredita nisso tudo que eu escrevi, nota porque meu disco de 1991 não é o meu preferido. Mas sim, o mais importante. O mais importante pra minha geração, que presenciou a maior novidade musical desde o Sex Pistols. E que conseguiu transgredir, mesmo sendo guris, apenas querendo tocar um som, gritar um pouco, sem entender as letras, só se deixando levar pelos urros do Kurt Cobain.

É o maior clichê, e justamente por isso, seria injusto escolher qualquer disco que não fosse esse. Seria injusto com meu passado musical, com minhas convicções sonoras e acima de tudo com uma época brilhante na minha vida pessoal. Nevermind não é o meu disco. É o disco de vocês todos, meus contemporâneos. 

discos, eu + música 6:19 am

Meu primeiro contato com o Sonic Youth não se deu por este álbum. Era 1993 quando conheci 100% e Sugar Kane, os dois singles de Dirty, o disco posterior a Goo. Como qualquer garoto ávido por novidades no único canal disponível na época, a MTV, explodi com os clipes.

Então, o SY passou a ser a materialização do que rotulavam como "alternativo" na época. No boom dos CDS, aluguei na antiga loja da Cristóvão, cujo nome me falha agora, numa tacada só, Dirty e Goo. Gravei em fita e passei a ouvir aquilo com a estranheza de alguém que toma seus primeiros contatos com a banda. 

Só fui entender a genialidade da banda tempos depois. O suficiente para ter um certo conhecimento sobre o que Thurston Moore, Kim Gordon, Steve Shelley e Lee Ranaldo fizeram com a música. O Sonic Youth é quase uma antítese musical. Estourando em dissonâncias e microfonias, costura seu som com melodias incrivelmente simples. Para os mais puritanos, é desafinado. Pra mim, foi desafiador.

E talvez Goo compile toda essa mistura de pop com guitarreira como nenhum disco feito (talvez Daydream Nation, de 1988, consiga algo parecido). Tudo o que um cara que aprendeu a tocar guitarra sozinho e sem aula gostaria. A invenção sem passar pelo acadêmico. Assim eu aprendi alguma coisa.