Cowboy in the Sand

discos, eu + músicaMarch 2, 2007 6:07 am

O primeiro disco do Strokes não significou absolutamente nada pra mim. É um disco bom, com certas tiradas  interessantes, boas músicas e uma certa dose de criatividade. Mas ele não mudou em nada a minha vida musical. Eu não o rejeitei, mas também não o acolhi como a grande novidade musical da década. Eu gostei, comprei e ouço de vez em quando.

Mas entender este disco é mais ou menos como ensinar o povo jovem a sacar um pouco do rock. Talvez ele seja pra geração nascida entre 85 e 90 o que o Nevermind foi pra mim. A mola propulsora de um estilo de rock que não é dos mais chegados pra mim. Esse rock atual, de Kaiser Chiefs, Killers, Franz Ferdinand, Arctic Monkeys, não entra na minha parada. Mas eu respeito profundamente e mais ainda quem originou tudo isso.

Não, não foram os Stooges, apesar de eu saber que Iggy Pop fazia isso séculos atrás. Foram os Strokes. O visual retrô, os timbres setentistas, a bateria reta, o vocal sufocado, a produção bem feita pra deixar uma roupagem mal feita, tudo é parte do negócio esperto que os Strokes colocaram neste álbum honesto de 2001.

Então, se tem gente pulando na noite sem seguir a melodia, cantando alto refrões como "Everyday I Love You Less and Less", achando genial coisas como Bloc Party, esta evolução teve como ponto de partida os Strokes. E eu respeito os pioneiros.  

discos, eu + música 6:02 am

Os anos 2000 começaram estranhos pra música. O new metal tomava de assalto a parada, colocando uma pulga atrás da orelha de quem achava um pouco oportunista a postura de bandas como Limp Bizkit, Linkin Park e Korn (entre eles, eu). Já as boy bands comandavam o tuto. E as menininhas Britney, J-Lo e Christina estavam em alta. Como eu não tinha mais 13 anos e tenho uma cópia do Vulgar Display of Power do Pantera, qualquer uma destas opções deveriam ser rejeitadas.

No entanto, meus olhos se abriram para um branquelo que cantava rap com uma segurança invejável. E tinha tudo o que os gangstas pediam: era desbocado, falava em mulher e cagava e andava para o que pensassem sobre sua música. Eminem lançou seu segundo disco e entrou para a galeria dos grandes gênios da música atual.

Claro que muitos o consideram um picareta, um imbecil. Eu acho particularmente um gênio. O rap precisa disso mesmo. Gente que não tenha o menor pudor em fazer merda. O Eminem chineleia Christina Aguillera, Fred Durnst, a MTV, os colegas. E com melodias impagáveis.

De quebra, realizou Stan. Lembra quando eu falei em opera rock? A música séria de "MM LP" é Stan, uma tragédia de seis minutos com a base de "Thank You", da Dido, alfinetando fãs e colocando com sinceridade que tudo o que ele faz é tirar onda.

Duvida que ele é gênio? Alguém que bate e pede desculpas no mesmo disco, alguém que fala tudo que quer e depois admite que é só pra zoar com os outros só pode ser isso mesmo.  

discos, eu + música 5:55 am

Quando a gente é jovem e precisa construir uma identidade musical, existe uma coisa que a gente faz que é negar coisas que a gente de fato gosta, mas que não são hype, cool, etc. Parei com isso faz algum tempo, ainda bem. Hoje eu sei o que é bom e o que é ruim, o que é original, o que é bem feito bem arranjado, com boas letras, construções interessantes, o que não é farsa ou engodo.

Nunca admiti em 1999 que eu gostava deste disco do Silverchair. Mas eu ouvia ele sempre. Já devidamente municiado do falecido Napster, Neon Ballroom foi baixado na época por mim. E eu ouvia ali, de canto, sabendo as músicas, mas quieto. Não poderia dizer que era bom. Eu nem era tão fã de Silverchair assim para gostar tanto do disco (os anteriores da banda eu achei ruins). Mas Neon Ballroom tinha alguma coisa diferente que me intrigava.

Em 2001, eu passei a respeitar a banda. Um dos melhores shows do Rock In Rio 3 foi do Silverchair. Ao vivo, sem a frescura, a banda, com simplicidade, segurou o tempo todo na raça e na competência, fazendo uma apresentação bem tocada, emotiva e violenta ao mesmo tempo. Foi quando eu voltei para ouvir as canções de Neon Ballroom e perceber que aquilo que eu poderia achar pretensioso na verdade era bom demais.

"Anthem for the year 2000" é a abertura correta da única banda que se atreveu mandar um recado a todos que um novo século estava começando. E as baladas? Nossa senhora, "Ana’s Song (Open Fire", uma dramática canção sobre anorexia, o que dizer disso? E então, pegue "Miss You Love", cantada a todo pulmão e sinceridade. Não há como evitar e você já tem o disco dominado, devidamente esmiuçado e com o coração atingido.

Tudo isso muito bem tocado, com riffs originais, uma voz de Daniel Jones que tirou todos os cacoetes de imitão do Eddie Vedder, um instrumental maravilhoso e uma cozinha que não compromete. E ótimas letras.

Então, vai o recado: se você é adolescente, como eu era em 99, não tenha vergonha de dizer do que você gosta. Se tiver, é parte da idade. Só não se desfaça de seus discos, porque um dia, tempos depois, eles vão relembrar de um tempo bom para sua vida e você vai admirá-los cada vez mais. De bonitinhos australianos metidos a traumatizados, o Silverchair virou pra mim hoje uma banda de respeito, por causa de Neon Ballroom. Se eles não se seguraram, se não lançaram nada que preste depois (ou antes), aí é outra história. Eles já tinham um disco maravilhoso pra valer uma posição nesta lista. 

discos, eu + música 5:45 am

Então nós temos um SINGLE na lista. Seria uma afronta ao ano de 1998 colocar alguma outra coisa que não fosse Iris. E olha que foi o ano de Ok Computer, de Time Out of Mind do Bob Dylan, de The Colour and the Shape, do Foo Fighters e principalmente de Urban Hymns, do Verve. Preciso um dia escrever sobre este disco. A obra prima do Verve é, na minha opinião, o melhor disco que veio da Inglaterra nos anos 90. Por isso, eu peço esta licença para subverter a lista e colocar uma música apenas, deixando bem claro que discos ótimos foram lançados no ano. A proposta é meramente musical e as influências destes discos para minha formação musical. No entanto, eu fujo do assunto e coloco Iris para ilustrar 98.

O ano de 1998 talvez tenha sido o melhor da minha vida. Ainda estudando jornalismo, comecei a dirigir neste ano. E comecei, de fato, a ter uma banda. Tinha, acima de tudo, uma liberdade que hoje é um pouco restrita pelo dia a dia sufocante de adulto. Em 98, eu fiz de tudo o que um jovem poderia e deveria ter feito. Foi o ano da minha primeira namorada, da minha introdução a um mundo adulto de fato, das minhas primeiras decepções reais, de muita irresponsabilidade e de uma urgência incrível. Parecia que nada me impedia de simplesmente fazer o que eu queria. E tudo o que eu queria era me divertir. Foi quando eu descobri que eu poderia ser bom em alguma coisa, que eu tinha algum talento e que eu pensava além de uma rotina tranqüila e segura de adolescente. Eu sofri e vivi em 98 intensamente.

Foi o ano em que abandonei (graças a deus, retomei) alguns gostos musicais para me focar em outras aventuras sonoras. Ano em que eu fiz músicas, toquei músicas. Ano em que o Garagem Hermética abriu suas portas pra mim, me colocando neste mundo novo underground, entendendo o sentimento atual das pessoas que consideram o Beco um segundo lar. Porque eu já tive o meu.

Um ano de amores, que hoje nem lembro onde estão e que eu cumprimentaria na rua com um singelo "oi". Um ano em que Iris, do Goo Goo Dolls, tocou sem parar. E esta foi a trilha para as minhas desaventuras por um mundo de loucuras que vieram na época certa, do jeito certo e com as pessoas certas.

Iris é a música de 1998. É só começar a tocar que a minha memória volta pra portaria do velho garagem com o Seu Jorge cuidando, pro Bambu’s lotado na época em que era bom ir ao Bambu’s, pros ensaios no Lindóia, pro meu Uninho sendo herói, pra voltas por Porto Alegre e pra muita bebedeira. Então, Iris é a música de 98. Sem álbum, sem disco. Só uma música.

discos, eu + música 5:24 am

Eu sempre tive uma excelente convivência com o rap. Desde Public Enemy, Run DMC e NWA, a rima me encanta. Aproveitei o gangsta do início ao fim, achando o maior barato aquela coisa de cantar pra pegar mulher, falando em vadias, drogas, jóias e carros. É o novo rock autêntico pra mim, sendo o que foram os farofas nos anos 80 e os cantores nos anos 50 e 60. O som também vive de diversão e de coisas boas da vida (no caso, dinheiro e mulheres, ou dinheiro pra comprar mulheres). Este machismo me encanta no rock, que depois ficou sério e aí já é papo pra defensor de causa que não sabe se divertir.

Com esta familiarização vindo do lado podre, me acostumei a ouvir boas bases e rimas contundentes. Afinal, o rap também é para falar sério. Quando os Racionais meteram na MTV o clipe de "Diário de um Detento", fiquei perplexo. Já conhecia a banda com "Homem da Estrada" e "Fim de Semana no Parque", duas pérolas inesquecíveis. Mas eles estavam ali, na MTV, conquistando o primeiro lugar na parada, sendo o clipe mais tocado em 1997/1998 e fazendo sucesso para o público, digamos, BRANCO.

Claro que deixei me levar pela onda e fiz como mais de 2 milhões de pessoas no Brasil: comprei a cópia pirata de Sobrevivendo no Inferno. Absolutamente contra a pirataria, este é meu único CD comprado em camelô. E foi pra aderir a causa.

Com 1,5 milhões de cópias vendidas oficialmente, estima-se que Sobrevivendo no Inferno tenha alcançado quade 5 milhões contando os piratas. O disco é uma porrada genial. O único exemplar de ópera-rap que eu ouvi no Brasil até hoje. Perfeitamente encadeado, narra a história da opressão sobre as camadas mais pobres da periferia paulistana.

Tudo com a mais absoluta genialidade de um poeta do cotidiano chamado Mano Brown. Com bases excepcionalmente bem colocadas por KL Jay e com o respaldo dos MCS Ice Blue e Ed Rock, este álbum é uma maravilha conceitual. Começa com Jorge da Capadócia, a Intro, pra depois explodir em verso e raiva a apoteótica "Capítulo 4, Versículo 3", um clássico.

Um dos cinco melhores discos feitos no Brasil nos anos 90, conquistou pobres e ricos, favelados e classe média, marginais e gente de bem. Fazer isso é coisa de gente boa. E é difícil.

Como Mano Brown cantou que era apoiado por 50 mil manos, ele passou a ser apenas um rapaz latino americano apoiado por 5 milhões de manos, minas, pais, filhos, jovens, ricos e pobres. E eu fui um deles, cantando os quase 10 minutos das melhores faixas de rap feitas no Brasil.