Quando a gente é jovem e precisa construir uma identidade musical, existe uma coisa que a gente faz que é negar coisas que a gente de fato gosta, mas que não são hype, cool, etc. Parei com isso faz algum tempo, ainda bem. Hoje eu sei o que é bom e o que é ruim, o que é original, o que é bem feito bem arranjado, com boas letras, construções interessantes, o que não é farsa ou engodo.

Nunca admiti em 1999 que eu gostava deste disco do Silverchair. Mas eu ouvia ele sempre. Já devidamente municiado do falecido Napster, Neon Ballroom foi baixado na época por mim. E eu ouvia ali, de canto, sabendo as músicas, mas quieto. Não poderia dizer que era bom. Eu nem era tão fã de Silverchair assim para gostar tanto do disco (os anteriores da banda eu achei ruins). Mas Neon Ballroom tinha alguma coisa diferente que me intrigava.

Em 2001, eu passei a respeitar a banda. Um dos melhores shows do Rock In Rio 3 foi do Silverchair. Ao vivo, sem a frescura, a banda, com simplicidade, segurou o tempo todo na raça e na competência, fazendo uma apresentação bem tocada, emotiva e violenta ao mesmo tempo. Foi quando eu voltei para ouvir as canções de Neon Ballroom e perceber que aquilo que eu poderia achar pretensioso na verdade era bom demais.

"Anthem for the year 2000" é a abertura correta da única banda que se atreveu mandar um recado a todos que um novo século estava começando. E as baladas? Nossa senhora, "Ana’s Song (Open Fire", uma dramática canção sobre anorexia, o que dizer disso? E então, pegue "Miss You Love", cantada a todo pulmão e sinceridade. Não há como evitar e você já tem o disco dominado, devidamente esmiuçado e com o coração atingido.

Tudo isso muito bem tocado, com riffs originais, uma voz de Daniel Jones que tirou todos os cacoetes de imitão do Eddie Vedder, um instrumental maravilhoso e uma cozinha que não compromete. E ótimas letras.

Então, vai o recado: se você é adolescente, como eu era em 99, não tenha vergonha de dizer do que você gosta. Se tiver, é parte da idade. Só não se desfaça de seus discos, porque um dia, tempos depois, eles vão relembrar de um tempo bom para sua vida e você vai admirá-los cada vez mais. De bonitinhos australianos metidos a traumatizados, o Silverchair virou pra mim hoje uma banda de respeito, por causa de Neon Ballroom. Se eles não se seguraram, se não lançaram nada que preste depois (ou antes), aí é outra história. Eles já tinham um disco maravilhoso pra valer uma posição nesta lista.