A obra de Johnny Cash se torna com o tempo um daqueles mistérios deliciosos de se decifrar. A complexidade de um artista que teve quase 50 anos de carreira é sempre um ponto de interrogação, a partir dos caminhos desenvolvidos por ele nessa trajetória árdua da música.

No caso deste gênio, essa aventura de descobrir coisas perdura até hoje. Não lembro bem quando eu conheci as músicas de Johnny Cash. Acho que foi na minha primeira fase alt-country, quando conheci Wilco e passei a buscar no passado as origens para aquele som. Os mais conhecidos eram Johnny Cash e Hank Williams.

No entanto, o disco que mais ouvi de Cash é este fabuloso exemplar da série American. Na saga do americano Johnny Cash, ele transcende qualquer patamar imposto pela música mais tradicional do país. Na série de regravações, o véio viajou e emprestou a voz grave, os timbres densos e a melancolia dos arranjos para um time que dá inveja: Depeche Mode, Beatles, Sting, Simon and Garfunkel, Hank Williams e Nine Inch Nails (!!!).

E é justamente "Hurt", do excepcional "The Downard Spiral" do NIN que é a mais bela do disco: uma balada com um dedilhado de violão, costurada pela belíssima voz de Cash. Outro destaque é "Bridge Over Trouble Water", em dueto com Fiona Apple. Irresistível. Ou então a versão de "Desperado", do Eagles. Ouça de joelhos e chore na seqüência.

Este é American IV. Um disco de versões feitas pelo maior trovador da América. E foi gravado no meio de 2002, mandando beleza no meio do barulho que começava a encher os ouvidos no início da década.