Podem o brega, o technoforró e letras paupérrimas se constituirem numa grande trilha sonora? "O Céu de Suely" está aí pra provar.

O filme é absolutamente genial e a trilha não fica atrás. Dirigido pelo grande cineasta brasileiro do momento, Karim Aïnouz, ela foi feita através de pesquisas sobre o que jovens do sertão nordestino ouviam na época em que ele foi rodado. 

A abertura vem com a cantora brega Diana, ex-mulher de Odair José, com o hit "Tudo que eu Tenho". Ela abre o filme, com as imagens em flashback da personagem com seu marido que nunca aparece. Já arrepia a cena inicial, tomando conta das primeiras tramas do filme. O mais genial é que esta música é uma versão de "Everything I Own", da banda Bread, aquela de classic rock, soft rock do início dos anos 70. Mais uma adaptação que chegou ao Brasil nesta década e que cai como uma luva pra abrir o filme.

Depois, com o personagem de Hermila já no Nordeste, a adaptação feita pela trilha chega a assustar. Diversos forrós bregas demais, com arranjos de teclado de churrascaria, uma bateria programada, uma voz terrível e letras piores ainda. Mas como funciona no filme. A diversão de gente que nunca parou pra pensar que tipo de música serve ou não, a construção de um cenário belíssimo, o sertão nordestino, longe de tudo, uma alegria tão distante dos nossos olhos mas com um lirismo esplêndido.

Logo, você vai se emocionar ao ouvir coisas inacreditáveis. Por exemplo, aqui no Sul a galera se esbaldou no litoral dançando Claus e Vanessa. "Coração", um dos hits da dupla, na verdade é uma música composta pelo grupo "Aviões do Forró", uma Calypso cearense que eu nunca tinha ouvido falar. O hit do filme é "Eu não vou mais chorar", também do Aviões do Forró, cantada no karaokê pelos personagens, tal como aqui fizemos sei lá, com Faroeste Caboclo. Aliás, as cenas de forró do filme são belíssimas. Provam que a realidade é muito mais aproximada por faixa etária do que por nível social. Eles dançam forró, por aqui psytrance, mas o objetivo é apenas a diversão momentânea. E isso o filme mostra claramente.

E o mais inacreditável. Solange Almeida com (ELES) os Aviões do Forró canta Bla Bla Blá. Já ouviram? Pelo amor de deus então, baixem esta preciosidade. Bla Bla Blá é uma versão de "Torn", de Natalie Imbruglia (essa vocês conhecem, né seus globalizados) e ficou horripilante. Com um teclado e efeitinhos péssimos, uma voz cruel canta "Que por mim você morre de amor/ Se você teve a chance/ Por que desperdiçou/ Se entre eu e você, tudo terminou?" e embala um teclado a lá "Toda vez que eu chego em casa, a barata da vizinha tá na minha cama". E aí vem a melodia de Torn, com uma gaita sinistra, o teclado onipresente e uma bateria programada. E a letra segue: "Pode paráá/ desse blablablá". Uma pérola genuinamente brasileira, que demonstra nossa capacidade de desconstrução de coisas que vêm de fora. A assimilação de uma música estrangeira, estourada no mundo e a transformação desta obra em todo o seu âmago: letra, melodia e arranjo. Algo que só o povo brasileiro faz, com uma "esperteza" bárbada, um "jeitinho nordestino de ser", uma ingenuidade comovente, e eu sei lá nessas horas se eles pagaram direito autoral. Não importa, Torn mudou pra Blablablá e assim aquele povo do sertão nordestino vai eternizar esta música.

E por fim, o tema incidental chamado "Somebody Told Me" (não, não é do Killers), que pontua toda a via crucis passada pela personagem central.

A trilha mais perfeita para o que é o filme: um road movie de ônibus de viagem no Brasil. Uma das coisas mais belas que eu já ouvi nas telas nacionais. Filme que emociona, nos faz sonhar e nos dá uma sensação de perdão para qualquer erro cometido por alguém que a gente gosta. E uma trilha que me remete às imagens e me faz sonhar também como a personagem.

Tudo isso, claro, ouvindo Aviões do Forró e Diana. É bom? Não, é uma merda. Mas é tão autêntico, tão ingênuo, singelo e brasileiro que eu não posso deixar de admirar este tipo de cultura, respeitá-la e volta e meia me emocionar profundamente com isso tudo que acontece.