Cowboy in the Sand

faixasMarch 15, 2007 4:27 pm

The Raconteurs - Steady, as She Goes

Quando eu fiz a lista das melhores músicas de 2006,  coloquei "Steady As She Goes" em terceiro lugar, atrás da belíssima "Samson", de Regina Spektor e de "Naive", do The Kooks, esta muito mais por gosto pessoal do que qualquer outra coisa.

No entanto, Steady… é daquelas músicas inacreditáveis de tão boas. Isso é rock, por mais que esta frase seja batida e patética. Quatro notas, entrada com um baixo compassado, uma guitarra que sabe pesar na hora certa e uma letra pop. Uma música fácil de ser feita e que gruda como chiclete, pela melodia espirituosa e bom arranjo.

Aliás, o disco todo do Raconteurs é bom demais. Jack White, o cabeça do White Stripes, foi o cara que idealizou este projeto, que nada mais faz do que evidenciar suas qualidades como compositor.

A pena é que as rádios pop tocaram pouco esta música. Deveriam, seria hit em qualquer lugar. Por exemplo, é tão boa quando "Last Nite", dos Strokes, este o grande sucesso roqueiro da década. Ainda inferior a "Fell In Love With a Girl", pra mim a melhor música dos White Stripes, mas não dá pra negar: ao contrário de várias "ondas" do momento, Steady as she goes veio pra ficar.  

 

discos 6:38 am

Engenheiros do Hawaii - Filmes de Guerra, Canções de Amor (1993)

Retomando a série de discos subestimados, eis que me deparo com esta pérola que ninguém comenta.

Muito antes do formato acústico se popularizar e bem antes dele ser uma válvula de escape para o ócio criativo das bandas e se tornar um artifício pra recuperar boas vendagens nas épocas de seca,  ele servia como experimentalismo na obra dos artistas.

Neste caso, estamos diante de uma experiência semi-acústica dos Engenheiros do Hawaii. Ao contrário da maioria, eu sempre achei a banda excelente. Curiosamente, este foi o último disco realmente bom dos gaúchos. Os anteriores são ótimos, com destaque para Revolta dos Dândis (1987), O Papa é Pop (1990) e o absurdamente difícil e bem conduzido GLM (1992).

Esta série de grandes álbuns construíram a cozinha necessária para os EngHaw lançarem sua obra prima: um disco semi-acústico com poucos hits priorizando o arranjo, as composições e as experimentações sonoras.

"Filmes de Guerra, Canções de Amor" foi lançado em 1993 e não teve nenhum tipo de função caça níquel. Pelo contrário. Ao invés de botar na roda uma coletânea de sucessos, eles procuraram músicas mais intimistas do repertório da banda e desplugaram. Re-arranjaram, refizram.

Ali não tem Infinita Highway. Não tem Era um Garoto…, não tem O papa é pop, não tem Terra de Gigantes ou até as "caindo de maduro pra virarem acústicas" Refrão de Bolero e Piano Bar. Os três únicos sucessos são "Pra Ser Sincero", "Alívio Imediato" e "Exército de Um Homem Só"  E ainda o meio  hit "Muros e Grades".

No mais, releituras interessantes de músicas obscuras e faixas inéditas do mais alto grau de competência na composição. O álbum já abre com uma pérola, chamada "Mapas do Acaso", onde Humberto Gessinger (um excepcional letrista subestimado) escancara todo o cinismo de suas letras, evocando a dúvida em uma era em que tudo o que fazíamos era nos questionar (a era pós impeachment e o milagre de uma nova moeda): "Âncora/Vela/qual me leva/qual me prende?".

No meio, canções inéditas intercaladas com a apresentação ao vivo no Rio de Janeiro, com as novas versões. Tudo pra fechar com chave de ouro o trabalho. Para ser aplaudido de pé, Humbertão, Augusto Licks (baita guitarrista, o homem que definiu os rumos musicais da banda) e Carlos Maltz soltam "Realidade Virtual", talvez a melhor música dos Engenheiros em todos os tempos. Agressiva, sincera, contundente, é o encerramento perfeito para uma apresentação antológica.

Justamente no momento em que eles ficaram perto demais das capitais, acho que o ar fresco fora do Estado ajudou num processo criativo que rendeu grandes momentos. "É preciso fé cega/ E pé atrás" ensinava Humberto, colocando todo o ceticismo do mundo e violentando um otimismo desenfreado que vinha pela frente.

Uma obra genial, sob todos os aspectos. A sofisticação de arranjos semi-acústicos na era em que não precisava de uma parafernália de equipamentos que os acústicos usam hoje em dia (tem mais tomada nos desplugados do que nos outros discos). E a delicadeza de um álbum sério que deveria ser escutado por todos. De preferência, sozinho, com uma brisa batendo, com atenção nos instrumentos e nas letras. Aí, é impossível não se emocionar.

faixas 6:14 am

Cascavelletes - Sob um Céu de Blues (1990)

Sou um crítico violento do rock gaúcho. Acho que o fato dele ser objeto de culto no resto do país só ofusca uma geração talentosa que poderia ter vencido além Mampituba. Atualmente, bandas como a Cachorro Grande conseguem fazer algum sucesso fora daqui e isso é bom. Claro, não tem a mesma magia da época em que TNT, Cascavelletes, Replicantes, De Falla e outras tocavam aqui lotando ginásios e passavam batidas no restante do Brasil.

De todas as bandas oitentistas gaúchas, as duas melhores são Engenheiros do Hawaii e Cascavelletes. Os EngHaw não são nem perto de objeto de culto (conforme eu escrevo no capítulo acima). No entanto, os Cascavelletes são amados pelo povo udigrudi paulistano (principalmente). Sempre quando encontram um gaúcho, evidenciam este fanatismo e fazem questão de salientar a idolatria pelos (na época) rapazes.

A banda durou pouco tempo. O primeiro EP tinha as clássicas Menstruada, Morte por Tesão e O Dotadão deve morrer. Depois, o disco Rock A’Ula, uma pérola estudantil com faixas espetaculares, como Nega Bombom (trilha de Top Model), Moto, Sorte no Jogo Azar no Amor, Gato Preto, Eu Não quero Estudar e Jessica Rose. Uma obra prima, com certeza figura entre os maiores álbuns de rock do RS [em breve, esta lista. quero fazer dos 50 mais, exige pesquisa].

Em 1990, sem Frank Jorge no baixo, já na Graforréia, e substituído por  Luciano Albo, veio a consagração. Nada mais nada menos do que a balada mais perfeita já concebida em território pampeano. "Sob Um Céu de Blues" é uma obra prima.

Com a base de violão, tomada de acordes fáceis, a voz de Flávio Basso narra a trajetória de um cara abandonado e entra com frases como "Eu vou rolar com os bêbados/Pelas ruas imundas" ou "A fumaça cinza das fábricas/ Me dá um peso na alma" ou ainda "É como se eu estivesse carregando/ Cem toneladas de desilusão". Uma pérola pop amorosa, que beira o brega, mas não chega a isso graças à melodia pop empregada na canção.

"Sob Um Céu de Blues" chega a se tornar uma sátira volta e meia. Mas pegue pelo outro lado. Uma canção de amor raivosa, de decepção, decadência e falta de dignidade. Uma música feita pra chorar no canto, se debruçando com uma garrafa de cachaça no meio da Osvaldo Aranha, sem vergonha de admitir que os podres também amam. Cantam e se emocionam. E a trilha perfeita escolhida pra isso foi composta por Flávio Basso e Nei Van Sória. Se chama "Sob um Céu de Blues".

Graças à cretinice da banda, ela parou em rodinhas de violão. Uma pena que elas só funcionem aqui no RS e no litoral catarinense na alta temporada. Do jeito que tá, pode virar hit em algum pub de Londres, mas aposto que jamais tocaria no Raul Gil ou na MTV, que é o lugar merecido dela. Ao menos em 1990.