Engenheiros do Hawaii - Filmes de Guerra, Canções de Amor (1993)

Retomando a série de discos subestimados, eis que me deparo com esta pérola que ninguém comenta.

Muito antes do formato acústico se popularizar e bem antes dele ser uma válvula de escape para o ócio criativo das bandas e se tornar um artifício pra recuperar boas vendagens nas épocas de seca,  ele servia como experimentalismo na obra dos artistas.

Neste caso, estamos diante de uma experiência semi-acústica dos Engenheiros do Hawaii. Ao contrário da maioria, eu sempre achei a banda excelente. Curiosamente, este foi o último disco realmente bom dos gaúchos. Os anteriores são ótimos, com destaque para Revolta dos Dândis (1987), O Papa é Pop (1990) e o absurdamente difícil e bem conduzido GLM (1992).

Esta série de grandes álbuns construíram a cozinha necessária para os EngHaw lançarem sua obra prima: um disco semi-acústico com poucos hits priorizando o arranjo, as composições e as experimentações sonoras.

"Filmes de Guerra, Canções de Amor" foi lançado em 1993 e não teve nenhum tipo de função caça níquel. Pelo contrário. Ao invés de botar na roda uma coletânea de sucessos, eles procuraram músicas mais intimistas do repertório da banda e desplugaram. Re-arranjaram, refizram.

Ali não tem Infinita Highway. Não tem Era um Garoto…, não tem O papa é pop, não tem Terra de Gigantes ou até as "caindo de maduro pra virarem acústicas" Refrão de Bolero e Piano Bar. Os três únicos sucessos são "Pra Ser Sincero", "Alívio Imediato" e "Exército de Um Homem Só"  E ainda o meio  hit "Muros e Grades".

No mais, releituras interessantes de músicas obscuras e faixas inéditas do mais alto grau de competência na composição. O álbum já abre com uma pérola, chamada "Mapas do Acaso", onde Humberto Gessinger (um excepcional letrista subestimado) escancara todo o cinismo de suas letras, evocando a dúvida em uma era em que tudo o que fazíamos era nos questionar (a era pós impeachment e o milagre de uma nova moeda): "Âncora/Vela/qual me leva/qual me prende?".

No meio, canções inéditas intercaladas com a apresentação ao vivo no Rio de Janeiro, com as novas versões. Tudo pra fechar com chave de ouro o trabalho. Para ser aplaudido de pé, Humbertão, Augusto Licks (baita guitarrista, o homem que definiu os rumos musicais da banda) e Carlos Maltz soltam "Realidade Virtual", talvez a melhor música dos Engenheiros em todos os tempos. Agressiva, sincera, contundente, é o encerramento perfeito para uma apresentação antológica.

Justamente no momento em que eles ficaram perto demais das capitais, acho que o ar fresco fora do Estado ajudou num processo criativo que rendeu grandes momentos. "É preciso fé cega/ E pé atrás" ensinava Humberto, colocando todo o ceticismo do mundo e violentando um otimismo desenfreado que vinha pela frente.

Uma obra genial, sob todos os aspectos. A sofisticação de arranjos semi-acústicos na era em que não precisava de uma parafernália de equipamentos que os acústicos usam hoje em dia (tem mais tomada nos desplugados do que nos outros discos). E a delicadeza de um álbum sério que deveria ser escutado por todos. De preferência, sozinho, com uma brisa batendo, com atenção nos instrumentos e nas letras. Aí, é impossível não se emocionar.