Cascavelletes - Sob um Céu de Blues (1990)

Sou um crítico violento do rock gaúcho. Acho que o fato dele ser objeto de culto no resto do país só ofusca uma geração talentosa que poderia ter vencido além Mampituba. Atualmente, bandas como a Cachorro Grande conseguem fazer algum sucesso fora daqui e isso é bom. Claro, não tem a mesma magia da época em que TNT, Cascavelletes, Replicantes, De Falla e outras tocavam aqui lotando ginásios e passavam batidas no restante do Brasil.
De todas as bandas oitentistas gaúchas, as duas melhores são Engenheiros do Hawaii e Cascavelletes. Os EngHaw não são nem perto de objeto de culto (conforme eu escrevo no capítulo acima). No entanto, os Cascavelletes são amados pelo povo udigrudi paulistano (principalmente). Sempre quando encontram um gaúcho, evidenciam este fanatismo e fazem questão de salientar a idolatria pelos (na época) rapazes.
A banda durou pouco tempo. O primeiro EP tinha as clássicas Menstruada, Morte por Tesão e O Dotadão deve morrer. Depois, o disco Rock A’Ula, uma pérola estudantil com faixas espetaculares, como Nega Bombom (trilha de Top Model), Moto, Sorte no Jogo Azar no Amor, Gato Preto, Eu Não quero Estudar e Jessica Rose. Uma obra prima, com certeza figura entre os maiores álbuns de rock do RS [em breve, esta lista. quero fazer dos 50 mais, exige pesquisa].
Em 1990, sem Frank Jorge no baixo, já na Graforréia, e substituído por Luciano Albo, veio a consagração. Nada mais nada menos do que a balada mais perfeita já concebida em território pampeano. "Sob Um Céu de Blues" é uma obra prima.
Com a base de violão, tomada de acordes fáceis, a voz de Flávio Basso narra a trajetória de um cara abandonado e entra com frases como "Eu vou rolar com os bêbados/Pelas ruas imundas" ou "A fumaça cinza das fábricas/ Me dá um peso na alma" ou ainda "É como se eu estivesse carregando/ Cem toneladas de desilusão". Uma pérola pop amorosa, que beira o brega, mas não chega a isso graças à melodia pop empregada na canção.
"Sob Um Céu de Blues" chega a se tornar uma sátira volta e meia. Mas pegue pelo outro lado. Uma canção de amor raivosa, de decepção, decadência e falta de dignidade. Uma música feita pra chorar no canto, se debruçando com uma garrafa de cachaça no meio da Osvaldo Aranha, sem vergonha de admitir que os podres também amam. Cantam e se emocionam. E a trilha perfeita escolhida pra isso foi composta por Flávio Basso e Nei Van Sória. Se chama "Sob um Céu de Blues".
Graças à cretinice da banda, ela parou em rodinhas de violão. Uma pena que elas só funcionem aqui no RS e no litoral catarinense na alta temporada. Do jeito que tá, pode virar hit em algum pub de Londres, mas aposto que jamais tocaria no Raul Gil ou na MTV, que é o lugar merecido dela. Ao menos em 1990.

Ah, o Engenheiros teve um lado de adoração nacional sim. Quem não lembra do clipe de “Era um Garoto” sendo exibido no final do Fantástico na época? E eu tenho a impressão que eles são mais conhecidos fora daqui do que os Cascavelletes. Pelo menos quem eu conheço de fora, me fala isso. E “Sob um Céu de Blues” eu acho chata. Concordo que é um hino pró-Osvaldo Aranha (muito mais que “Amigo Punk”, da Graforréia), mas é meio irritante lá pelas tantas. Meu gosto.
Comment by alessandra — March 15, 2007 @ 2:32 pm