Para se escrever sobre a maior banda brasileira de todos os tempos, é preciso algum conhecimento de causa. Posso dizer que o disco "Quatro Estações" da Legião foi ouvido insistentemente em 1989, antes de idolatria pelo Guns N’ Roses. E que junto com os Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana foi realmente a primeira banda que eu reverenciei.

No entanto, sua obra prima veio dois anos depois. Antes de abordar o disco V quero justificar a primeira frase, quando afirmo que é a maior banda brasileira de todos os tempos.

Em termos musicais, Legião ficaria atrás de Mutantes, Novos Baianos, Chico Science e Nação Zumbi e Paralamas do Sucesso. Afinal, todas estas trouxeram inovações profundas para o rock brasileiro. Uma trouxe os Beatles, a outra a mistura com o samba, outra a mistura geral e uma consolidou um pop rock sedimentado até os dias de hoje.

No aspecto da revolução, Legião Urbana também passa longe. Aí eu citaria "Cabeça Dinossauro", dos Titãs, "Nós Vamos Invadir sua praia", do Ultraje a Rigor e "Raimundos", dos Raimundos.

Legião Urbana também não possui o maior disco do rock brasileiro, mérito que cabe ao primeiro disco dos Secos e Molhados (1973), até hoje uma obra prima sem precedentes.

Então, qual o fenômeno? Um vocalista feio e afetado, uma cozinha fraquinha e um guitarrista comum? Um som emulado de bandas inglesas dos anos 80? Uma postura tímida e que contraria os grandes ícones e clichês do rock and roll? 

Em primeiro lugar, as letras. Inegavelmente, Renato Russo era um poeta espetacular. Dá a impressão que ele foi um dos únicos brasileiros a simplesmente escrever o que ele queria, com uma sinceridade e agonia impressionantes. Desde críticas sociais (Mais do Mesmo, Que País É Esse?), passando por ironias finas (Índios), por romantismo puro e simples (e aí vão várias), Renato Russo transitou pelas mais diversas áreas conseguindo tirar as mais lindas melodias de temas complexos como suicídio (Vento no Litoral), homossexualismo (colocado primeiro em Daniel na Cova dos Leões, do Dois) e doença (Via Láctea).  E nisso, suas composições eram grandiosas. Músicas sem refrão e uma ousadia jamais vista na música. Duvida?

Bom, o primeiro verso de "Quatro Estações", o disco mais pop da Legião é simplesmente "Parece cocaína/mas é só tristeza". Ou então o que dizer de Pais e Filhos, que fez todo mundo cantar "Ela se jogou da janela do quinto andar". 

Mas o pior não é isso. O pior é "Faroeste Caboclo". Ou o melhor. Ali o Legião Urbana explodiu todos os limites do bom senso pop. A música não tem refrão, não tem quebra de melodia e é uma história imensa de nove minutos sobre a epopéia de mártir de João de Santo Cristo e foi cantada pelo Brasil todo. Uma música genial, absolutamente perfeita, difícil, demorada e de uma construção altamente delicada.

Esta é a explicação. Legião Urbana pegou a beleza que faltava no rock brasileiro. O lirismo, a sinceridade e a delicadeza numa época em que isso raramente existia. E que chegou ao auge com "V", de 1991. Quase messiânico, depois do desastre do show em Brasília (1988), eles não fizeram turnê pra divulgar o disco. Ao contrário da aparente simplicidade de "Quatro Estações", veio uma pérola mal compreendida. Músicas longas, letras tristes, depressivas, priorizando violões em acordes menores e histórias de cotidiano que volta e meia acabavam em tragédia.

Do disco, saíram "Vento no Litoral", "O Mundo Anda Tão Complicado", "Teatro dos Vampiros" e a épica "Metal Contra as Nuvens", dividida em partes, quase uma Bohemian Rhapsody da melancolia e que levaria qualquer sujeito um pouco mais triste à morte iminente. Uma obra em que a gente percebe toda a agonia que Renato Russo vivia na época, quando ele descobriu ter AIDS, tinha saído de um relacionamento terrível e tava bebendo feito louco. Um gênio aprisionado pelo próprio desejo e traído pelo instinto. Um homem triste e solitário, mas extremamente antenado, letrado e inteligente. E que soltou toda esta angústia em faixas que chegam a arrepiar se formos ouvir com cuidado.

Por isso, a maior banda de todos os tempos. Pela popularidade adquirida seguindo o caminho mais difícil quase sempre. Merece este título e por mim fica assim um bom tempo. E se você nao conhece "V" e tá meio mal, não faça isso agora. Ele realmente consegue tirar toda a sua esperança. Naquela época, não havia céu azul no cinza visto por Renato Russo, seja na aridez da Era Collor, na peça pregada pelo destino com a AIDS ou no preconceito existente contra homossexual, coisa que ele era.

Aí vem "V" e te joga mais pra baixo. Não é justo, mas ele fez isso só com poesia. Fazendo sucesso. Verdade, não é justo. É só pra admirar, abrir a boca e pensar que uma cabeça privilegiada dessas deveria ainda estar aprontando na frente da maior banda que eu já vi no Brasil.