
Quem acompanhava música em 1993 sabia do que estaria por vir. A MTV não parava de passar noticiários e matérias com uma banda de Brasília que chegava, independente, com algo que se chamava forrocore. O forrocore era um hardcore com pitadas brasileiras, anunciando qual seria o mote da década: o resgate das origens de um som autenticamente brasileiro (esquecido pelo rock brasil dos anos 80, exceto os Paralamas) com o rock alternativo que assolava o início da década passada.
Justamente por isso, o primeiro disco do Raimundos, junto com "Da Lama ao Caos", de Chico Science & Nação Zumbi, foi a estréia de um grupo mais aguardada desde o primeiro do RPM, talvez.
Em 1994, pelo selo Banguela, eles lançaram seu primeiro disco. "Raimundos" saiu no início do ano e simplesmente virou o melhor álbum feito no Brasil nos anos 1990. Revolucionário para os padrões que vinham acontecendo, o Raimundos pegou toda a sacanagem existente do mundo e construiu as letras mais impagáveis que o rock já teve notícias.
Vamos começar com "Selim", quem sabe. Quase uma canção de ninar sobre o desejo de um cara de ser o banquinho da bicicleta só pra sentir a vagina e se molhar. A pureza de um repente nordestino transformado numa balada com uma melodia linda, tudo para ser romântico. Mas o negócio deles era putaria mesmo e aí, até criança cantou isso em 1994.
Pegaremos então "Nega Jurema", um hardcore de dois minutos que faz apologia à maconha, a piadas internas da banda e transforma o sertão num campo de batalha pelo direito de plantar, fumar, ou como eles dizem: "Cumê, cagá, bebê, fumá/São as leis da natureza e ninguém vai poder mudar". Algo a dizer a respeito? Uma das melhores letras da banda, virou clipe e hit.
"Rapante" é outra pérola. Toda construída com expressões nordestinas, a letra é irreconhecível. E não pára por aí. O disco ainda conta com "Cajueiro & Rio das Pedras", com a declaração de amor " Abre as pernas meu amor/ Quero ver ficar vermelha igualzinho a uma flor". Nada pode ser mais lindo e perfeito do que botar isso numa letra.
Aí vai com "Bê a Bá", "Cintura Fina", "Deixei de Fumar Cana Caiana" e claro "Puteiro em João Pessoa". A faixa mais pop do disco deve entrar para a galeria das melhores músicas de rock de todos os tempos. A saga de um menino que perdeu a virgindade em João Pessoa é quase falada por Rodolfo, com uma base repetida de guitarras excepcional.
Um disco que é mais do que simplesmente bom. É histórico. Fundamental. Fenomenal. A primeira gota d’água que inundou de coisas boas os anos 1990 (Skank, Pato Fu, Chico Science, Mundo Livre, Planet Hemp), coisas ruins (Os Ostras, Virgulóides - apesar da sensacional BAGULHO NO BUMBA, Maria do Relento) e outras que a gente nem se lembra (Lagoa, Psycho Drops, Skamundongos). Sem contar Mamonas Assassinas e Charlie Brown Jr.
Raimundos foi a banda que definiu o conceito de novo rock para o Brasil e que proporcionou essa diversidade que há hoje em dia. Com eles, não precisaríamos mais ficar submetidos a uma roupagem que vinha de fora e deixaríamos de ser estereotipados. A partir dos Raimundos, cada banda poderia simplesmente fazer o que desse na telha, sem a neura da obrigação do sucesso e com a liberdade para a criação natural da música.
Pena que eles não conseguiram repetir a dose. Apesar do segundo disco ter "I Saw You Saying" e "Eu quero ver o Oco", depois se perderam bonito. Mas já entraram pra história com esta estréia maravilhosa. A última grande estréia do rock brasileiro.
