Cowboy in the Sand

bandas, faixas, vídeosApril 29, 2007 7:11 am

Para quem gosta de ver videoclipes e se cansou dos reality shows estúpidos da MTV Brasil, ainda bem que ainda há canais que se voltam para o formato com exclusividade. O Multishow, apenas em alguns horários, e quase sempre o MTV Hits e o VH1 (pra quem tem cabo, claro). O youtube é o sonho, mas certamente ali o que acontece é uma escolha mais direcionada. Sempre gostei do hábito de deixar a TV ligada e ver os clipes aleatoriamente. As melhores surpresas acontecem assim.

Na madrugada de sábado para domingo, eu vi um dos clipes mais bonitos dos últimos tempos. "Eu vou tentar", primeiro single de "Invisível DJ", novo disco do Ira!, é maravilhoso. Dirigido por Selton Mello, mostra uma história de amor daquelas aparentemente batidas. Um rompimento, as lembranças dos bons tempos, a tentativa de esquecer em vão e o reencontro final, com a superação de todas as diferenças e o final feliz. Banal, porém extremamente bem conduzido pelo ator, que dirige o clipe. Uma direção perfeita e duas atuações belissimas dos atores que fazem o vídeo.

É emocionante quando eles se encontram novamente e ela abre um sorriso absolutamente sincero, correspondido à altura por ele. Aliás, a sincronia com a música é perfeita. Eu acredito em histórias de amor. Como nessas aí, com a sinceridade que só um sorriso consegue demonstrar. O sorriso mais sincero do mundo, de novamente avistar a pessoa amada após um momento em que se pensou que a separação fosse eterna.

A música é muito boa. Gosto do Ira!. Acho uma banda que conseguiu se reinventar, principalmente após o excelente disco de covers "Isso é Amor" (1999). O Acústico é muito bom também. Além disso, conta com um vocalista muito gente boa, Nasi, e um guitarrista que dispensa apresentações em técnica e criação, Edgar Scandurra. Grande retorno dos paulistas. "Eu vou tentar" é uma grande canção, talvez valorizada por mim porque vi este clipe tão bem dirigido e editado. Mas vale dar uma ouvida. 

 

discosApril 26, 2007 4:51 am

Já cruzei com o Lobão quatro vezes na minha vida. Não sou amigo dele, o máximo que fiz foi elogiá-lo pelo lançamento de "A Vida é Doce" (1999), na época. Lobão é daqueles que presta atenção em absolutamente tudo que tu fala. Pra depois ele falar. Por horas. Comigo, que era naquele tempo um guri de 19 anos encantado com uma obra independente de altíssima qualidade, foi assim. Dois anos depois, um amigo meu deu um CD da minha ex-banda pra ele. Ele é um cara legal, acho.

No entanto, o Lobão não tem nenhum tipo de reconhecimento do público mais jovem que idolatra os Los Hermanos, e deveria fazê-lo com o Velho Lobo também. Dá pra dividir a carreira do Lobão em três partes: a oitentista, cheia de hits da época, a perdida, quando lançava sem critérios discos misturando samba e rock e a fase anos 90 do Lobão, pra mim absolutamente genial.

"Nostalgia da Modernidade", "Noite" e "A Vida é Doce" são os três melhores discos do Lobão. Três obras que devem constar entre as melhores da década. Uma trilogia sublime, que emana descontentamento com o sistema, vazio criativo, pânico e ironia de uma forma belíssima. Arranjos que apontavam para um futuro que não sei se de fato aconteceu, letras excepcionais e um instrumentista/criador numa forma esplendorosa.

Lobão brigou com gravadoras, criou uma própria e agora chega com seu Acústico. Ele mesmo define que odeia o formato. Mas o repertório colocado no Acústico sem sombra de dúvidas é bastante interessante. Mesmo que coloque os hits "Me Chama", "Decadence Avec Elegance", "Rádio Blá" e "Corações Psicodélicos", Lobão mescla com as excelentes "A Queda", "Vou Te Levar" e "A Vida é Doce", por exemplo. Tira fora, acertadamente, "Vida Bandida" e carrega nesta fase boa da carreira, que todos deveriam conhecer. Um cara sem preconceitos, completamente maduro e antenado com o que acontece.

O Acústico, bem, é um acústico da MTV, moldado pela emissora da maneira que o formato foi consagrado. Mas as músicas boas estão ali, intactas, eternas, vivas e contundentes. Um bom disco de um dos melhores compositores do Brasil. Pena que os três discos citados acima são semi-relíquias. E outra pena que a melhor música dele nessa fase, "Para o Mano Caetano", lançada como single, não está presente. Uma das melhores letras feitas na década, um chute no saco do caetanismo que domina a MPB (apesar de eu ser fã do baiano, às vezes ele vacila na super exposição e na opinião-pra-tudo).

Mas se der, baixe. Você vai conhecer um pouco do que ele fez de bom e quem sabe, baixe esses três discos essenciais para se entender um pouco do sentimento de ressaca eterna daquele que se recusou a viver sob o estigma do "Rock Brasil 80". Ainda bem que ele não fez que nem o Léo Jaime ou qualquer outro da década, que hoje se apresentam em festinhas anos 80, um revival que eu não agüento mais. Ele se modernizou. Viveu a Nostalgia da Modernidade. E está aí, lançando um acústico digno, mandando bala aos 50 mostrando a cara de 50 anos e fazendo música aos 50 anos. E principalmente, fazendo música em 2007 como deve se fazer música em 2007. 

 

listas, eu + músicaApril 25, 2007 6:07 am

A revista Rolling Stone publicou a lista de 40 canções que mudaram o mundo.

Não gosto de comentar listas dos outros. Eu iria fazer a lista de acordo com a minha opinião, mas vou mais longe. Fiquem com a lista das 40 canções que MUDARAM A MINHA VIDA. Porque eu ainda sou mais megalomaníaco.

 

1- Faith No More - Epic

A música que mudou a vida da minha geração foi "Smells Like Teen Spirit". No entanto, ver aquele cabeludo cantando feito um louco no clipe, depois de assistir ao show de uma banda que eu não conhecia, aos 11 anos, no Rock In Rio 2, em 1991, foi demais pra mim. Mike Patton e o Faith No More mudaram a minha vida. Foram eles que me direcionaram para que eu me apaixonasse pela música. Os culpados, eles, essa música. Se vocês amam ou odeiam esse blog, culpem o Faith No More. Aliás, se vocês me amam ou me odeiam, culpem também o Faith No More. A banda que mudou minha vida. Em todos os sentidos.

 

2- Guns N’Roses - Swet Child O’Mine

A maior idolatria que eu tive no rock até hoje. Se teve algo que eu queria ser era algum membro do Guns N’Roses. Até chegar o FNM, era a única banda que de fato eu ouvia e gostava.

 

3  - Ramones - Poison Heart

Os Ramones eram a banda de Poison Heart pra mim, música do Mondo Bizarro (1992). Depois eu entendi tudo que eles significaram e a mensagem que o punk passou para que eu evoluísse minha adolescência fazendo como e adotando isso como maneira de construir minha identidade sonora.

 

4- Smashing Pumpkins - Disarm 

Qual música te fez chorar pela primeira vez que ouviu? A minha foi essa. E o Smashing Pumpkins me arrebatou de primeira. Virou minha melhor banda.

 

5- Legião Urbana - Pais e Filhos

Eu tinha 9 anos e gostava do Sérgio Mallandro. Foi quando eu ouvi "Pais e Filhos" e percebi que o rock existia.

 

6- Pixies - Where’s My Mind? 

Foi quando eu descobri que o Pixies tinha feito essa música que eu entendi as razões dessa banda ser a maior referência para o rock que veio na seqüência.

 

7- Metallica - Enter Sandman 

Decorei até a oração da música de tanto que ouvi. Comprei camiseta e deixei o cabelo crescer. Por alguns momentos, minha vida foi sim o Metallica.

 

8- Nirvana - Smells Like Teen Spirit 

Eu sei, pra mim também foi a mesma coisa. Claro que falo daqueles que nasceram entre 78 e 81.

 

9- Neil Young - Heart of Gold 

Eu ouvia metal quando escutei pela primeira vez o disco "Harvest", especialmente "Heart of Gold" e "The Needle and the damage done". E esse cara passou a ser meu maior ídolo da música. Em todos os tempos.

 

10- Jeff Buckley - Last Goodbye 

Na mais recente das descobertas, considerando o tempo, o surgimento de um novo ídolo.

11- Helmet - Unsung

12- The Clash - White Man (In Hammersmith Palais)

13- Engenheiros do Hawaii - Infinita Highway

14- Pearl Jam - Jeremy

15- Alice In Chains - Would?

16- Alanis Morisette - Head Over Feet

17- Soundgarden - Outshined

18- Weezer - Buddy Holly

19- AC/DC - Highway to Hell 

20- Megadeth - Symphony of Destruction

21- Led Zeppelin - Stairway to Heaven

22- Pantera - This Love

23 - U2 - One

24- Radiohead - Fake Plastic Trees

25- Black Sabbath - War Pigs

26- Goo Goo Dolls - Iris

27- Raimundos - Puteiro em João Pessoa

28- Skid Row - I Remember You

29- Cascavelletes - Jessica Rose

30- Green Day - Basketcase

31- Aerosmith - Cryin’

32- R.E.M - Losing My Religion

33- Rage Against the Machine - Killing in the Name

34- TLC - Waterfalls

35- Kiss - Nothin’ to Lose

36- Black Crowes - Remedy

37- Outkast - Hey Ya!

38- Racionais MCs - Capítulo 4, Versículo 3

39- Nine Inch Nails - Closer

40- Violent Femmes - Blister in the Sun

 

** Decidi não explicar muito até a posição quarenta, pela falta de paciência mesmo. Mas cada uma dessas músicas, acreditem, tem uma razão especial de figurar na lista. Abrange diferentes épocas em diferentes estilos. São extremamente pessoais e refletiram as épocas em que eu estava ouvindo elas. Iris, por exemplo, eu não agüento ouvir hoje em dia. Mas como se lembrar de 98 sem Iris? A maioria é um reflexo da minha formação musical, quase uma salada de referências dos anos 90. Aliás, da lista, 26 são dos anos 1990. 8 são dos anos 1980, 5 dos anos 1970 e 1 dos anos 2000.

** As escolhas se dão na fase pós-música infantil.

** Estranhando a ausência de músicas dos Beatles? Sou fã, claro. Agora, nenhuma mudou minha vida efetivamente. Nem dos Stones. Para meu know how musical, Ramones e Led Zeppelin, por exemplo, são bem mais representativos do que Beatles e Stones. A lista também mostra nenhuma música dos anos 60. Mesma razão que os anos 2000 só cederam Hey Ya! para a lista. Como minha criação foi nos 90, a maioria é da década.

** As escolhas são meramente pessoais. Cada uma, na seqüência, por um motivo. Mas o que pesou mais foi o significado musical e o legado de cada canção para minha vida.

** Caberia menção honrosa para pelo menos umas cem bandas. Mas como a vida é minha e eu sei o que aconteceu com ela, fiquem com as 40. 

repercutindo notícia, internet + música, eu + músicaApril 24, 2007 4:45 am

O logo da Rádio Amazônia FM anuncia. É hora do tecnobrega. E eu repito a descrição da comunidade no orkut:

"O som que faz a Cabeça dos Paraenses! Essa música toca nas rádios locais e nas festas de aparelhagem, que rola na periferia paraense, com equipamento gigantesco formado por centenas de amplificadores, televisores, teclados, "samplers", tudo empilhado em formato de totem tribal eletrônico. O tecnobrega surgiuno verão de 2002, mas ferveu nas festas de aparelhagem em 2003. É o velho brega, com batida mais acelerada, feito só com sons de computadores. Parece um Kraftwerk de palafita, produzido sob calor equatorial por quem escutou muito carimbó, cúmbia, zouk e Renato e Seus Blue Caps - e não domina ainda totalmente os recursos do "cut-and-paste" que hoje estão na base dos softwares de produção musical. Os músicos não têm mais gravadoras nem o custo de prensar os discos, imprimir as capas ou distribuir os produtos e isso tudo fica por conta dos camelôs e seus sistemas não-oficiais de indústria e comércio. O tecnobrega assumiu a pirataria como forma de divulgação."

O cara que escreveu isso já é genial. Kraftwerk de palafita é perfeito. Mas eu vou mais longe nesse delírio de idéias para descrever o ritmo que o magal gaúcho (atrasado, como sempre) vai ouvir no carro dele no verão 2008. Abaixo, o meu texto sobre o tecnobrega.

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Um dos meus filmes brasileiros preferidos é Bye Bye Brasil. Feito em 1979 por Cacá Diegues, contava a história da Caravana Rólidei (assim mesmo), uma trupe que misturava espetáculo circense, diversão adulta e jogativa, e que perambulava pelas terras esquecidas do Brasil e que o mesmo Brasil da ditadura fazia questão em enfatizar que existia. Falo da Região da Transamazônica, ou então uma faixa que compreende o litoral de Alagoas, passa pelo sertão, pega o sul da Região Norte, atravessa a fronteira Pará-Mato Grosso e termina nos estados amazônicos.

José Wilker era o chefe da caravana. Betty Faria, a fiel escudeira, a quem Wilker oferecia os serviços de acompanhante à coronelada da região. Juntam-se a eles Fábio Júnior (o mesmo, em, acreditem, belíssima interpretação) e Zaira Zambelli, cujo personagem era uma grávida. A Caravana Rólidêi passava pelos locais mais ermos dessa região esquecida no país. Um misto de sertão com floresta, um rito de passagem de mar, caatinga, cerrado e selva, com cidades ainda subdesenvolvidas, onde naquela época a TV era ainda uma invenção mirabolante e cara. Detalhe que o homem pousou na Lua dez anos antes e tudo isso passou na TV. Coisas de um Brasil atraente demais, no meu ponto de vista.

Bye Bye Brasil era a perfeita sinergia do arcaico com o moderno. Os serviços da caravana (baralho, putaria e circo) se confrontavam com o que eles chamavam "espinha de peixe" (as antenas de TV, espalhadas em lugares emergentes, como a Altamira dos anos 70. Altamira é uma cidade paraense, vale dizer).

O impacto tecnológico no meio da aridez miserável do Norte-Nordeste do país é hoje conciliada por um fenômeno musical que vai encher teus ouvidos ano que vem. A Calypso é um pouco, mas certamente teus ouvidos não estão preparados para as mais diversas vertentes do que está sendo chamado, lá BEM em cima, de tecnobrega.

O tecnobrega é a mistura da sanfona com o sintetizador. É o forró com DJ. É o boi amazonense com MC. É um baile funk do Rio com chamego de Garantido e Caprichoso. É proibidão à beira do Solimões. É teclado de churrascaria de beira de estrada com uma banda ao vivo, fazendo show pra caminhoneiro que vai pegar a Cuiabá-Santarém. É pornografia explícita na letra, soterrada com um sotaque sertanejo do agreste. É a transamazônica resgatada pela mais original mistura do país. É a oficialização da pirataria como meio de divulgação. Não essa nossa pirataria chic, mas sim a pirataria de centro de cidade, do asfalto da Rocinha ou da beira do porto de Belém do Pará. É a pirataria de barraquinha, do pague 10 reais e leve "Saia Rodada", "Pepe Moreno" e o Office 2003.

O tecnobrega pega os ritmos amazonenses e o forró. É a Banda Calypso plugada numa mesa de som com um software cachorro pra inverter as bases e colocar uma batida simplória. No Pará, principalmente, os bailes são transmitidos na íntegra nas rádios locais. As intervenções dos MCs são inúmeras, ao longo da mesma música. Eles mandam recado, falam palavras de ordem, incentivando a sacanagem, a liberação de todo e qualquer pudor e pra galera chegar junto, no meio da churrascada e ir pro pau.  

Quais as qualidades, portanto, de um ritmo batido, igual, com uma letra pornográfica ou com dor de corno? De uma sanfoninha repetitiva com um teclado pobre, baixado em qualquer software livre da internet? E ainda encontrando como forma de divulgação a ilegalidade da pirataria barata, aquela de ponta de rua, as barraquinhas se proliferando, com um aparelho de som pirata repetindo este ritmo bagaceiro e sem conteúdo? 

É o Bye Bye Brasil. Uma originalidade que supera qualquer país. É o Bye Bye Brasil encontrando o Sex Pistols. A filosofia punk do "faça você mesmo" é aplicada com exatidão nesse caso. Para dar uma roupagem mais moderna a estes ritmos, como o forró, diversas pessoas que não conhecem música acharam a saída: plugar um sintetizador e sair mandando batidas. E para o gosto popular, nada melhor do que PUTARIA. Disso o brasileiro entende e cá pra nós, é bom pra caralho.

Kraftwerk de palafitas, Luiz Gonzaga com banda larga, Dominguinhos com três amantes, dançarinas da Carrapicho emulando Fatboy Slim, Rio Negro e Solimões embalados em rave. Tudo isso é o tecnobrega. Brega porque é o que o brasileiro é. E porque faz sucesso. E techno porque esta é a tecnologia empregada por eles: software gratuito, usado por quem nunca passou perto de aula de informática, distribuição pirata e show com mestre de cerimônias mandando ver na pegação.  

E como resultado, o ritmo mais criativo da década. Algo inacreditável, que infelizmente ouvidinhos de guri de apartamento porto-alegrense (há algo pior?) não estão acostumados. O choque é muito maior do que qualquer putaria juvenil em festa no Beco. É algo impressionante e que nem eu me acostumei. Só admirei o espírito inventivo de quem criou isso. De tão ruim, mal acabado, feio e absurdo, acabei achando um gênio da nova música brasileira o cidadão que descobriu essa fórmula. Compor sabendo das coisas é bem mais fácil do que não saber absolutamente nada e construir as mais impressionantes pérolas da cara-de-pau desse povo espetacular, que é o brasileiro.

Como ninguém vai ouvir, aí vai o serviço.

Cinco músicas básicas do tecnobrega: 

1) Pepe Moreno - Risca Faca

2) Saia Rodada - Lapada na Chapada

3) Aviões do Forró - Eu não vou mais chorar

4) Felipão e Forró Moral - Dança do Strip Tease

5) Banda Amazônia - Tic Tic Tac (não é a do Carrapicho. É bem pior, no bom sentido.) 

Aposta da casa 

Hit dos carros no verão 2008.

Pra quem gosta de 

Forró roots, ritmos paraenses, floresta amazônica, churrascaria de beira de estrada, espírito caminhoneiro e puta barata. Musicalmente: sem referências anteriores.

Perfeita para ouvir onde 

Num puteiro, com um balde de seis latinhas de Antártica a 8 reais, com uma luz vermelha, numa cidade do interior do Pará ou do Ceará, com um monte de chinelonas cobrando 20 pila o programa ao teu redor. Ou então esperando a barca que atravessa a foz do Amazonas, em Belém, numa barraquinha de CD pirata, comendo um churrasquinho com farofa e tomando cerveja quente.

Ou simplesmente para quem 

Mandou às favas o preconceito musical e entende que a música é uma merda, mas o que vale é o espírito empreendedor da mistura.

Como eu aprendi as coisas com o punk, qualquer coisa que seja original e sem know-how é apreciada com muito gosto por aqui. Não vou ouvir no carro e nem guardar as letras. Só admirar. Por aqui, assim vai funcionar. 

faixasApril 23, 2007 3:23 am

Eu não gosto de música eletrônica. Não gosto de dançar música eletrônica. Não gosto de rave. Não gosto da aparelhagem eletrônica voltada para a transmissão de batidas. Não gosto de DJs. Não entendo nada sobre DJs. Não sei as razões do Fatboy Slim ser melhor do que algum outro DJ de Israel que chega aqui com fama internacional. Não sei o que é psytrance. Não sei o que é house, trance. Tenho noção do que é o drum n’bass. O Fatboy Slim até é legal porque ele fez Rockafella Skank e Weapon of Choice, que, ok, tem o clipe mais foda de todos os tempos. E fez Praise You. Mas não entendo de batidas.

Inacreditavelmente, eu conheço muito mais o tradicionalismo gaúcho do que as vertentes dançantes da música. Mesmo sem nunca ter pisado num CTG e já tendo ido a algumas raves. Nunca tomei bala, talvez seja por isso. Tudo bem, eu estou exagerando só para situar a respeito do meu conhecimento a respeito dos ritmos eletrônicos, que é reduzido. E eu até gostava de alguma coisa do Prodigy, se bem que eles utilizam os artefatos eletrônicos sendo quase um punk moderno techno, ao menos no primeiro disco. E acho o tecnobrega muito mais legal pelo conceito absolutamente revolucionário da questão.

Com todos esses predicados contra a música eletrônica, existe uma, somente uma, que me deixa absolutamente boquiaberto. "Born Slippy", do Underworld, entrou na trilha de Trainspoitting. E é a maior música eletrônica de todos os tempos no meu conceito. É uma batida de nove minutos com um vocal soterrado e repetido que tira do sério qualquer ser humano mais centrado em seus objetivos. "Born Slippy" parece ter sido feita pelo demônio. Composta, criada, concebida e escrita pelo diabo nos piores dias, querendo recrutar simpatizantes para a causa mais nobre na opinião dele. É um caso de estudo, como se fosse uma tortura constante o "Drive boy, dog boy/ Dirty numb angel boy" e vai se repetindo numa harmonia fantástica com uma batida que pulsa até a veia mais discreta do corpo humano.

Exagerei? Ouça esta música então. Se aqui no meu quarto as pernas não param de se mexer, imagina com alguma coisa na cabeça, com uma luz própria e com mais gente ao redor. Três execuções na seqüência te levam ao manicômio. Ou seja, quem fez isso tem muito talento.

Talvez o meu gosto por Born Slippy seja bem maior por essa transgressão auditiva que ela traz pra mim. Como Anarchy In The UK, do Sex Pistols, talvez. Aquelas coisas que lampejos de delírio cometem, em alguma circunstância improvável. Uma música eletrônica que te não te chama pra dançar. Te chama quase pra fazer um pogo, lembrando quase um metal de batucada, um interminável golpe de batidas, intimando para que alguma coisa seja feita. Porque ficar parado não dá. E talvez por isso eu ache esta música tão perfeita. Porque ela é eletrônica com um sentimento humano que eu nunca vi dentro das pickups. E principalmente porque ela é mais rock do que qualquer coisa que se entitule rock nos dias de hoje.  

notasApril 19, 2007 7:17 pm

Aí a descrição da maior comunidade sobre Tecnobrega no orkut:

"O som que faz a Cabeça dos Paraenses!
Essa música toca nas rádios locais e nas festas de aparelhagem, que rola
na periferia paraense, com equipamento gigantesco formado por centenas de amplificadores,
televisores, teclados, "samplers", tudo empilhado em formato de totem tribal eletrônico.
O tecnobrega surgiuno verão de 2002, mas ferveu nas festas de aparelhagem em 2003.
É o velho brega, com batida mais acelerada, feito só com sons de computadores.
Parece um Kraftwerk de palafita, produzido sob calor equatorial por quem
escutou muito carimbó, cúmbia, zouk e Renato e Seus Blue Caps - e não domina ainda
totalmente os recursos do "cut-and-paste" que hoje estão na base dos softwares de
produção musical.
Os músicos não têm mais gravadoras nem o custo de prensar os discos, imprimir as capas ou
distribuir os produtos e isso tudo fica por conta dos camelôs e seus
sistemas não-oficiais de indústria e comércio.
O tecnobrega assumiu a pirataria como forma de divulgação."

 

De fato, o único movimento da música moderna mundial que chamou a minha atenção. New rave o caralho. Tecnobrega é o caminho. Em breve, dicas. Esperem eu conhecer um pouco mais do lance. 

showsApril 13, 2007 4:48 am

Se há algum tipo de falha na minha trajetória musical, certamente são os shows. Não fui a muitos na minha vida. Pelo menos não aqueles de grande relevância. Em Porto Alegre, estive na maioria dos bons shows desde 1993, ao menos isso. Mas a história de sair da cidade pra ver alguma banda é bem recente.

Esta omissão em eventos fora do estado contrasta com uma presença maciça em shows de bandas locais no período 1998-2002.  E nisso, chegamos a novembro de 1999 para escrever sobre o show mais incendiário que eu assisti no Garagem Hermética.

Para explicar um pouco mais do que aconteceu naquela noite, é preciso situar o cenário porto alegrense naquela época. Se hoje Superguidis, Stratopumas, Pública e Pata de Elefante são as mais "populares" no "underground" de POA, naquela época tínhamos a Walverdes (que segue mandando muito bem como a banda mais foda do Estado), a Tom Bloch e a Bidê ou Balde começando. Eram as mais conhecidas, apesar de eu gostar muito da Deus e o Diabo no início (na fase pré-artê, quando eram uns loucos pulando no palco com performances fantásticas). E tinha a figura de Diego Medina, o cara do Doiseu Mimdoisema, autor do clássico "Epilético". Hoje, ainda investe em projetos, conciliando com a carreira de publicitário bem sucedido e ator de comerciais. E certamente o projeto Video Hits gerava uma expectativa.

Havia ainda um fenômeno. Numa época pré-napster, o antigo site da Ipanema colocava gratuitamente as músicas de bandas independentes. E fazia uma parada. Ali, "Cozinha Oriental" e "Sentido Anti-Horário" eram os grandes hits. Era quase uma comunidade, antes de orkut, antes de emule, programas P2P, bittorrent, myspace ou last.fm. Só havia o mp3.com e o site da Ipanema, basicamente. E o site, com mural para recados, era o local onde conhecíamos as novidades.

Estava muito quente no Garagem. Mas quente MESMO. E por favor, esqueça este Garagem novo, amplo e arejado. Até 2000, o GH era um lugar com três ambientes com um pátio externo, única saída para a rua. A melhor casa noturna que Porto Alegre já teve, disparado. Os ambientes eram separados por portas fechadas. Era início de verão. Uns 29 graus na rua que virava uns 42 dentro do lugar.

Além do calor, o lugar estava completamente lotado. A Video Hits subiu no palco com os integrantes vestidos de atendentes de lanchonete, num visual brega-irreverente que eles adotavam na época. A primeira música foi "A 5a embalada", quase uma releitura de jovem guarda toda vinhetada. A partir da primeira estrofe desta música, o que aconteceu ali foi uma explosão conjunta que eu jamais vi em mais de 100 vezes pisando no Garagem. Foi a única vez em que eu vi as estruturas do lugar balançarem. Sei lá quantas cabeças pulando sem qualquer tipo de coordenação.

A minha reação foi de total encantamento com aquilo que eu estava assistindo. Sem dúvida, eu estava diante de um fenômeno que não vingou sei lá por quais razões. Era um desfile de músicas excelentes, hits em potencial e a força de um vocalista carismático, com duas backing vocals extremamente bem ensaiadas e uma banda que segurava tudo que tipo de improvisação que cabia naquela noite.

Quando chegou "Cozinha Oriental", a coisa passou a ficar assustadora. Eu jurava que iríamos morrer dentro do Garagem. O chão era quase uma areia movediça. O teto se mexia. O palco não parava no mesmo lugar. As paredes tremiam. As caixas de som pulsavam como se o que tinha ali dentro fosse sair a qualquer momento e romper qualquer barreira que estivesse na frente. O mesmo aconteceu em "Sentido Anti-Horário", "Furacão", "Joe Aipim" e "O Basset Azul".

Havia algo de impressionante na qualidade de humor e improvisação da banda. Em "Sobras", as meninas coreografavam o final da música inacreditavelmente cantando "Peta, peta, peta, perrugem…". O quê dizer então dos versos "Eu queria ser um WAGNER MONTES pra você", ou "Verão que a moça em questão transformou meu coração em festa de aniversário", ou então pra arrebatar, toda a letra de "Cozinha Oriental", com destaque para o refrão: "Refeição familiar/ É da cozinha oriental/  Não é um vovô esquartejado/ Temperado, desossado/ Que vai me fazer mal". Genialidade completa.

Em determinado momento, nem a banda parecia acreditar no que estava acontecendo. Uma histeria coletiva, uma certeza de que ali estaria a futura maior banda do Brasil. Algo novo, criativo, uma mistura de rock com jovem guarda com televisão brega com referências oitentistas, tudo feito por um fã de Mr.Bungle e com uma criatividade aguçadíssima. Fora as letras, excepcionais. E uma presença de palco inédita para qualquer banda nova que surgia em Porto Alegre naquela época.

A Video Hits deve ter durado uns dois anos. Depois, foi-se. Teve clipe na MTV, visibilidade nacional com "(Vo)C", mas fechou as portas. Lançou um disco oficial. Logo após o show, saiu um CD independente chamado "Doces, Refrescos e Tratamentos Dentários", disputado a tapa. Depois, o disco que saiu pela Abril Music. Mas se foi.

Pra mim, a banda deixou mais do que um disco bem feito. Apresentou o show mais enlouquecido que eu já vi na minha vida. A única vez em que eu realmente pensei que ocorreria uma tragédia num lugar onde estava acontecendo um show. Mas isso não desviou meu olhar para tudo que Diego Medina e CIA faziam naquele palquinho minúsculo do velho, saudoso e inesquecível Garagem Hermética.

Junto com o Bailão do COL de junho de 1999 e com o show do Strange Boys (um dia, prometo, escrevo sobre esta banda) em dezembro de 1998, este show da Video Hits marca pra mim uma época em que eu realmente acreditava na sinceridade, na vibração e na essência de fazer e participar de alguma coisa na música. Hoje, eu só escrevo, pra poucos lerem. Poucos que nem sei se conheceram aquele Garagem. Ou pior, se estiveram naquele dia de novembro. Se algum deles ler isso aqui, certamente vão se transportar para aquela noite insuportável de quente, mas com um sentimento que ultrapassava as fronteiras daquele lugar histórico e assumia de forma eterna um lugar cativo no coração dos presentes naquele dia. 

discosApril 7, 2007 4:48 am

 

 

Esqueça aquela lista que eu fiz dos melhores de 2006. Ainda não tinha chegado até mim esta pérola. "Peeping Tom" é o nome do novo projeto do maior artista da minha geração: Mike Patton.

Dizem que este projeto demorou uns seis anos pra sair. Valeu a pena esperar. Viciado no lado esquisito da força com o Mr.Bungle, Tomahawk e Fantômas, Patton puxa sua artéria pop para chamar uns convidados da mais alta fineza e conceber um dos discos mais sensacionais à primeira vista dos últimos tempos.

É verdade que o rótulo Mike Patton ajuda. Fã desde 1991, sou do tipo que não consegue achar NADA que ele fez ruim. Todos os álbuns que ele fez com o Faith No More são peças fundamentais na minha coleção (The Real Thing, Live At Brixton Academy, Angel Dust, King For a Day, Fool or a Lifetime  e Album of the Year são antológicos). Gosto muito do Mr. Bungle, acho "Disco Volante" (1996) fora de série. E até os ruídos esquizofrênicos do Fantômas me agradaram.

No entanto, fora do rótulo, Peeping Tom é o verdadeiro pós modernismo de qualidade. Cantando como nunca (ou melhor, cantando como sempre, já que não há no mundo alguém que consiga cantar como este monstro sagrado), Patton reúne  Melvins, Beck, Beach Boys, bossa nova, música eletrônica, hip hop e pop moderno chamando convidados como Norah Jones, Bebel Gilberto e Massive Atack, criando uma unidade pop que não teve no ano. 

Ainda pouco conhecido, Peeping Tom parece ser daquelas obras que apontam o futuro da música. Coisas que só saem da cabeça de um visionário lunático como é Mike Patton. Faça o seguinte: baixe todo esse disco. Destaque para a faixa "Mojo" e para a parceria insólita com Bebel Gilberto em "Caipirinha".

O quê: Peeping Tom (2006), novo projeto de Mike Patton (ex-Faith No More, Mr.Bungle, Tomahawk…)

Pra quem gosta de: Mike Patton, Beck, criatividade sem afetação, música eletrônica sofisticada.

Destaque: Mojo (feat. Rahzel e Dan & The Automator)

O disco: 

  1. Five Seconds (com Odd Nosdam)
  2. Mojo (com Rahzel and Dan the Automator)
  3. Don’t Even Trip (com Amon Tobin)
  4. Getaway (com Kool Keith)
  5. Your Neighborhood Spaceman (com Jel e Odd Nosdam)
  6. Kill The DJ (com Massive Attack)
  7. Caipirinha (com Bebel Gilberto)
  8. Celebrity Death Match (com Kid Koala)
  9. How U Feelin? (com Doseone)
  10. Sucker (com Norah Jones)
  11. We’re Not Alone (com Dub Trio)

 

Duvidou de tudo isso? Assista então a esta apresentação do Peeping Tom com Rahzel (do The Roots) e com Mike Patton de REDINHA NO CABELO. Melhor coisa do youtube.


listasApril 3, 2007 5:38 am

Admito que esse é mais fácil. A variedade é maior e tem mais qualidade no meio. Confira a lista:

1- TLC - No Scrubs 

Não apenas coloco TLC no topo desta lista como considero a banda uma das 50 maiores dos anos 90. E é sério. Após o espetacular disco CrazySexyCool (1994), chegou 1999 para que as meninas lançassem um dos singles mais empolgantes da década: "No Scrubs" é irrepreensível e desbancou quem imaginasse as Spice Girls no topo.

2- Destiny’s Child - Emotion 

Um trio que tinha a Beyoncé fazendo uma versão perfeita de Bee Gees. Fora que eu deixei de fora "Independent Woman", "Survivor" e "Lose My Breath". Tinha que estar em segundo na lista. 

3- En Vogue - Whatta Man 

A música é de 1993 e conta com a participação das minas do Salt N’Pepa. 

4- Spice Girls - 2 Become 1 

Wannabe? Que nada! Deixa a música MAIS MELOSA dos últimos 20 anos representar as Spice Girls nesse honroso quarto lugar.

5- TATU - All The Things She Said 

Duas lésbicas (?) no refrão mais poderoso das bandas de garotas.

6- Pussycat Dolls (feat. Snoop Dogg) - Buttons 

Como se esquecer dessa música? Não tem como, com o cafetão só escorando as mina. No melhor estilo gangsta.

7- Salt N’Pepa - None Your Business 

Mais uma da linha do TLC, que fez sucesso no início dos anos 90. 

8- All Saints - Under The Bridge 

A versão desta maravilhosa música do Red Hot Chili Peppers acabou ficando boa.

9- Shampoo - Trouble 

Não sei se alguém se lembra disso, mas tocou bastante na MTV ali por 94.

10- Rouge - Ragatanga 

Melhor coisa surgida no Brasil dentro do estilo. Sem a qualidade do TLC, foi a banda de um hit só (no máximo dois), mas fica para a história daqueles que um dia dançaram isso (ou se recusaram a entrar nessa história). 

listas 5:21 am

Não é algo que eu me aprofunde e goste. No entanto, os anos 90 também foram de diversas bandas de garotos metidos a fodões, com passos coreografados e qualidade duvidosa.

Para classificar uma boy band, sigo um critério básico: eles não podem tocar.

Mas é fato: alguns tinham talento. OUTROS NÃO. Confira agora as 10 melhores faixas de boy band na história recente da música.

1- Nsync - Pop

Cabe a "Pop" o título de melhor música já feita por uma boy band. Aliás, o N’Sync é a melhor boy band de todos os tempos. Não pelo pioneirismo, mas pelo talento. Ótimo refrão, letra contagiante e alguns bons valores na banda, como o Justin Timberlake.

2- New Kids On The Block - Step By Step 

A primeira boy band da minha geração compôs essa música que eu odiei por anos. Mas hoje até admito: é boa e fez escola e história. 

3- Backstreet Boys - As Long As You Love Me

A melhor música da banda mais famosa dos anos 90.  

4- Take That - Back For Good

Tinha o Robbie Williams, que é quase um gênio pop. Foi o único hit, mas valeu a pena terem feito. 

5-  Sampa Crew - Eterno Amor

É quase um "charme". Tem dois carinhas e entram nos critérios. Vai pra lista.

6- Hanson - MmmBop

Alguém acredita que com aquela idade eles tocavam de verdade? Não importa, mas quem fez a música é muito bom. Ela é boa demais.

7- Menudo - Não Se Reprima

A música é chata, mas vale pelo caráter histórico. 

8-  Boyz II Men - One Sweet Day

O Sampa Crew americano.

9- 5ive - When The Lights Go Out

Mais uma que saiu do boom do estilo nos anos 90. Todos os ingredientes para uma música honesta, dentro da onda. 

10 - Dominó - Ela Não Gosta de Mim

Melhor exemplar brasileiro de boy band. Patrocinados pelo Gugu Liberato, morreram cedo e fizeram sucesso. E essa música é um apanhado de boas lembranças da infância.