Se há algum tipo de falha na minha trajetória musical, certamente são os shows. Não fui a muitos na minha vida. Pelo menos não aqueles de grande relevância. Em Porto Alegre, estive na maioria dos bons shows desde 1993, ao menos isso. Mas a história de sair da cidade pra ver alguma banda é bem recente.

Esta omissão em eventos fora do estado contrasta com uma presença maciça em shows de bandas locais no período 1998-2002.  E nisso, chegamos a novembro de 1999 para escrever sobre o show mais incendiário que eu assisti no Garagem Hermética.

Para explicar um pouco mais do que aconteceu naquela noite, é preciso situar o cenário porto alegrense naquela época. Se hoje Superguidis, Stratopumas, Pública e Pata de Elefante são as mais "populares" no "underground" de POA, naquela época tínhamos a Walverdes (que segue mandando muito bem como a banda mais foda do Estado), a Tom Bloch e a Bidê ou Balde começando. Eram as mais conhecidas, apesar de eu gostar muito da Deus e o Diabo no início (na fase pré-artê, quando eram uns loucos pulando no palco com performances fantásticas). E tinha a figura de Diego Medina, o cara do Doiseu Mimdoisema, autor do clássico "Epilético". Hoje, ainda investe em projetos, conciliando com a carreira de publicitário bem sucedido e ator de comerciais. E certamente o projeto Video Hits gerava uma expectativa.

Havia ainda um fenômeno. Numa época pré-napster, o antigo site da Ipanema colocava gratuitamente as músicas de bandas independentes. E fazia uma parada. Ali, "Cozinha Oriental" e "Sentido Anti-Horário" eram os grandes hits. Era quase uma comunidade, antes de orkut, antes de emule, programas P2P, bittorrent, myspace ou last.fm. Só havia o mp3.com e o site da Ipanema, basicamente. E o site, com mural para recados, era o local onde conhecíamos as novidades.

Estava muito quente no Garagem. Mas quente MESMO. E por favor, esqueça este Garagem novo, amplo e arejado. Até 2000, o GH era um lugar com três ambientes com um pátio externo, única saída para a rua. A melhor casa noturna que Porto Alegre já teve, disparado. Os ambientes eram separados por portas fechadas. Era início de verão. Uns 29 graus na rua que virava uns 42 dentro do lugar.

Além do calor, o lugar estava completamente lotado. A Video Hits subiu no palco com os integrantes vestidos de atendentes de lanchonete, num visual brega-irreverente que eles adotavam na época. A primeira música foi "A 5a embalada", quase uma releitura de jovem guarda toda vinhetada. A partir da primeira estrofe desta música, o que aconteceu ali foi uma explosão conjunta que eu jamais vi em mais de 100 vezes pisando no Garagem. Foi a única vez em que eu vi as estruturas do lugar balançarem. Sei lá quantas cabeças pulando sem qualquer tipo de coordenação.

A minha reação foi de total encantamento com aquilo que eu estava assistindo. Sem dúvida, eu estava diante de um fenômeno que não vingou sei lá por quais razões. Era um desfile de músicas excelentes, hits em potencial e a força de um vocalista carismático, com duas backing vocals extremamente bem ensaiadas e uma banda que segurava tudo que tipo de improvisação que cabia naquela noite.

Quando chegou "Cozinha Oriental", a coisa passou a ficar assustadora. Eu jurava que iríamos morrer dentro do Garagem. O chão era quase uma areia movediça. O teto se mexia. O palco não parava no mesmo lugar. As paredes tremiam. As caixas de som pulsavam como se o que tinha ali dentro fosse sair a qualquer momento e romper qualquer barreira que estivesse na frente. O mesmo aconteceu em "Sentido Anti-Horário", "Furacão", "Joe Aipim" e "O Basset Azul".

Havia algo de impressionante na qualidade de humor e improvisação da banda. Em "Sobras", as meninas coreografavam o final da música inacreditavelmente cantando "Peta, peta, peta, perrugem…". O quê dizer então dos versos "Eu queria ser um WAGNER MONTES pra você", ou "Verão que a moça em questão transformou meu coração em festa de aniversário", ou então pra arrebatar, toda a letra de "Cozinha Oriental", com destaque para o refrão: "Refeição familiar/ É da cozinha oriental/  Não é um vovô esquartejado/ Temperado, desossado/ Que vai me fazer mal". Genialidade completa.

Em determinado momento, nem a banda parecia acreditar no que estava acontecendo. Uma histeria coletiva, uma certeza de que ali estaria a futura maior banda do Brasil. Algo novo, criativo, uma mistura de rock com jovem guarda com televisão brega com referências oitentistas, tudo feito por um fã de Mr.Bungle e com uma criatividade aguçadíssima. Fora as letras, excepcionais. E uma presença de palco inédita para qualquer banda nova que surgia em Porto Alegre naquela época.

A Video Hits deve ter durado uns dois anos. Depois, foi-se. Teve clipe na MTV, visibilidade nacional com "(Vo)C", mas fechou as portas. Lançou um disco oficial. Logo após o show, saiu um CD independente chamado "Doces, Refrescos e Tratamentos Dentários", disputado a tapa. Depois, o disco que saiu pela Abril Music. Mas se foi.

Pra mim, a banda deixou mais do que um disco bem feito. Apresentou o show mais enlouquecido que eu já vi na minha vida. A única vez em que eu realmente pensei que ocorreria uma tragédia num lugar onde estava acontecendo um show. Mas isso não desviou meu olhar para tudo que Diego Medina e CIA faziam naquele palquinho minúsculo do velho, saudoso e inesquecível Garagem Hermética.

Junto com o Bailão do COL de junho de 1999 e com o show do Strange Boys (um dia, prometo, escrevo sobre esta banda) em dezembro de 1998, este show da Video Hits marca pra mim uma época em que eu realmente acreditava na sinceridade, na vibração e na essência de fazer e participar de alguma coisa na música. Hoje, eu só escrevo, pra poucos lerem. Poucos que nem sei se conheceram aquele Garagem. Ou pior, se estiveram naquele dia de novembro. Se algum deles ler isso aqui, certamente vão se transportar para aquela noite insuportável de quente, mas com um sentimento que ultrapassava as fronteiras daquele lugar histórico e assumia de forma eterna um lugar cativo no coração dos presentes naquele dia.