Eu não gosto de música eletrônica. Não gosto de dançar música eletrônica. Não gosto de rave. Não gosto da aparelhagem eletrônica voltada para a transmissão de batidas. Não gosto de DJs. Não entendo nada sobre DJs. Não sei as razões do Fatboy Slim ser melhor do que algum outro DJ de Israel que chega aqui com fama internacional. Não sei o que é psytrance. Não sei o que é house, trance. Tenho noção do que é o drum n’bass. O Fatboy Slim até é legal porque ele fez Rockafella Skank e Weapon of Choice, que, ok, tem o clipe mais foda de todos os tempos. E fez Praise You. Mas não entendo de batidas.

Inacreditavelmente, eu conheço muito mais o tradicionalismo gaúcho do que as vertentes dançantes da música. Mesmo sem nunca ter pisado num CTG e já tendo ido a algumas raves. Nunca tomei bala, talvez seja por isso. Tudo bem, eu estou exagerando só para situar a respeito do meu conhecimento a respeito dos ritmos eletrônicos, que é reduzido. E eu até gostava de alguma coisa do Prodigy, se bem que eles utilizam os artefatos eletrônicos sendo quase um punk moderno techno, ao menos no primeiro disco. E acho o tecnobrega muito mais legal pelo conceito absolutamente revolucionário da questão.

Com todos esses predicados contra a música eletrônica, existe uma, somente uma, que me deixa absolutamente boquiaberto. "Born Slippy", do Underworld, entrou na trilha de Trainspoitting. E é a maior música eletrônica de todos os tempos no meu conceito. É uma batida de nove minutos com um vocal soterrado e repetido que tira do sério qualquer ser humano mais centrado em seus objetivos. "Born Slippy" parece ter sido feita pelo demônio. Composta, criada, concebida e escrita pelo diabo nos piores dias, querendo recrutar simpatizantes para a causa mais nobre na opinião dele. É um caso de estudo, como se fosse uma tortura constante o "Drive boy, dog boy/ Dirty numb angel boy" e vai se repetindo numa harmonia fantástica com uma batida que pulsa até a veia mais discreta do corpo humano.

Exagerei? Ouça esta música então. Se aqui no meu quarto as pernas não param de se mexer, imagina com alguma coisa na cabeça, com uma luz própria e com mais gente ao redor. Três execuções na seqüência te levam ao manicômio. Ou seja, quem fez isso tem muito talento.

Talvez o meu gosto por Born Slippy seja bem maior por essa transgressão auditiva que ela traz pra mim. Como Anarchy In The UK, do Sex Pistols, talvez. Aquelas coisas que lampejos de delírio cometem, em alguma circunstância improvável. Uma música eletrônica que te não te chama pra dançar. Te chama quase pra fazer um pogo, lembrando quase um metal de batucada, um interminável golpe de batidas, intimando para que alguma coisa seja feita. Porque ficar parado não dá. E talvez por isso eu ache esta música tão perfeita. Porque ela é eletrônica com um sentimento humano que eu nunca vi dentro das pickups. E principalmente porque ela é mais rock do que qualquer coisa que se entitule rock nos dias de hoje.