
O logo da Rádio Amazônia FM anuncia. É hora do tecnobrega. E eu repito a descrição da comunidade no orkut:
"O som que faz a Cabeça dos Paraenses! Essa música toca nas rádios locais e nas festas de aparelhagem, que rola na periferia paraense, com equipamento gigantesco formado por centenas de amplificadores, televisores, teclados, "samplers", tudo empilhado em formato de totem tribal eletrônico. O tecnobrega surgiuno verão de 2002, mas ferveu nas festas de aparelhagem em 2003. É o velho brega, com batida mais acelerada, feito só com sons de computadores. Parece um Kraftwerk de palafita, produzido sob calor equatorial por quem escutou muito carimbó, cúmbia, zouk e Renato e Seus Blue Caps - e não domina ainda totalmente os recursos do "cut-and-paste" que hoje estão na base dos softwares de produção musical. Os músicos não têm mais gravadoras nem o custo de prensar os discos, imprimir as capas ou distribuir os produtos e isso tudo fica por conta dos camelôs e seus sistemas não-oficiais de indústria e comércio. O tecnobrega assumiu a pirataria como forma de divulgação."
O cara que escreveu isso já é genial. Kraftwerk de palafita é perfeito. Mas eu vou mais longe nesse delírio de idéias para descrever o ritmo que o magal gaúcho (atrasado, como sempre) vai ouvir no carro dele no verão 2008. Abaixo, o meu texto sobre o tecnobrega.
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Um dos meus filmes brasileiros preferidos é Bye Bye Brasil. Feito em 1979 por Cacá Diegues, contava a história da Caravana Rólidei (assim mesmo), uma trupe que misturava espetáculo circense, diversão adulta e jogativa, e que perambulava pelas terras esquecidas do Brasil e que o mesmo Brasil da ditadura fazia questão em enfatizar que existia. Falo da Região da Transamazônica, ou então uma faixa que compreende o litoral de Alagoas, passa pelo sertão, pega o sul da Região Norte, atravessa a fronteira Pará-Mato Grosso e termina nos estados amazônicos.
José Wilker era o chefe da caravana. Betty Faria, a fiel escudeira, a quem Wilker oferecia os serviços de acompanhante à coronelada da região. Juntam-se a eles Fábio Júnior (o mesmo, em, acreditem, belíssima interpretação) e Zaira Zambelli, cujo personagem era uma grávida. A Caravana Rólidêi passava pelos locais mais ermos dessa região esquecida no país. Um misto de sertão com floresta, um rito de passagem de mar, caatinga, cerrado e selva, com cidades ainda subdesenvolvidas, onde naquela época a TV era ainda uma invenção mirabolante e cara. Detalhe que o homem pousou na Lua dez anos antes e tudo isso passou na TV. Coisas de um Brasil atraente demais, no meu ponto de vista.
Bye Bye Brasil era a perfeita sinergia do arcaico com o moderno. Os serviços da caravana (baralho, putaria e circo) se confrontavam com o que eles chamavam "espinha de peixe" (as antenas de TV, espalhadas em lugares emergentes, como a Altamira dos anos 70. Altamira é uma cidade paraense, vale dizer).
O impacto tecnológico no meio da aridez miserável do Norte-Nordeste do país é hoje conciliada por um fenômeno musical que vai encher teus ouvidos ano que vem. A Calypso é um pouco, mas certamente teus ouvidos não estão preparados para as mais diversas vertentes do que está sendo chamado, lá BEM em cima, de tecnobrega.
O tecnobrega é a mistura da sanfona com o sintetizador. É o forró com DJ. É o boi amazonense com MC. É um baile funk do Rio com chamego de Garantido e Caprichoso. É proibidão à beira do Solimões. É teclado de churrascaria de beira de estrada com uma banda ao vivo, fazendo show pra caminhoneiro que vai pegar a Cuiabá-Santarém. É pornografia explícita na letra, soterrada com um sotaque sertanejo do agreste. É a transamazônica resgatada pela mais original mistura do país. É a oficialização da pirataria como meio de divulgação. Não essa nossa pirataria chic, mas sim a pirataria de centro de cidade, do asfalto da Rocinha ou da beira do porto de Belém do Pará. É a pirataria de barraquinha, do pague 10 reais e leve "Saia Rodada", "Pepe Moreno" e o Office 2003.
O tecnobrega pega os ritmos amazonenses e o forró. É a Banda Calypso plugada numa mesa de som com um software cachorro pra inverter as bases e colocar uma batida simplória. No Pará, principalmente, os bailes são transmitidos na íntegra nas rádios locais. As intervenções dos MCs são inúmeras, ao longo da mesma música. Eles mandam recado, falam palavras de ordem, incentivando a sacanagem, a liberação de todo e qualquer pudor e pra galera chegar junto, no meio da churrascada e ir pro pau.
Quais as qualidades, portanto, de um ritmo batido, igual, com uma letra pornográfica ou com dor de corno? De uma sanfoninha repetitiva com um teclado pobre, baixado em qualquer software livre da internet? E ainda encontrando como forma de divulgação a ilegalidade da pirataria barata, aquela de ponta de rua, as barraquinhas se proliferando, com um aparelho de som pirata repetindo este ritmo bagaceiro e sem conteúdo?
É o Bye Bye Brasil. Uma originalidade que supera qualquer país. É o Bye Bye Brasil encontrando o Sex Pistols. A filosofia punk do "faça você mesmo" é aplicada com exatidão nesse caso. Para dar uma roupagem mais moderna a estes ritmos, como o forró, diversas pessoas que não conhecem música acharam a saída: plugar um sintetizador e sair mandando batidas. E para o gosto popular, nada melhor do que PUTARIA. Disso o brasileiro entende e cá pra nós, é bom pra caralho.
Kraftwerk de palafitas, Luiz Gonzaga com banda larga, Dominguinhos com três amantes, dançarinas da Carrapicho emulando Fatboy Slim, Rio Negro e Solimões embalados em rave. Tudo isso é o tecnobrega. Brega porque é o que o brasileiro é. E porque faz sucesso. E techno porque esta é a tecnologia empregada por eles: software gratuito, usado por quem nunca passou perto de aula de informática, distribuição pirata e show com mestre de cerimônias mandando ver na pegação.
E como resultado, o ritmo mais criativo da década. Algo inacreditável, que infelizmente ouvidinhos de guri de apartamento porto-alegrense (há algo pior?) não estão acostumados. O choque é muito maior do que qualquer putaria juvenil em festa no Beco. É algo impressionante e que nem eu me acostumei. Só admirei o espírito inventivo de quem criou isso. De tão ruim, mal acabado, feio e absurdo, acabei achando um gênio da nova música brasileira o cidadão que descobriu essa fórmula. Compor sabendo das coisas é bem mais fácil do que não saber absolutamente nada e construir as mais impressionantes pérolas da cara-de-pau desse povo espetacular, que é o brasileiro.
Como ninguém vai ouvir, aí vai o serviço.
Cinco músicas básicas do tecnobrega:
1) Pepe Moreno - Risca Faca
2) Saia Rodada - Lapada na Chapada
3) Aviões do Forró - Eu não vou mais chorar
4) Felipão e Forró Moral - Dança do Strip Tease
5) Banda Amazônia - Tic Tic Tac (não é a do Carrapicho. É bem pior, no bom sentido.)
Aposta da casa
Hit dos carros no verão 2008.
Pra quem gosta de
Forró roots, ritmos paraenses, floresta amazônica, churrascaria de beira de estrada, espírito caminhoneiro e puta barata. Musicalmente: sem referências anteriores.
Perfeita para ouvir onde
Num puteiro, com um balde de seis latinhas de Antártica a 8 reais, com uma luz vermelha, numa cidade do interior do Pará ou do Ceará, com um monte de chinelonas cobrando 20 pila o programa ao teu redor. Ou então esperando a barca que atravessa a foz do Amazonas, em Belém, numa barraquinha de CD pirata, comendo um churrasquinho com farofa e tomando cerveja quente.
Ou simplesmente para quem
Mandou às favas o preconceito musical e entende que a música é uma merda, mas o que vale é o espírito empreendedor da mistura.
Como eu aprendi as coisas com o punk, qualquer coisa que seja original e sem know-how é apreciada com muito gosto por aqui. Não vou ouvir no carro e nem guardar as letras. Só admirar. Por aqui, assim vai funcionar.
