
Já cruzei com o Lobão quatro vezes na minha vida. Não sou amigo dele, o máximo que fiz foi elogiá-lo pelo lançamento de "A Vida é Doce" (1999), na época. Lobão é daqueles que presta atenção em absolutamente tudo que tu fala. Pra depois ele falar. Por horas. Comigo, que era naquele tempo um guri de 19 anos encantado com uma obra independente de altíssima qualidade, foi assim. Dois anos depois, um amigo meu deu um CD da minha ex-banda pra ele. Ele é um cara legal, acho.
No entanto, o Lobão não tem nenhum tipo de reconhecimento do público mais jovem que idolatra os Los Hermanos, e deveria fazê-lo com o Velho Lobo também. Dá pra dividir a carreira do Lobão em três partes: a oitentista, cheia de hits da época, a perdida, quando lançava sem critérios discos misturando samba e rock e a fase anos 90 do Lobão, pra mim absolutamente genial.
"Nostalgia da Modernidade", "Noite" e "A Vida é Doce" são os três melhores discos do Lobão. Três obras que devem constar entre as melhores da década. Uma trilogia sublime, que emana descontentamento com o sistema, vazio criativo, pânico e ironia de uma forma belíssima. Arranjos que apontavam para um futuro que não sei se de fato aconteceu, letras excepcionais e um instrumentista/criador numa forma esplendorosa.
Lobão brigou com gravadoras, criou uma própria e agora chega com seu Acústico. Ele mesmo define que odeia o formato. Mas o repertório colocado no Acústico sem sombra de dúvidas é bastante interessante. Mesmo que coloque os hits "Me Chama", "Decadence Avec Elegance", "Rádio Blá" e "Corações Psicodélicos", Lobão mescla com as excelentes "A Queda", "Vou Te Levar" e "A Vida é Doce", por exemplo. Tira fora, acertadamente, "Vida Bandida" e carrega nesta fase boa da carreira, que todos deveriam conhecer. Um cara sem preconceitos, completamente maduro e antenado com o que acontece.
O Acústico, bem, é um acústico da MTV, moldado pela emissora da maneira que o formato foi consagrado. Mas as músicas boas estão ali, intactas, eternas, vivas e contundentes. Um bom disco de um dos melhores compositores do Brasil. Pena que os três discos citados acima são semi-relíquias. E outra pena que a melhor música dele nessa fase, "Para o Mano Caetano", lançada como single, não está presente. Uma das melhores letras feitas na década, um chute no saco do caetanismo que domina a MPB (apesar de eu ser fã do baiano, às vezes ele vacila na super exposição e na opinião-pra-tudo).
Mas se der, baixe. Você vai conhecer um pouco do que ele fez de bom e quem sabe, baixe esses três discos essenciais para se entender um pouco do sentimento de ressaca eterna daquele que se recusou a viver sob o estigma do "Rock Brasil 80". Ainda bem que ele não fez que nem o Léo Jaime ou qualquer outro da década, que hoje se apresentam em festinhas anos 80, um revival que eu não agüento mais. Ele se modernizou. Viveu a Nostalgia da Modernidade. E está aí, lançando um acústico digno, mandando bala aos 50 mostrando a cara de 50 anos e fazendo música aos 50 anos. E principalmente, fazendo música em 2007 como deve se fazer música em 2007.
