Cowboy in the Sand

UncategorizedJuly 30, 2007 4:18 am

 Já escrevi aqui sobre Engenheiros do Hawaii algumas vezes. Na verdade, ultimamente eu ando usando este espaço quase como um justiceiro, querendo que alguns artistas sejam devidamente reconhecidos, idolatrados, reverenciados. Aqui, é difícil se elogiar uma banda como Engenheiros do Hawaii quando se tem várias onde os integrantes são "amigos da galera". O Humberto Gessinger nunca foi visto bebendo trago no Bambu’s ou no Bell’s, talvez por isso tanta gente o considere cafona, passado, chato. Ele disse uma vez que há os que amam ou odeiam os EngHaw. Eu estou no primeiro time.

Eu sou um caso à parte na verdade. Engenheiros do Hawaii foi a banda que me despertou junto com várias para a música. Depois eu conheci outras coisas e deixei os caras de lado, ali por 1992.  De uns tempos pra cá, descobri que eu perdi a melhor fase deles, justamente a trilogia "Várias Variáveis", "GL&M" e "Filmes de Guerra, Canções de Amor" (já foi tema aqui). Três discos onde Humberto Gessinger desfila o melhor de sua forma, com letras esbanjando um sarcasmo inteligente e um instrumental afinadíssimo, quase um low-fi do rock brasileiro, incompreendido por, talvez, falta de carisma dos membros da banda (e excesso de inteligência).

No segundo disco (o melhor disco de estúdio dos Engenheiros), "Gessinger, Licks & Maltz", a banda nos brinda com "Parabólica". A música é uma homenagem do cara à sua filha, recém nascida. "Parabólica" é quase uma modinha de violão, bem baixinha, um dedilhado persistente que dá a entonação necessária para uma letra que é uma grande sacada (mesmo que insistam na incompreensão disso). Um hit instantâneo, uma balada sem refrão e com uma letra bem difícil, com todas as frases começando com a letra "P".

Agora, escute a música dentro da genialidade de composição do disco (onde há a relação direta de uma canção para a outra, antecipando a era dos links). Ela se torna ainda mais grandiosa, quase uma autenticação do singelo dentro da porrada que foi o início da década passada. E se for ouvir isolada, ela é irresistível. Até aprender a letra, até aprender a tocar ou entender tudo que ele quis passar com essa música.

Eu não vou tentar convencê-los da beleza dessa música, dessa banda e das letras do grupo. Até porque sou daqueles mais radicais que acha que realmente, a banda caiu muito após a saída do Licks. Mas tudo bem, eles fizeram tanta coisa boa que têm um crédito enorme pra mim. Fosse assim, odiaria o Led Zeppelin só porque os discos solo do Robert Plant são uma bosta, certo? Como não é o caso, confere aí, a genialidade do Humberto Gessinger.

artistasJuly 10, 2007 3:56 am

O brasileiro faz a melhor música do mundo, mas quando é pra promover, só sabe colocar pros outros a mesma coisa (com exceções): BALANÇO e BOSSA NOVA. Resultado: um bando de pangaré fazendo qualquer coisa metida a ter suíngue (salve MESTRE Jorge Ben, pelo amor de deus, mas detonem por favor 80% dos escrotos que não sabem fazer samba rock, ou pior, estes que fizeram do samba-rock algo absolutamente igual, repetitivo e sacal). Ou então mais um bando de pangaré misturando alguma coisa que a Bjork, o Beck ou o Devendra Banhart disseram que é legal com a bossa nova repaginada. Por sinal, o que faz sucesso nosso fora do Brasil é, basicamente, a Bebel Gilberto e o Cansei de Ser Sexy (esta sim, uma banda original, criativa e, sim, brasileiríssima, no sentido mais bagaceiro de todos).  

Durante muito tempo, a MPB viveu do Chico Buarque (aquele que nunca recebeu críticas, mesmo quando lançava um disco, vá lá, mais ou menos) e da palavra de Caetano Veloso (o que Caê dizia que era bom, assinava-se embaixo). Aqui escreve um profundo admirador de Chico e Caetano, de todas as suas fases, inclusive. Caetano gravou "Amanhã", de Guilherme Arantes, na época em que Guilherme Arantes era um bom compositor e todos assinaram embaixo. Mas acho que este gênio da música brasileira não teve a consideração merecida.

Aproveitando a onda do rock progressivo dos anos 70, Guilherme Arantes foi um desbravador quando lançou em 1975 a balada "Meu Mundo e Nada Mais". Pianistas compositores já não eram novidade desde o ótimo Ivan Lins do início dos anos 1970. No entanto, com esta música, ele foi além. "Meu Mundo e Nada Mais" é uma balada chorosa, com uma levada de piano do início ao fim, remetendo não só ao progressivo, mas como a do maior mestre nessa vertente pianística.

Em 1973, Elton John lançou o fundamental "Goodbye Yellow Brick Road", transgredindo o pop com um piano inconfundível. Arantes repetiu o fato dois anos depois, aqui no Brasil. Fundindo Elton John com Clube da Esquina, Rick Wakeman com Roberto Carlos, fez um disco de estréia fantástico, puxado por esta música. Isso bem antes dele compor o hino "Amanhã", que muitos ainda consideram brega de uma forma errada. Mas fazem assim com qualquer música "engajada-positiva", e eu lembro aqui "Amigo", de Roberto Carlos, "Coração de Estudante", de Milton Nascimento e "O que é o que é", de Gonzaguinha, pra citar três obras primas desses artistas, nem sempre as mais reconhecidas dos três. "Amanhã" é igualmente linda, mas não uma surpresa, como a mídia o considerou no início dos anos 70. Na verdade, foi só a prova da consolidação de um artista no auge da criação, o mesmo que pintou como grande promessa da música no final da década e não vingou por algumas irregularidades na carreira normais na trajetória de qualquer grande artista.

Como sempre acontece tardiamente com alguns gênios, é preciso que algum tipo de nova sensação da MPB faça alguma redescoberta com Guilherme Arantes. Belchior ganhou vida para os jovens através dos Los Hermanos. Fágner teve que fazer parceria com Zeca Baleiro pra que lembrassem que ele não era somente um peixe para em teu límpido aquário mergulhar. Osvaldo Montenegro é muito maior do que uma declaração de amor clichê de que metade de mim é amor e outra metade também. Zé Ramalho não simplesmente batia na porta do céu. Foram todos grandes compositores que hoje são esquecidos ou viram repertório de voz-violão em barzinho da moda pra meia dúzia cantar junto com aquela "Essa noite eu quero ir mais além/eu não devo nada pra ninguém" ou com a versão da Ana Carolina pra música do Damien Rice. Um balaio onde não se separa o joio do trigo, misturando porcarias que encantam enquanto a ceva fizer efeito com canções sem prazo de validade, únicas e especiais na melhor música do mundo, a brasileira.

Era um reconhecimento que esse cara gente boa pra cacete mereceria. Uma redescoberta da sua obra, que não é brega, é altamente qualificada, bonita e consistente. Eu começo por "Meu Mundo e Nada Mais". Fez sucesso e virou trilha de novela. Mas a Ana Carolina com o Totonho (Antonio) Villeroy também, não? E comparando boas canções com porcarias, a relação custo benefício dela empata com o Guilherme. Se bobear, até perde. 

bandas, faixasJuly 7, 2007 7:08 am

Como eu fiz há algum tempo com a música P da Vida, do Dominó,  vou postar uma letra inacreditável composta na história da nossa música. O autor? O gênio. O visionário. O louco. Fausto Fawcett (provavelmente se junta a Belchior, Humberto Gessinger, Guilherme Arantes e Odair José como os cinco maiores gênios incompreendidos da música brasileira) é o mentor desta pérola. Cantada pelas Sublimes, no primeiro disco da banda de Isabel Fillardis, álbum que contém a MÁGICA "Boneca de Fogo", de longe a faixa mais instigante composta pelo pop nacional na melhor década do mundo (1990). Vamos à letra COMENTADA:

 TYSON FREE

Free! Free! Mike Tyson Free!
Uppercut! (golpe)
Free! Free! Mike Tyson Free!
Knock Down! (caiu na lona)
Free! Free! Mike Tyson Free!
Jab! Jab! (leva pras cordas)
Free! Free! Mike Tyson Free!
Knock Out! (foi pro chão de vez!)

O poeta do boxe animal foi seduzido/foi
Foi iludido/foi
Sacaneado/foi

(O POETA DO BOXE ANIMAL caiu na armadilha. Foi SACANEADO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ILUDIDO!!!!!!!!! E aí, a euforia chega ao grau máximo, já nos primeiro segundos) 

Por uma mulataça venenosa
Do sexo amor interesseiro
Por uma mulataça venenosa
Do sexo amor interesseiro

(Uma mulataça venenosa que só queria SEXO INTERESSEIRO COM NOSSO POETA MIKE TYSON!!!!! INJUSTIÇA)

O sofrido boxer vingativo da vida
Sacaneado/foi
Foi iludido/foi
Foi engolido/foi

Comeu a maçã da Eva negativa e foi expulso (????????????? A EVA NEGATIVA??????????)
Do paraíso do dinheiro
Do paraíso da fama
Do paraíso da grana
Do paraíso do luxo
Do paraíso do sexo
Do paraíso do sexo

(O PARAÍSO DO LUXO, DO SEXO. ELE FOI VÍTIMA DO SEXO, TYSON, FREEE!)

Por uma gostosona sofrida
Vingativa da vida
Ancestral mulata
De estirpe messalina
Comeu, comeu e prendeu
O poeta do boxe Xangô!

(Aí, toda a POESIA de Fausto Fawcett está escancarada. DE ESTIRPE MESSALINA é pra fechar a indústria fonográfica MUNDIAL e repensar tudo o que fizeram sobre música até agora)

O poeta do boxe troglô foi seduzido
Por uma fulaninha poeta
Do sentimento mulherzinha
Irresistível vamp
Irresistível vamp com
Sangue de conhaque lua preta no olhar
Sangue de conhaque lua preta no olhar
Da fulaninha poeta
Do sentimento mulherzinha
Sacaneado, seduzido, iludido
Sacaneado, seduzido, iludido
Sacaneado, seduzido, iludido
Sacaneado, seduzido, iludido
O poeta do boxe troglô
O poeta do boxe animal

(É quando a música já nos arrebata de vez, nos deixando a pergunta de como que essa banda não foi a DESTINYS CHILD brasileira, com sucesso merecido)

Preparando o quê na cadeia?
Sonhando o quê na cadeia?
O poeta do boxe animal
Agora tá batendo na cadeia!
(Como o sexo acabou com ele, ele tá se ACABANDO NA CADEIA, o POETA DO BOXE ANIMAL!)

Free! Free! Mike Tyson Free!
Agora tá batendo na cadeia
Free! Free! Mike Tyson Free!
Agora tá sonhando o quê na cadeia?
Free! Free! Mike Tyson Free!
Quando sair o que vai ter?
Free! Free! Mike Tyson Free!
O que ele tá pensando na cadeia?

(E segue o disparate…)

Free! Free! Mike Tyson Free!
Knock Down!
Free! Free! Mike Tyson Free!
Jab! Jab!
Free! Free! Mike Tyson Free!
Knock Out!
Free! Free! Mike Tyson Free!
Free! Free! Mike Tyson Free!
Free! Free! Mike Tyson Free!

(LIBERDADE PARA TYSON. JAB JAB. KNOCK OUT.)

E quem sai nocauteado é quem escuta a maior pérola dos últimos tempos. Alguém completamente ciente de suas capacidades mentais não conseguiria isso. Um grito de liberdade para Mike Tyson que pede aquele UH TERERÊ na seqüência. Genial, genial. Obra brasileira, obra carioca, obra de quem simplesmente decidiu FODER qualquer estrutura rítmica, musical, de letras, qualquer porra feita na música.

É por isso que eu ainda idolatro esse filho da puta. Amém. Amém. Só me ajoelho, é só o que resta. Knock Out!!!!

 

faixasJuly 3, 2007 2:18 am

Eu queria escrever sobre essa música há algum tempo, mas só agora eu consegui parar para colocar algumas linhas a respeito da única música que eu conheço da cantora desconhecida (pra meu bem, tomara que continue assim) Rosana Arbelo.

Mesmo eu não tendo a menor idéia sobre a carreira de Rosana, "A Fuego Lento" é impossível não conhecer. Parece que ela foi uma febre muito maior aqui em Porto Alegre do que em outras partes do país, não sei bem. E mais: nunca foi um grande sucesso radiofônico. Mesmo assim, nas pistas de boyzinhos e patricinhas de Porto Alegre, ela toca sempre.

Claro que como pós adolescente recente vivendo na capital gaúcha, não escapei a este fenômeno. E aqui escrevo sobre "A Fuego Lento" com a intimidade que essa música me deu nos últimos dez anos. 

Pra começar, "A Fuego Lento" é uma baita música. Claro que eu espero alguns comentários de gente dizendo que eu tô exagerando, mas sinceramente não ligo muito pra isso. Quem não gosta, é porque simplesmente não tem uma parte do corpo chamada cintura. Assim é essa música. Toca e logo atinge alguma parte do cérebro que ativa em doses gritantes o sentido de dançar. E dançar muito, até que ela acabe.

"A Fuego Lento" é uma levada latina constante, sem mudança de andamento, sem solo, apenas duas ou três respiradas e tacando o "fuego" até o final, com uma voz tipicamente latina e uma viola que anda na mesma direção o tempo todo. Uma fórmula fácil, uma música fácil, mas estranhamente enlouquecedora numa festa.

Portanto, "A Fuego Lento" é na minha opinião a música mais dançante de todos os tempos. É uma relação íntima e particular, assim como todas as opiniões desse blog. É ruim? Nada. É boa pra cacete, um convite de três minutos e pouco para tu esquecer da vida e for dançar. Se tu acha que isso queima teu filme, faça-me o favor de ter uma aula de como se divertir, valeu?