
Não, eu não enlouqueci. O mesmo que escreveu sobre o Sepultura está colocando aqui um post sobre a música gauchesca, a música tradicionalista do estado onde nasci, cresci e vivo até então.
Escrever sobre este assunto, confesso, é mais difícil do que imaginava. Mais até do que o Top 10 Caetano, já que este post prometido é apenas uma questão de tempo e organização. Afinal, posso dizer que conheço muito mais a obra de Caetano Veloso do que qualquer artista regionalista. A dificuldade também acabou sendo percebida por outros fatores culturais. Mesmo antes da internet, eu fui criado já sob a égide da globalização. Sou da geração da TV, depois do UHF, das Rádios FM, das revistas gringas e do início da MTV. Depois veio a internet, veículo plenamente integrado ao meu método de vida.
Nunca andei a cavalo. Não conheço Alegrete, Santana do Livramento, Uruguaiana, São Gabriel, Bagé, nunca fui nas Missões nem na Campanha. Meu conhecimento geográfico presente do Rio Grande do Sul se restringe à Região Metropolitana, ao litoral, à Serra Gaúcha e a raras visitas à Região Central (Santa Maria, Santa Cruz), a alguma coisa da Região Norte (Passo Fundo) e da Região Sul (Pelotas, Rio Grande). Em alguns lugares, eu fiquei um dia apenas e voltei. Logo, é uma FRAUDE falando sobre nativismo. Ou quase, peralá.
No último ano, decidi investigar mais fundo a respeito de música. Ou ao menos de alguns estilos. Há apenas um ano eu ouvi "Desgarrados", de Mário Barbará e Sérgio Napp e me apaixonei. Uma música sobre os excluídos do estado que é uma poesia bruta absolutamente espetacular. A mp3, digitalizada de um vinil antigo, provavelmente de época, mantém aquele ruído característico e isso me ajudou a simplesmente venerar esta música.
Desde então, uma pesquisa árdua buscando tudo o que há de melhor na história de Califórnias da Canção, Tertúlias da Canção, Moendas da Canção e outros festivais. O banco de dados é tão vasto que fascina. Gosto disso. A busca pelo desconhecido, pela investigação a respeito de uma cultura existente, cativa e consistente. Foi quando eu percebi toda a magia da música gaúcha. Eu fui criado ouvindo metal e punk rock. Gosto de gangsta e de rap nacional. Minha banda preferida é Smashing Pumpkins. Nada poderia não combinar. De onde veio essa atração repentina pelo gauchismo? Logo fui ao country americano. Fã do ritmo (do country de qualidade e do folk), há alguma semelhança estética que talvez só eu tenha notado. O campo, o lirismo, o bucólico, a liberdade, as cavalgadas, as longas jornadas de solidão e a companhia na maior tempo de uma paisagem exuberante transformados numa música ora dançante, ora de veneração pela própria terra, ora de escape para uma solidão que encanta e vira poesia.
Aí vai meu top 10 nativista. Feito por um leigo no assunto. Talvez este seja meu post musical mais inseguro de todos. Justamente por isso permito correções nos comentários. Mas resolvi escrever, como uma forma de homenagem a esta riquíssima música que tem uma qualidade imensa, à despeito de inúmeras bostas de bailão de fundo de quintal. Mas isso todo gênero tem.
1- Desgarrados (Mário Barbará e Sérgio Napp)
Já escrevi sobre esta música acima. Ouso afirmar que é uma das canções mais lindas que já ouvi. Poesia bruta, melodia singela e instrumental impecável. De chorar no cantinho da fogueira.
2- Vento Negro (José Fogaça)
Pois é, nosso prefeito era um excepcional compositor. "Vento Negro" deveria ser um clássico a ser ensinado em qualquer escola do estado. E é o refrão mais melancólico produzido aqui no estado. Linda, linda.
3- Céu, Sol, Sul, Terra e Cor (J. Morecy Teixeira)
Uma homenagem profunda e poética às coisas do Rio Grande do Sul. "mostrar para quem quiser ver
o lugar para viver sem chorar." é o trecho que exalta um orgulho absolutamente único. E admirável.
4- Horizontes (Flávio Bicca)
Urbanismo bucólico homenageando a capital dos gaúchos. Um horizonte que tinha como perspectiva tempos melhores após tempos difíceis pós-ditadura. Um ápice de criatividade.
5- Semeadura (Vitor Ramil e José Fogaça)
Aí o prefeito de novo, nesse clássico composto junto com Vitor Ramil. Semeadura é outra música fortíssima, uma milonga que prega uma jornada, o espírito de luta do povo gaúcho, uma seqüência de não perder as esperanças na jornada que pode ser longa.
6- Os Cardeais (Elton Saldanha)
O compositor pop do nativismo compôs esta balada que dá vontade de chorar, uma apologia à liberdade, numa analogia de pura sensibilidade, sobre os pássaros que são bem melhores livres. Para que estamos presos então?
7- Pêlos (José Cláudio Machado)
Para os especialistas, é o maior cantor de todos os tempos na música gauchesca. A voz de José Cláudio Machado é, de fato, de arrepiar. Uma música irresistível, impossível de não saber o refrão após a segunda audição.
8- Os Homens de Preto (Paulo Ruschell)
Essa música é quase uma prece, que empurra a boiada, a comitiva, pelas coxilhas, com os homens de preto puxando a boiada e o animal marcado só seguindo o rumo definido por eles. Genial! Uma oração!
9- Canto Alegretense (Nico e Bagre Fagundes)
Típica, conhecida, manjada? Canto Alegretense é uma homenagem à cidade do Alegrete, às estâncias gaúchas, numa estrutura absolutamente pop, que até pagode acho que virou.
10- Coração de Luto (Teixeirinha)
Leia a letra de Coração de Luto e saiba o que é realmente melancolia na música. Fora que tem Teixeirinha, o maior nome do nativismo.

…po, muito bom o texto!
semelhança estética do nativismo é o tango, o lance todo ali da argentina e uruguai… milongas e acordes da gaita e etc e tal
buenas, também não sou grande conhecedora da musica gauchesca, mas pra mim tá faltando no mínimo Veterano nessa lista… bom, mas a lista é tua e eu só conheço pelo nome 3 das que escolhestes…
beijo
Comment by Manuela — August 31, 2007 @ 3:34 am
Ficou faltando uma referência onde encontrar em disco cada uma das canções.
Comment by Carlos — December 16, 2007 @ 3:15 am
muito bom ,continue,um gauderio tem, persistir nos sonhos.manter tradição com humor.
Comment by maria clara — May 20, 2008 @ 1:09 pm
olá. este comment é velho mas o encontrei justamente porque estava pesquisando sobre o mario barbará. graças a música ‘desgarrados’ aprendi(haha) a tocar violao. Espero que tenhas encontrado na tua pesquisaa música ‘gaúcho de bronze’ do 3o. musicanto. é tao boa quanto desgarrados. um abraço, Marcelo.
Comment by marcelo — April 22, 2009 @ 8:55 pm