Legião Urbana é a maior banda brasileira de todos os tempos. Os Mutantes ficam em segundo lugar. Mas o que o Legião conseguiu produzir em pouco mais de dez anos de carreira é algo de ser estudado, publicado e chocado. A banda deve receber rótulo de fenômeno e Renato Russo de gênio.
Maior letrista brasileiro de todos os tempos, Renato Russo era um caso à parte. Era feio, tímido, saído do cerrado pro meio dos cariocas descolados (Cazuza, Evandro Mesquita), dos paulistas "doidões" (Arnaldo Antunes, Nasi, Roger), dos amigos da galera (Lulu Santos, Herbert Vianna) ou das gostosas (Paula Toller, Fernanda Abreu). Mas o Renato era diferente. Até de seus companheiros de Brasília, o bonitão Dinho Ouro Preto e aquela coisa semi-punk da Plebe Rude.
Uma das figuras mais depressivas e agressivas que a música já tomou conhecimento, a veia compositora de Renato Russo beirava o brilhante. Enquanto o letrista mais aclamado da década, Cazuza, era direto e ácido, Renato era poeta. Logo no primeiro disco uma faixa cuja estrofe mais marcante é "Lembra quando a gente/chegou um dia a acreditar/que tudo era pra sempre/sem saber/que o pra sempre/sempre acaba" já dá pra saber o que ele tinha em mente. Perturbação pura, uma tristeza infinita e um dom que talvez o rock brasileiro nunca mais tenha.
"Daniel na Cova dos Leões" é um exemplo disso:
Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo
De amargo então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve
E forte, cego e tenso fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.
E todo mundo cantou isso na época. Bem, o gosto amargo do corpo ficou na boca e ficou doce. Pela primeira vez, ele assumia seu homossexualismo. Preste atenção na letra. Sim, o gosto é do esperma do namorado, amargo e ficou doce. Ele mesmo admitiu anos depois que era isso que queria colocar na letra.
A partir de então, cada disco da Legião era um grande conceito que girava em torno da vida de Renato Russo. O estado de espírito ditava mais ou menos como seria cada álbum. Em "Quatro Estações" (1989), ele decide explodir com tudo e abrir de vez a porta do armário. A primeira FRASE do disco é "PARECE COCAÍNA/ MAS É SÓ TRISTEZA", em "Há Tempos". Cocaína é a segunda palavra do disco mais bem sucedido da banda. "Pais e Filhos" fala sobre suicídio (talvez pela primeira vez na carreira da banda). "Meninos e Meninas" escancara de vez o que todo mundo imaginava. Ele gosta de meninos e meninas. Sem contar a qualidade musical da obra. Pelo menos, assim, de cabeça, nove faixas estouraram: Há Tempos, Pais e Filhos, Meninos e Meninas, 1965, Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto, Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar, Eu Era um Lobisomem Juvenil, Monte Castelo e Sete Cidades.
Quando Renato Russo descobriu que estava doente, aí ninguém segurou mais nada. Compôs sua obra prima. "V", de 1991, já resenhado aqui, é pra cortar os pulsos.
Vejamos "Vento no Litoral". A música é um suicídio. "Ei, olha só o que eu achei/ Cavalos Marinhos". O cara se mata, se joga no mar, após um coração partido. Sem contar "Metal Contra as Nuvens", uma epopéia de 12 minutos, porrada pra ninguém botar defeito. Ou quem sabe "Teatro dos Vampiros". Um disco maravilhoso, explorando um Renato Russo que bebia horrores na época e que estava desesperançoso com qualquer coisa. "A cada hora que passa envelhecemos dez semanas". Conceito puro com as letras mais perfeitas que ele já fez.
Passados três anos, Renato Russo, em entrevista esplêndida ao Zeca Camargo pra MTV, fala que quer fazer um disco com flores, borboletas e corações. Chega "Descobrimento do Brasil", chamando a AIDS pra porrada e dizendo que ainda tá vivo. E com esperança.
Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!…
Pode vir, tô aqui e nada vai me fazer sofrer. Era a ressureição de um gênio constantemente abalado por uma bipolaridade assumida e uma auto-destruição potente. Dois anos depois, ele joga a toalha pra sempre, com "A Tempestade ou O Livro dos Dias" e morre em outubro de 1996.
O título é altamente provocativo e inútil, na real. Alguém decifraria Renato Russo? Alguém consegue? Não, impossível. Enquanto isso, eu escuto as músicas da Legião Urbana cada vez mais impressionado. Eu me ajoelho diante de "Faroeste Caboclo", por exemplo, uma história de amor e morte sem refrão, com quase dez minutos e que todo mundo sabe cantar. Me ajoelho diante de "Há Tempos" e da ousadia de um cara colocar que "é só tristeza, mas tá parecendo cocaína", contrariando historinhas de amor babacas feitas pelas bandas de hoje querendo participar do jabá geral. Me ajoelho diante de "Perfeição", quando Renato Russo celebra todas as merdas do mundo e se chama de ESTÚPIDO (logo ele), clamando por esperança e gritando que não dá mais tempo pra ser triste. O maior letrista da história do rock brasileiro. Gênio. Imortal. Mestre.
