Cowboy in the Sand

listas, artistasDecember 17, 2007 4:38 pm

É uma pena que eu não possa colocar aqui 20 músicas. Estabeleci um critério para a retrospectiva e eu sou meio maniático pra listas, não vou mudar as coisas no meio do caminho. Aí vão as 10 músicas "rock" de 2007.

1- Arctic Monkeys - Fluorescent Adolescent

Eu falei muito mal de Arctic Monkeys. Desculpem-me. Eles lançaram o segundo disco e puxaram a fila com "Brianstorm", uma faixa absolutamente esplêndida. Aí lançaram "Fluorescent Adolescent", que pode se tornar a trilha perfeita dos adolescentes no ano 2000. Quando o Silverchair cantou, com uma pretensão absurda, "Anthem of the year 2000" em 1999, eles não sabiam que uns guris lá no Reino Unido lançariam "Fluorescent Adolescent" pra concorrer de perto como a trilha da década. Se não fosse o ano de "Umbrella", seria o de "Fluorescent Adolescent". Mas aí você puxa a brasa pro seu assado, é só escolher.

2- Arcade Fire - Intervention 

A banda mais criativa da década fez também a música mais bonita do ano. Intervention é uma pequena opereta que leva às lágrimas algum desavisado. Abusando de órgãos e com uma melodia que não sei de onde foi tirada, é a coisa mais linda de "Neon Bible", desde já um dos melhores do ano. Não ouvia uma música tão linda há muito tempo.

3- The Killers - Bones 

"Sam’s Town", o disco, é de 2006 na verdade. Mas o single "Bones" foi lançado este ano. Numa tentativa quase bem sucedida de fazer uma nova Mr.Brightside (o que, sinceramente, não acredito que um dia a própria banda consiga), Bones é a melhor música do disco. Fantástica, mistura metais e tem um refrão pop com a batida habitual dos Killers.

4- Modest Mouse - Missed the Boat

Já veteranos no underground, o Modest Mouse resolveu virar pop desde o estouro de "Float On". Aí em 2007 lançaram "We were dead before the ship even sank", um disco fantástico, puxado pela dançante Dashboard. Mas a melhor de todas é Missed the Boat, que tem uma letra excelente e um refrão fabuloso.

5- The White Stripes - Icky Thump 

Os riffs. Ah, os riffs. Que bom que há bandas como o White Stripes que colocam riffs demolidores nas músicas. Icky Thump, a música de 2007 da melhor banda da década, é um grande riff. Se você quer saber como o Jimi Hendrix tocaria em 2007 se estivesse vivo, seria dessa maneira. Sem qualquer comparação indevida, mesmo que a banda seja foda demais.

6- The Fratellis - Chelsea Dagger 

Refrões não cantados que pegam. Essa música dos Fratellis é um refrãio que tem só um grunhido, sobreposto por uma guitarra incessante. Não precisam fazer mais nada. Construído um dos melhores singles da temporada (ainda que lançado em 2006, precisava fazer referência a Chelsea Dagger nesse ano, até porque tocou bem mais em 2007).

7- Black Francis - Threshold Apprehension

Ah, os malditos ídolos. Eu vi esse gordo de perto em Curitiba e não acreditei. Pois o vocalista da banda mais importante para o rock moderno, o Pixies, minha banda preferida, adotou a sua alcunha da época da banda, abandonou os experimentos da época de Frank Black e não fez um disco chicano, country ou folk. Fez um disco de rock. Ouça esta Threshold Apprehension e veja se ele não está na frente de qualquer banda nova que anda surgindo por aí. E olha que a sonoridade é a mesma de "Sufrer Rosa", disco do Pixies que é de 1988. 

8- Band of Horses - Is There a Ghost

Uma das minhas bandas preferidas do momento é o Band of Horses. Cease to Begin é o disco e Is There a Ghost o single. Se tivessem surgido nos anos 90, eu seria devoto apaixonado. Eu realmente gosto muito mais de Band of Horses do que de Fratellis ou Arctic Monkeys. Mas admito que aqueles singles são melhores. No entanto, Band of Horses é daquelas bandas que parecem que foram feitas pra gente, com o som feito pra mim, do meu estilo, do meu jeito.

9- LCD Soundsystem - North American Scum 

Eu odiaria o som do LCD Soundsystem. Mas eu aprendi a gostar e a entender que provavelmente o LCD seja a banda de 2007. Inovadora, pioneira, faz o chamado electro-rock sem soar datado, retrô e rejeitando rótulos de new rave. A batida não é aquela coisa chata de outras bandas e algumas idéias colocadas em prática por eles me agradam muito, como eletrônicas de 7 minutos com quatro de introdução. Pra mim, "North American Scum" é a melhor.

10- Ryan Adams - Halloweenhead 

 

2007 foi o ano dos retornos, certo? A volta do Smashing Pumpkins foi uma decepção. A volta do Ryan Adams às raízes foi a surpresa. Ele havia tomado alguns caminhos estranhos nos últimos discos. Eu sou fã desse cara, fã de carteirinha, da época do Heartbreaker (2000). Depois, não gostei dos seus discos. Em "Easy Tiger", ele está de volta na melhor forma. E solta "Halloweenhead", chamando um solo perfeito no meio da música e ainda anunciando: "GUITAAAR SOLO". Seja bem vindo aos grandes momentos, Ryan. 

 

listas, artistasDecember 15, 2007 4:43 pm

Entramos então na época de eleger os melhores do ano.

Vamos primeiro às 10 melhores músicas pop de 2007.

 

1- Rihanna feat. Jay Z - Umbrella

Um dos dez melhores singles da década. Umbrella tocou o ano todo merecidamente, invadindo pistas e provocando uma reação quase unânime: não conheço quem não goste dessa música. Ou pelo menos do refrão, um dos mais inventivos que eu já ouvi. Nenhuma música foi melhor que Umbrella em 2007. O posto de música do ano está nas melhores mãos possíveis.

2- Amy Winehouse - Rehab 

 

Dizem que o showbusiness precisa volta e meia de uma tarja preta como a Amy Winehouse. Eu não concordo muito com as "seguidoras de Amy", aquela coisa de glamourizar a junkie-life (que só funciona em filme mesmo). Mas é inegável que ela tem talento, e muito. E fez de Rehab uma pintura, uma música tão boa que é impossível odiar a mina.

3- Mika - Grace Kelly

A grande viadagem do ano é uma música dançante e espetacular. O libanês Mika foi o responsável por esta mistura de Bee Gees com sapateado e pop moderno. O resultado é a purpurinada Grace Kelly, que segue na linhagem de grandes sons de eras passadas. Nesse estilo, claro.

4 - Feist - 1234 

Quando a gente fala que as mulheres dominam o mundo, não é brincadeira não. Tanto que elas estão nas três primeiras colocações. Feist achou a veia pop com 1234, configurando uma daquelas "músicas-gracinha", que todo mundo ouve e gosta.

5- Justin Timberlake - What Goes Around, Comes Around…

O gênio pop da década colocou essa música na parada em 2007 e não conseguiu deixar ninguém parado. É inferior a SexyBack, por exemplo. Mas a levada mais lenta, a coreografia e o estilo Justin de fazer o pop ainda estão em What Goes Around…

6- Brandi Carlile - The Story

Mais uma cantora folk que vai sumir em três anos? Espero que não. A cantora/compositora Brandi Carlile tem muito talento. "The Story" foi uma das boas surpresas de 2007.

7- Plain White T’S - Hey There Delillah

Lembra de Thumbthumping, do Chumbawamba? Lembra de Butterfly, do Crazy Town? Lembra de How Bizarre, do OMC? Em 2007 essa música foi Hey There Delillah do Plain White T’s. É uma banda emo, mas a música é boa, bem pop, bem descartável, talvez esquecível, como pede o meio. Mas aposto que se alguém ouvir em 2033 vai se lembrar de 2007. Por isso entra na lista.

8- Fergie - Big Girls Don’t Cry

 

Essa música tocou tanto, grudou tanto, bateu tanto, que encheu o saco. Mas você vai se lembrar da Fergie chorando, do Big Brother do Alemão e da Iris e de outras coisas de 2007. Fora isso, é uma balada tradicional de mulher, coisa boa que o pop vai nos apresentar todo ano.

9- The Fray - Over My Head (Cable Car) 

Mais uma banda de um ano só? Possivelmente. Dessa vez, emplacaram essa musiquinha bacaninha legalzinha pra ouvir de vez em quando, aquela coisinha.

10 - Britney Spears - Gimme More 

A Britney virou um lixo, mas incrivelmente a música dela não. "Gimme More" é um single de quem parece estar bem longe da decadência. A faixa poderia ser do início da carreira dela que não faria diferença nenhuma. É uma vaca, mas uma vaca pop de respeito. 

Próximo post: as 10 músicas de rock de 2007. 

artistasNovember 23, 2007 4:49 am

Legião Urbana é a maior banda brasileira de todos os tempos. Os Mutantes ficam em segundo lugar. Mas o que o Legião conseguiu produzir em pouco mais de dez anos de carreira é algo de ser estudado, publicado e chocado. A banda deve receber rótulo de fenômeno e Renato Russo de gênio.

Maior letrista brasileiro de todos os tempos, Renato Russo era um caso à parte. Era feio, tímido, saído do cerrado pro meio dos cariocas descolados (Cazuza, Evandro Mesquita), dos paulistas "doidões" (Arnaldo Antunes, Nasi, Roger), dos amigos da galera (Lulu Santos, Herbert Vianna) ou das gostosas (Paula Toller, Fernanda Abreu). Mas o Renato era diferente. Até de seus companheiros de Brasília, o bonitão Dinho Ouro Preto e aquela coisa semi-punk da Plebe Rude.

Uma das figuras mais depressivas e agressivas que a música já tomou conhecimento, a veia compositora de Renato Russo beirava o brilhante. Enquanto o letrista mais aclamado da década, Cazuza, era direto e ácido, Renato era poeta. Logo no primeiro disco uma faixa cuja estrofe mais marcante é "Lembra quando a gente/chegou um dia a acreditar/que tudo era pra sempre/sem saber/que o pra sempre/sempre acaba" já dá pra saber o que ele tinha em mente. Perturbação pura, uma tristeza infinita e um dom que talvez o rock brasileiro nunca mais tenha.

"Daniel na Cova dos Leões" é um exemplo disso:

Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo
De amargo então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve
E forte, cego e tenso fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.

E todo mundo cantou isso na época. Bem, o gosto amargo do corpo ficou na boca e ficou doce. Pela primeira vez, ele assumia seu homossexualismo. Preste atenção na letra. Sim, o gosto é do esperma do namorado, amargo e ficou doce. Ele mesmo admitiu anos depois que era isso que queria colocar na letra.

A partir de então, cada disco da Legião era um grande conceito que girava em torno da vida de Renato Russo. O estado de espírito ditava mais ou menos como seria cada álbum. Em "Quatro Estações" (1989), ele decide explodir com tudo e abrir de vez a porta do armário. A primeira FRASE do disco é "PARECE COCAÍNA/ MAS É SÓ TRISTEZA", em "Há Tempos". Cocaína é a segunda palavra do disco mais bem sucedido da banda. "Pais e Filhos" fala sobre suicídio (talvez pela primeira vez na carreira da banda). "Meninos e Meninas" escancara de vez o que todo mundo imaginava. Ele gosta de meninos e meninas. Sem contar a qualidade musical da obra. Pelo menos, assim, de cabeça, nove faixas estouraram: Há Tempos, Pais e Filhos, Meninos e Meninas, 1965, Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto, Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar, Eu Era um Lobisomem Juvenil, Monte Castelo e Sete Cidades.

Quando Renato Russo descobriu que estava doente, aí ninguém segurou mais nada. Compôs sua obra prima. "V", de 1991, já resenhado aqui, é pra cortar os pulsos.

Vejamos "Vento no Litoral". A música é um suicídio. "Ei, olha só o que eu achei/ Cavalos Marinhos". O cara se mata, se joga no mar, após um coração partido. Sem contar "Metal Contra as Nuvens", uma epopéia de 12 minutos, porrada pra ninguém botar defeito. Ou quem sabe "Teatro dos Vampiros". Um disco maravilhoso, explorando um Renato Russo que bebia horrores na época e que estava desesperançoso com qualquer coisa. "A cada hora que passa envelhecemos dez semanas". Conceito puro com as letras mais perfeitas que ele já fez.

Passados três anos, Renato Russo, em entrevista esplêndida ao Zeca Camargo pra MTV, fala que quer fazer um disco com flores, borboletas e corações. Chega "Descobrimento do Brasil", chamando a AIDS pra porrada e dizendo que ainda tá vivo. E com esperança.

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!…

Pode vir, tô aqui e nada vai me fazer sofrer. Era a ressureição de um gênio constantemente abalado por uma bipolaridade assumida e uma auto-destruição potente. Dois anos depois, ele joga a toalha pra sempre, com "A Tempestade ou O Livro dos Dias" e morre em outubro de 1996.

O título é altamente provocativo e inútil, na real. Alguém decifraria Renato Russo? Alguém consegue? Não, impossível. Enquanto isso, eu escuto as músicas da Legião Urbana cada vez mais impressionado. Eu me ajoelho diante de "Faroeste Caboclo", por exemplo, uma história de amor e morte sem refrão, com quase dez minutos e que todo mundo sabe cantar. Me ajoelho diante de "Há Tempos" e da ousadia de um cara colocar que "é só tristeza, mas tá parecendo cocaína", contrariando historinhas de amor babacas feitas pelas bandas de hoje querendo participar do jabá geral. Me ajoelho diante de "Perfeição", quando Renato Russo celebra todas as merdas do mundo e se chama de ESTÚPIDO (logo ele), clamando por esperança e gritando que não dá mais tempo pra ser triste. O maior letrista da história do rock brasileiro. Gênio. Imortal. Mestre.  

 

artistasJuly 10, 2007 3:56 am

O brasileiro faz a melhor música do mundo, mas quando é pra promover, só sabe colocar pros outros a mesma coisa (com exceções): BALANÇO e BOSSA NOVA. Resultado: um bando de pangaré fazendo qualquer coisa metida a ter suíngue (salve MESTRE Jorge Ben, pelo amor de deus, mas detonem por favor 80% dos escrotos que não sabem fazer samba rock, ou pior, estes que fizeram do samba-rock algo absolutamente igual, repetitivo e sacal). Ou então mais um bando de pangaré misturando alguma coisa que a Bjork, o Beck ou o Devendra Banhart disseram que é legal com a bossa nova repaginada. Por sinal, o que faz sucesso nosso fora do Brasil é, basicamente, a Bebel Gilberto e o Cansei de Ser Sexy (esta sim, uma banda original, criativa e, sim, brasileiríssima, no sentido mais bagaceiro de todos).  

Durante muito tempo, a MPB viveu do Chico Buarque (aquele que nunca recebeu críticas, mesmo quando lançava um disco, vá lá, mais ou menos) e da palavra de Caetano Veloso (o que Caê dizia que era bom, assinava-se embaixo). Aqui escreve um profundo admirador de Chico e Caetano, de todas as suas fases, inclusive. Caetano gravou "Amanhã", de Guilherme Arantes, na época em que Guilherme Arantes era um bom compositor e todos assinaram embaixo. Mas acho que este gênio da música brasileira não teve a consideração merecida.

Aproveitando a onda do rock progressivo dos anos 70, Guilherme Arantes foi um desbravador quando lançou em 1975 a balada "Meu Mundo e Nada Mais". Pianistas compositores já não eram novidade desde o ótimo Ivan Lins do início dos anos 1970. No entanto, com esta música, ele foi além. "Meu Mundo e Nada Mais" é uma balada chorosa, com uma levada de piano do início ao fim, remetendo não só ao progressivo, mas como a do maior mestre nessa vertente pianística.

Em 1973, Elton John lançou o fundamental "Goodbye Yellow Brick Road", transgredindo o pop com um piano inconfundível. Arantes repetiu o fato dois anos depois, aqui no Brasil. Fundindo Elton John com Clube da Esquina, Rick Wakeman com Roberto Carlos, fez um disco de estréia fantástico, puxado por esta música. Isso bem antes dele compor o hino "Amanhã", que muitos ainda consideram brega de uma forma errada. Mas fazem assim com qualquer música "engajada-positiva", e eu lembro aqui "Amigo", de Roberto Carlos, "Coração de Estudante", de Milton Nascimento e "O que é o que é", de Gonzaguinha, pra citar três obras primas desses artistas, nem sempre as mais reconhecidas dos três. "Amanhã" é igualmente linda, mas não uma surpresa, como a mídia o considerou no início dos anos 70. Na verdade, foi só a prova da consolidação de um artista no auge da criação, o mesmo que pintou como grande promessa da música no final da década e não vingou por algumas irregularidades na carreira normais na trajetória de qualquer grande artista.

Como sempre acontece tardiamente com alguns gênios, é preciso que algum tipo de nova sensação da MPB faça alguma redescoberta com Guilherme Arantes. Belchior ganhou vida para os jovens através dos Los Hermanos. Fágner teve que fazer parceria com Zeca Baleiro pra que lembrassem que ele não era somente um peixe para em teu límpido aquário mergulhar. Osvaldo Montenegro é muito maior do que uma declaração de amor clichê de que metade de mim é amor e outra metade também. Zé Ramalho não simplesmente batia na porta do céu. Foram todos grandes compositores que hoje são esquecidos ou viram repertório de voz-violão em barzinho da moda pra meia dúzia cantar junto com aquela "Essa noite eu quero ir mais além/eu não devo nada pra ninguém" ou com a versão da Ana Carolina pra música do Damien Rice. Um balaio onde não se separa o joio do trigo, misturando porcarias que encantam enquanto a ceva fizer efeito com canções sem prazo de validade, únicas e especiais na melhor música do mundo, a brasileira.

Era um reconhecimento que esse cara gente boa pra cacete mereceria. Uma redescoberta da sua obra, que não é brega, é altamente qualificada, bonita e consistente. Eu começo por "Meu Mundo e Nada Mais". Fez sucesso e virou trilha de novela. Mas a Ana Carolina com o Totonho (Antonio) Villeroy também, não? E comparando boas canções com porcarias, a relação custo benefício dela empata com o Guilherme. Se bobear, até perde. 

artistasFebruary 12, 2007 4:56 am

Nenhuma pessoa que se considera minimamente entendida de música consideraria Papas da Língua e Armandinho bons. Pois então, aqui estou para me livrar deste preconceito e admitir pra todo mundo: eles são ótimos.

Começo pelo Papas da Língua. Quem mora no RS sabe que há, pelo menos, nove anos, eles fazem um estrondoso sucesso por aqui. E é bem merecido. O Papas surgiu como uma banda de reggae, na esteira do Rappa e do Cidade Negra. Enquanto a primeira se voltou para a crítica social, a segunda tentou por diversas vezes um retorno ao roots, mas sem muito sucesso. O Papas foi por um terceiro caminho: se tornou pop. Pop como o Skank é pop. Reinventou o próprio som, abandonando flertes com o reggae mais puro (Democracy), com o Ska (Garotas do Brasil) e foi para a fórmula simples e correta de uma banda pop.

Para ser pop, são necessários bons músicos, boas letras e um cantor afinado e carismático. Os três fatores sobram ao Papas. Aí que venha a criatividade. E esta não faltou. Desfilando ao longo da década pelo menos uma dezena de sucessos radiofônicos locais, o Papas começa a tomar o mesmo rumo do Jota Quest, e um rumo bem merecido: dominar o Brasil e se tornar uma das dez bandas de maior sucesso no país. Tanta gente ruim vive de música, então que esses caras que estão há vinte anos na praça também vivam (e bem) fazendo uma fórmula que para os outros parece uma barbada, mas é a mais difícil de todas: criar músicas pop e que todos gostem.

O Armandinho que eu conheci tocava na noite de Atlântida no final dos anos 1990 e foi descoberto pelas rádios locais fazendo músicas de verão. O Armandinho que eu admiro é um cantor extremamente talentoso e carismático. Poucas presenças de palco são tão boas quanto a dele hoje em dia. O cara é simpático e fez boas músicas. A despeito de algumas letras fáceis, tem um domínio total da melodia e sabe passar isso para o público como poucos conseguem hoje no Brasil.

Se duvidarem do talento dele, eu lembro um detalhe. Lulu Santos começou cantando músicas praianas e se tornou o maior hitmaker do país. Se for bem aconselhado, Armandinho tem tudo pra chegar lá. Fora que o cara é muito gente boa. Tem a minha torcida.

E depois de uma era de total inércia da música pop gaúcha, finalmente dois excelentes exemplos de sucesso nacional que são merecidos. Papas da Língua e Armandinho, apostem, terão vida longa no cenário nacional. Ainda bem que eles estão aí pra nos tirar do esquema bula de remédio dos EMOS e servirem como antídoto para uma possível volta de dominação do pagode ruim, da música sertaneja e dos forrós universitários. Diversão é uma coisa, agora música pra ficar é outra história. E eu tenho a convicção que eles vieram pra ficar.

artistasJanuary 13, 2007 3:53 am

Em 1995, eu achava o Lulu Santos um canalha. Em uma entrevista para a MTV, Lulu afirmou que a pior coisa que ele havia ouvido era uma "bandinha" chamava Pavement, que ele odiou e pegou a fita e passou várias vezes por cima dela com seu carro. Na época, a "bandinha" Pavement lançava seu segundo disco, chamado "Crooked Rain, Crooked Rain", que durante pelo menos seis anos morou no meu CD Player como um dos meus discos preferidos. Sem contar o CD de estréia, "Slanted and Enchanted", que eu ainda consigo dizer a ordem das faixas (será?).

 

Passados 12 anos, eu ainda sou fã de Pavement. Acho a banda que mais conseguiu representar o conceito de low-fi na história (buscando o mínimo com dissonâncias leves e harmonias simples). Logo, imagina a raiva de um moleque de 15 anos quando o Lulu Santos (odiado por quem estava dando os primeiros passos no indie, mas havia sido criado entre o grunge e o metal) falou mal da banda. Desrespeitosamente, ainda. Era o suficiente para odiá-lo com todas as forças, justamente no momento em que o Lulu tava reconquistando o público dos anos 90, com o disco "Eu e Memê, Memê e Eu", que trazia remixes e versões dançantes. Bem, o Lulu em 95 era quase a Ivete Sangalo de hoje em dia, pra se ter uma idéia. E eu tava conhecendo bandas como Rollins Band e White Zombie. Definitivamente, o Lulu não era pra mim naquele tempo.

 

O Lulu Santos continuou fazendo sucesso com suas músicas antigas e eu meio que larguei de mão a cisma que eu tinha do rapaz. Vi alguns shows dele na seqüência, mas eu odiava tanto que não achava qualidades na sua obra. Bem, eu cresci. E, principalmente, cresci musicalmente.

 

Eis que me deparo com o show do Lulu Santos no Planeta Atlântida de Santa Catarina. Prestei atenção. Do set list, eu sabia cantar, de cabo a rabo, as seguintes músicas:

- Tempos Modernos

- Como uma Onda

- De repente, Califórnia

- Apenas mais uma de amor

- Tudo Azul

- Casa

- Um certo alguém

- A Cura

- Toda forma de amor

- Assim caminha a humanidade

- Aviso aos Navegantes

- O último romântico

- Tão Bem

- Tudo Igual

- Areias Escaldantes

- Hyperconectividade

Sem contar nas versões de Dancin Days, Descobridor dos Sete Mares, Se você pensa, Assaltaram a Gramática, Sábado à Noite, Fullgás e Popstar.

 

Eu contei 23 canções, quase um setlist inteiro, do Lulu Santos que eu sei cantar. Mas eu sei todinha, com melodia, pausa e até a previsão do que vem na seqüência. Ora bolas, como saber isso sobre um artista que não tem nenhum disco na minha coleção? Ou então que eu odiava com todas as minhas forças? Alguém que eu jamais pensaria até em baixar uma música?

 

Bom, eu vi o show do Planeta e fiquei cantando todas as músicas quando percebi que eu deveria escrever sobre o Lulu Santos. Peguei as coletâneas do meu irmão e puxei algumas músicas pra mim, pra que eu pudesse relembrar. Resultado: pela primeira vez eu canto Lulu Santos com um sorriso maravilhoso, olhando aquela multidão jovem pular no Planeta, tendo uma ponta de inveja de não estar lá cantando "Tempos Modernos" e ainda apontando pro céu quando ele fala "vamos nos permitir".

 

Lulu Santos é o maior hitmaker do Brasil em todos os tempos. Um artista pop absolutamente invejável. Por sinal, o maior artista pop brasileiro de todos os tempos. Pop, puta guitarrista, afiado e com uma presença de palco inigualável. Um comandante de público, quase um maestro de multidão, repetindo o mesmo há 25 anos e jamais superado por qualquer um que venha. Talvez seja o melhor show do Brasil, ainda.

 

Ah, e eu fiz as pazes com ele do jeito mais improvável. Ele nem pediu pra entrar em casa e eu nunca quis que ele entrasse. No entanto, ao longo desses meus 18 anos acompanhando de perto a música, ele sempre dava um jeito de me invadir, de um jeito quase subliminar, fazendo com que pela primeira vez eu fizesse uma reverência total a esse artista magnífico da música brasileira.

 

Ironicamente, não sei cantar 25 músicas do Pavement, a banda que fez com que eu odiasse o Lulu, esse que eu sei cantar 25 músicas dele. E olha que eu tenho a coleção completa do Pavement. Do Lulu, só hoje, em janeiro de 2007, eu peguei algumas músicas dele. E eu já sabia todas elas de cor.