Cowboy in the Sand

discos, bandasOctober 25, 2007 3:46 am

Existem algumas bandas que eu vou defender pro resto da minha vida com unhas e dentes. Uma delas é o Soul Asylum. Injustamente, o Soul Asylum é pouco falado pelos especialistas. E volta e meia é esquecido pela mídia. Tudo bem, a culpa é mesmo da safra 89-94, a maior safra de álbuns geniais que o mundo já presenciou (junto com 67-72).

Apesar de tudo isso, ninguém se propõe a conhecer exatamente bem o Soul Asylum. Tem gente, aliás, que acha o Soul Asylum algo como o Spin Doctors, o Counting Crows, o Collective Soul ou qualquer uma dessas bandas de um hit só. Engano grotesco.

Após um início independente promissor, o Soul Asylum lançou um disco espetacular em 1988, chamado Hang Time. Pegando a esteira do alternativo dos anos 80, compôs uma obra belíssima, com um hit arrasador chamado "Cartoon". Com uma caroninha no grunge, em 1992 "Grave Dancers Union" chega pra estourar qualquer tipo de dúvida que se tinha sobre a banda.

Eu adoro seqüências iniciais em álbuns. Pra mim, as faixas 1, 2 e 3 determinam o que vai ser o disco. "Grave Dancers Union" tem Somebody to Shove, Black Gold e Runaway Train (essa que você pensa que é o único hit dele, sabe, aquele clipe dos desaparecidos). Pronto. É o que precisava pra ser um disco maravilhoso. Runaway Train é uma balada espetacular, hit instantâneo, melodia fácil, letra boa. Somebody to Shove é irresistível quando chega o refrão e Black Gold é boa por completo. Depois, o álbum fica irregular, mas com esses três hits de primeira qualidade, compensa tudo.

"Grave Dancers Union" é o grande disco do Soul Asylum. Pra mim, um dos melhores da década. E estamos falando dos anos 90. Ah, e a música que eu mais gosto deles não é desse disco. É Summer of Drugs, um single. Então, favor respeitar mais esses caras que tiveram seu momento foda na música. 

listas, bandasAugust 8, 2007 7:03 pm

Começo agora uma lista com as 10 mais das bandas e artistas mais importantes da música pop. É pra estimular o leitor a cada um fazer a sua, afinal, não vou botar nada desconhecido aqui. Começo com Beatles. E eu sei que cada um tem a suas preferidas dos quatro de Liverpool.

 

1- Hey Jude (single, 1968)

São oito minutos de pura melancolia em uma da maior balada de todos os tempos (talvez junto com Stairway to Heaven, Led Zeppelin). Apesar de 891 tentativas de simplesmente ESTRAGAR com essa música, não adianta. Hey Jude é a melhor música dos  Beatles, a melhor da década (talvez junto com God Only Knows, do Beach Boys). Mas pra encerrar com os "talvez", definitivamente: Hey Jude é eterna, perfeita e absolutamente magistral. Foi imitada, copiada, reeditada, fizeram cover, cagaram em cima, botaram tudo de pior e colocaram todas as boas intenções em algo que não precisava mexer uma vírgula. "Hey Jude" é perfeita assim, com o Paul cantando, com os Beatles tocando, com a gente chorando.

2- The Long and Winding Road (Let It Be, 1970)

Provavelmente uma das mais lindas de todos os tempos. Ela quase fecha o Let It Be, quase fechando os Beatles e é quase uma profecia. Com uma orquestração e uma interpretação brilhante, é de chorar no cantinho e entender porque a banda é a maior da história.

3-  Golden Slumbers / Carry That Weight (Abbey Road, 1969)

São duas músicas diferentes na verdade. Mas as duas se completam de uma maneira que, ao menos para mim, é impossível de dissociar. E quando viram uma só, ficam quase imbatíveis.

4- Helter Skelter (White Album, 1968) 

Aqui, a primeira popularização do metal na história. Uma porradinha composta dentro do melhor disco da banda.

5- Across the Universe (Let It Be, 1970) 

Outra balada triste da banda, chegando à perfeição da melancolia, há muito tempo atrás.

6- In My Life (Rubber Soul, 1964) 

No melhor disco da primeira fase da banda, eles fizeram mais esta balada irresistível, provando que meu gosto com a banda não tem nada a ver com o Iê-Iê-Iê, eu gosto é das baladas mesmo.

7- With a Little Help From My Friends (Sgt Peppers Lonely Heart’s Club Band, 1967) 

Quase um pop perfeito. No disco que mudou o mundo, With a little help… é a melhor, pra mim, ao menos.

8- Dear Prudence (White Album, 1968) 

Depois do petardo de Back In the USSR, os Beatles colocam paz e soltam essa balada (mais uma vez) tão linda, tão linda, que é até de duvidar que ela tenha sido feita.

 9- Something (Abbey Road, 1969)

Gosto de músicas que crescem nos refrões. "Something" é isso. Tem um dos melhores refrões dos Beatles, com os violinos se destacando. E um solo que vem logo depois que acaba com qualquer um.

10- I Saw Her Standing There (Please Please Me, 1963) 

Pra não dizer que não falei da primeira fase, aqui está a música UM do álbum UM dos Beatles. E a melhor das dançantes dos Beatles.  

 

No próximo segmento, o Top 10 Mutantes. 

 

bandas, faixasJuly 7, 2007 7:08 am

Como eu fiz há algum tempo com a música P da Vida, do Dominó,  vou postar uma letra inacreditável composta na história da nossa música. O autor? O gênio. O visionário. O louco. Fausto Fawcett (provavelmente se junta a Belchior, Humberto Gessinger, Guilherme Arantes e Odair José como os cinco maiores gênios incompreendidos da música brasileira) é o mentor desta pérola. Cantada pelas Sublimes, no primeiro disco da banda de Isabel Fillardis, álbum que contém a MÁGICA "Boneca de Fogo", de longe a faixa mais instigante composta pelo pop nacional na melhor década do mundo (1990). Vamos à letra COMENTADA:

 TYSON FREE

Free! Free! Mike Tyson Free!
Uppercut! (golpe)
Free! Free! Mike Tyson Free!
Knock Down! (caiu na lona)
Free! Free! Mike Tyson Free!
Jab! Jab! (leva pras cordas)
Free! Free! Mike Tyson Free!
Knock Out! (foi pro chão de vez!)

O poeta do boxe animal foi seduzido/foi
Foi iludido/foi
Sacaneado/foi

(O POETA DO BOXE ANIMAL caiu na armadilha. Foi SACANEADO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ILUDIDO!!!!!!!!! E aí, a euforia chega ao grau máximo, já nos primeiro segundos) 

Por uma mulataça venenosa
Do sexo amor interesseiro
Por uma mulataça venenosa
Do sexo amor interesseiro

(Uma mulataça venenosa que só queria SEXO INTERESSEIRO COM NOSSO POETA MIKE TYSON!!!!! INJUSTIÇA)

O sofrido boxer vingativo da vida
Sacaneado/foi
Foi iludido/foi
Foi engolido/foi

Comeu a maçã da Eva negativa e foi expulso (????????????? A EVA NEGATIVA??????????)
Do paraíso do dinheiro
Do paraíso da fama
Do paraíso da grana
Do paraíso do luxo
Do paraíso do sexo
Do paraíso do sexo

(O PARAÍSO DO LUXO, DO SEXO. ELE FOI VÍTIMA DO SEXO, TYSON, FREEE!)

Por uma gostosona sofrida
Vingativa da vida
Ancestral mulata
De estirpe messalina
Comeu, comeu e prendeu
O poeta do boxe Xangô!

(Aí, toda a POESIA de Fausto Fawcett está escancarada. DE ESTIRPE MESSALINA é pra fechar a indústria fonográfica MUNDIAL e repensar tudo o que fizeram sobre música até agora)

O poeta do boxe troglô foi seduzido
Por uma fulaninha poeta
Do sentimento mulherzinha
Irresistível vamp
Irresistível vamp com
Sangue de conhaque lua preta no olhar
Sangue de conhaque lua preta no olhar
Da fulaninha poeta
Do sentimento mulherzinha
Sacaneado, seduzido, iludido
Sacaneado, seduzido, iludido
Sacaneado, seduzido, iludido
Sacaneado, seduzido, iludido
O poeta do boxe troglô
O poeta do boxe animal

(É quando a música já nos arrebata de vez, nos deixando a pergunta de como que essa banda não foi a DESTINYS CHILD brasileira, com sucesso merecido)

Preparando o quê na cadeia?
Sonhando o quê na cadeia?
O poeta do boxe animal
Agora tá batendo na cadeia!
(Como o sexo acabou com ele, ele tá se ACABANDO NA CADEIA, o POETA DO BOXE ANIMAL!)

Free! Free! Mike Tyson Free!
Agora tá batendo na cadeia
Free! Free! Mike Tyson Free!
Agora tá sonhando o quê na cadeia?
Free! Free! Mike Tyson Free!
Quando sair o que vai ter?
Free! Free! Mike Tyson Free!
O que ele tá pensando na cadeia?

(E segue o disparate…)

Free! Free! Mike Tyson Free!
Knock Down!
Free! Free! Mike Tyson Free!
Jab! Jab!
Free! Free! Mike Tyson Free!
Knock Out!
Free! Free! Mike Tyson Free!
Free! Free! Mike Tyson Free!
Free! Free! Mike Tyson Free!

(LIBERDADE PARA TYSON. JAB JAB. KNOCK OUT.)

E quem sai nocauteado é quem escuta a maior pérola dos últimos tempos. Alguém completamente ciente de suas capacidades mentais não conseguiria isso. Um grito de liberdade para Mike Tyson que pede aquele UH TERERÊ na seqüência. Genial, genial. Obra brasileira, obra carioca, obra de quem simplesmente decidiu FODER qualquer estrutura rítmica, musical, de letras, qualquer porra feita na música.

É por isso que eu ainda idolatro esse filho da puta. Amém. Amém. Só me ajoelho, é só o que resta. Knock Out!!!!

 

bandas, faixas, vídeosApril 29, 2007 7:11 am

Para quem gosta de ver videoclipes e se cansou dos reality shows estúpidos da MTV Brasil, ainda bem que ainda há canais que se voltam para o formato com exclusividade. O Multishow, apenas em alguns horários, e quase sempre o MTV Hits e o VH1 (pra quem tem cabo, claro). O youtube é o sonho, mas certamente ali o que acontece é uma escolha mais direcionada. Sempre gostei do hábito de deixar a TV ligada e ver os clipes aleatoriamente. As melhores surpresas acontecem assim.

Na madrugada de sábado para domingo, eu vi um dos clipes mais bonitos dos últimos tempos. "Eu vou tentar", primeiro single de "Invisível DJ", novo disco do Ira!, é maravilhoso. Dirigido por Selton Mello, mostra uma história de amor daquelas aparentemente batidas. Um rompimento, as lembranças dos bons tempos, a tentativa de esquecer em vão e o reencontro final, com a superação de todas as diferenças e o final feliz. Banal, porém extremamente bem conduzido pelo ator, que dirige o clipe. Uma direção perfeita e duas atuações belissimas dos atores que fazem o vídeo.

É emocionante quando eles se encontram novamente e ela abre um sorriso absolutamente sincero, correspondido à altura por ele. Aliás, a sincronia com a música é perfeita. Eu acredito em histórias de amor. Como nessas aí, com a sinceridade que só um sorriso consegue demonstrar. O sorriso mais sincero do mundo, de novamente avistar a pessoa amada após um momento em que se pensou que a separação fosse eterna.

A música é muito boa. Gosto do Ira!. Acho uma banda que conseguiu se reinventar, principalmente após o excelente disco de covers "Isso é Amor" (1999). O Acústico é muito bom também. Além disso, conta com um vocalista muito gente boa, Nasi, e um guitarrista que dispensa apresentações em técnica e criação, Edgar Scandurra. Grande retorno dos paulistas. "Eu vou tentar" é uma grande canção, talvez valorizada por mim porque vi este clipe tão bem dirigido e editado. Mas vale dar uma ouvida. 

 

discos, bandasMarch 30, 2007 5:04 am

Quem acompanhava música em 1993 sabia do que estaria por vir. A MTV não parava de passar noticiários e matérias com uma banda de Brasília que chegava, independente, com algo que se chamava forrocore. O forrocore era um hardcore com pitadas brasileiras, anunciando qual seria o mote da década: o resgate das origens de um som autenticamente brasileiro (esquecido pelo rock brasil dos anos 80, exceto os Paralamas) com o rock alternativo que assolava o início da década passada.

Justamente por isso, o primeiro disco do Raimundos, junto com "Da Lama ao Caos", de Chico Science & Nação Zumbi, foi a estréia de um grupo mais aguardada desde o primeiro do RPM, talvez.

Em 1994, pelo selo Banguela, eles lançaram seu primeiro disco. "Raimundos" saiu no início do ano e simplesmente virou o melhor álbum feito no Brasil nos anos 1990. Revolucionário para os padrões que vinham acontecendo, o Raimundos pegou toda a sacanagem existente do mundo e construiu as letras mais impagáveis que o rock já teve notícias.

Vamos começar com "Selim", quem sabe. Quase uma canção de ninar sobre o desejo de um cara de ser o banquinho da bicicleta só pra sentir a vagina e se molhar. A pureza de um repente nordestino transformado numa balada com uma melodia linda, tudo para ser romântico. Mas o negócio deles era putaria mesmo e aí, até criança cantou isso em 1994.

Pegaremos então "Nega Jurema", um hardcore de dois minutos que faz apologia à maconha, a piadas internas da banda e transforma o sertão num campo de batalha pelo direito de plantar, fumar, ou como eles dizem: "Cumê, cagá, bebê, fumá/São as leis da natureza e ninguém vai poder mudar". Algo a dizer a respeito? Uma das melhores letras da banda, virou clipe e hit.

"Rapante" é outra pérola. Toda construída com expressões nordestinas, a letra é irreconhecível. E não pára por aí. O disco ainda conta com "Cajueiro & Rio das Pedras", com a declaração de amor " Abre as pernas meu amor/ Quero ver ficar vermelha igualzinho a uma flor". Nada pode ser mais lindo e perfeito do que botar isso numa letra.

Aí vai com "Bê a Bá", "Cintura Fina", "Deixei de Fumar Cana Caiana" e claro "Puteiro em João Pessoa". A faixa mais pop do disco deve entrar para a galeria das melhores músicas de rock de todos os tempos. A saga de um menino que perdeu a virgindade em João Pessoa é quase falada por Rodolfo, com uma base repetida de guitarras excepcional. 

Um disco que é mais do que simplesmente bom. É histórico. Fundamental. Fenomenal. A primeira gota d’água que inundou de coisas boas os anos 1990 (Skank, Pato Fu, Chico Science, Mundo Livre, Planet Hemp), coisas ruins (Os Ostras, Virgulóides - apesar da sensacional BAGULHO NO BUMBA, Maria do Relento) e outras que a gente nem se lembra (Lagoa, Psycho Drops, Skamundongos). Sem contar Mamonas Assassinas e Charlie Brown Jr.

Raimundos foi a banda que definiu o conceito de novo rock para o Brasil e que proporcionou essa diversidade que há hoje em dia. Com eles, não precisaríamos mais ficar submetidos a uma roupagem que vinha de fora e deixaríamos de ser estereotipados. A partir dos Raimundos, cada banda poderia simplesmente fazer o que desse na telha, sem a neura da obrigação do sucesso e com a liberdade para a criação natural da música.

Pena que eles não conseguiram repetir a dose. Apesar do segundo disco ter "I Saw You Saying" e "Eu quero ver o Oco", depois se perderam bonito. Mas já entraram pra história com esta estréia maravilhosa. A última grande estréia do rock brasileiro.

listas, bandasMarch 22, 2007 5:23 am

É uma convenção que não tem uma definição exata. Mas o salto de bandas independentes norte-americanas no início dos anos 1990 facilitou as coisas para que grupos menores conseguissem lançar seus discos, investindo mais num pop descartável com pitadas do que se chmava de "alternativo". No início, a mídia as classificou neste mesmo patamar: alternative rock. Depois, ficou simplesmente pop rock.

Dificilmente estas bandas botaram três músicas boas na seqüência (honrosas exceções para Soul Asylum, de passado digno, e para o Wallflowers, que lançou ótimo disco de estréia e parou no tempo). Então, aí vai a minha lista das 20 melhores músicas de banda de bom moço americana. Aproveite. Ouça, mas não compre o disco. Baixe só a música, se é que você não tenha já. Elas valem pelas bandas. Não vai ter justificativa pra isso, mas as 20 melhores músicas de bom moço americano são essas:

1- Candlebox - Far Behind

2- Soul Asylum - Black Gold

3- The Wallflowers - 6th Avenue Heartache

4- Goo Goo Dolls - Iris

5-  Blues Traveler - Run Around

6- Live - Selling The Drama

7-  Blind Melon - No Rain

8- Semisonic - Closing Time

9- Gin Blossons - Follow You Down

10- Third Eye Blind - Semi Charmed Life

11- Everclear - I Will Buy You A New Life 

12-  Matchbox 20 - Push

13- Collective Soul - Shine

14 - Deep Blue Something - Breakfast At Tiffany’s 

15- Marcy Playground - Sex and Candy 

16- Crash Test Dummies - Mmm Mmm Mmm

17- Counting Crows - Round Here

18- Hootie and the Blowfish - Let Her Cry

19- Spin Doctors - Two Princes

20- The Calling - Wherever You Will Go 

 

Há de se salientar que algumas bandas que poderiam estar classificadas assim são realmente boas e construíram uma história um pouco mais digna, como Silverchair e Bush. Também estão fora as mais recentes, como Nickleback. E as que emulam Pearl Jam, como Creed e 3 Doors Down. A exceção de tudo isso é The Calling, com Wherever You Will Go, a melhor música brega dos últimos 10 anos no mundo.

No mais, a lista é composta por bandas que jamais vão marcar nome na história, mas fizeram estas canções divertidas e realmente boas. Tem mais coisas boas feitas por algumas delas, como You e Cover Me (Candlebox), Black Ballon e Slide (Goo Goo Dolls), Lighting Crashes (Live), Hook (Blues Traveler), discos do Soul Asylum e do Wallflowers e um que outro lampejo de outras bandas. Também me recuso a botar coisas como Lemonheads e Redd Kross na lista. São boas demais estas duas. As que estão aí ficam na lembrança de um tempo bom, os anos 90. Aquela história: os nomes ficam no esquecimento, mas a melodia fica pra sempre.

Ah, e fora isso, seus integrantes são todo o genro que o papai gostaria de ter pra sua filha né. Limpos, bem comportados e com letras espertinhas. Inofensivos. Inclusive pro rock. Mas que cumpriram bem seus papéis e melodias fáceis para o famoso "de vez em quando".

discos, bandasMarch 21, 2007 6:07 am

Para se escrever sobre a maior banda brasileira de todos os tempos, é preciso algum conhecimento de causa. Posso dizer que o disco "Quatro Estações" da Legião foi ouvido insistentemente em 1989, antes de idolatria pelo Guns N’ Roses. E que junto com os Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana foi realmente a primeira banda que eu reverenciei.

No entanto, sua obra prima veio dois anos depois. Antes de abordar o disco V quero justificar a primeira frase, quando afirmo que é a maior banda brasileira de todos os tempos.

Em termos musicais, Legião ficaria atrás de Mutantes, Novos Baianos, Chico Science e Nação Zumbi e Paralamas do Sucesso. Afinal, todas estas trouxeram inovações profundas para o rock brasileiro. Uma trouxe os Beatles, a outra a mistura com o samba, outra a mistura geral e uma consolidou um pop rock sedimentado até os dias de hoje.

No aspecto da revolução, Legião Urbana também passa longe. Aí eu citaria "Cabeça Dinossauro", dos Titãs, "Nós Vamos Invadir sua praia", do Ultraje a Rigor e "Raimundos", dos Raimundos.

Legião Urbana também não possui o maior disco do rock brasileiro, mérito que cabe ao primeiro disco dos Secos e Molhados (1973), até hoje uma obra prima sem precedentes.

Então, qual o fenômeno? Um vocalista feio e afetado, uma cozinha fraquinha e um guitarrista comum? Um som emulado de bandas inglesas dos anos 80? Uma postura tímida e que contraria os grandes ícones e clichês do rock and roll? 

Em primeiro lugar, as letras. Inegavelmente, Renato Russo era um poeta espetacular. Dá a impressão que ele foi um dos únicos brasileiros a simplesmente escrever o que ele queria, com uma sinceridade e agonia impressionantes. Desde críticas sociais (Mais do Mesmo, Que País É Esse?), passando por ironias finas (Índios), por romantismo puro e simples (e aí vão várias), Renato Russo transitou pelas mais diversas áreas conseguindo tirar as mais lindas melodias de temas complexos como suicídio (Vento no Litoral), homossexualismo (colocado primeiro em Daniel na Cova dos Leões, do Dois) e doença (Via Láctea).  E nisso, suas composições eram grandiosas. Músicas sem refrão e uma ousadia jamais vista na música. Duvida?

Bom, o primeiro verso de "Quatro Estações", o disco mais pop da Legião é simplesmente "Parece cocaína/mas é só tristeza". Ou então o que dizer de Pais e Filhos, que fez todo mundo cantar "Ela se jogou da janela do quinto andar". 

Mas o pior não é isso. O pior é "Faroeste Caboclo". Ou o melhor. Ali o Legião Urbana explodiu todos os limites do bom senso pop. A música não tem refrão, não tem quebra de melodia e é uma história imensa de nove minutos sobre a epopéia de mártir de João de Santo Cristo e foi cantada pelo Brasil todo. Uma música genial, absolutamente perfeita, difícil, demorada e de uma construção altamente delicada.

Esta é a explicação. Legião Urbana pegou a beleza que faltava no rock brasileiro. O lirismo, a sinceridade e a delicadeza numa época em que isso raramente existia. E que chegou ao auge com "V", de 1991. Quase messiânico, depois do desastre do show em Brasília (1988), eles não fizeram turnê pra divulgar o disco. Ao contrário da aparente simplicidade de "Quatro Estações", veio uma pérola mal compreendida. Músicas longas, letras tristes, depressivas, priorizando violões em acordes menores e histórias de cotidiano que volta e meia acabavam em tragédia.

Do disco, saíram "Vento no Litoral", "O Mundo Anda Tão Complicado", "Teatro dos Vampiros" e a épica "Metal Contra as Nuvens", dividida em partes, quase uma Bohemian Rhapsody da melancolia e que levaria qualquer sujeito um pouco mais triste à morte iminente. Uma obra em que a gente percebe toda a agonia que Renato Russo vivia na época, quando ele descobriu ter AIDS, tinha saído de um relacionamento terrível e tava bebendo feito louco. Um gênio aprisionado pelo próprio desejo e traído pelo instinto. Um homem triste e solitário, mas extremamente antenado, letrado e inteligente. E que soltou toda esta angústia em faixas que chegam a arrepiar se formos ouvir com cuidado.

Por isso, a maior banda de todos os tempos. Pela popularidade adquirida seguindo o caminho mais difícil quase sempre. Merece este título e por mim fica assim um bom tempo. E se você nao conhece "V" e tá meio mal, não faça isso agora. Ele realmente consegue tirar toda a sua esperança. Naquela época, não havia céu azul no cinza visto por Renato Russo, seja na aridez da Era Collor, na peça pregada pelo destino com a AIDS ou no preconceito existente contra homossexual, coisa que ele era.

Aí vem "V" e te joga mais pra baixo. Não é justo, mas ele fez isso só com poesia. Fazendo sucesso. Verdade, não é justo. É só pra admirar, abrir a boca e pensar que uma cabeça privilegiada dessas deveria ainda estar aprontando na frente da maior banda que eu já vi no Brasil.