Cowboy in the Sand

discosDecember 1, 2007 5:13 am

Pois é, tá chegando o verão. Aproveitando matéria da NOIZE,revista excelente cujo staff me inclui, contribuindo no mês com reviews dos bons discos novos de Eagles e Duran Duran, vou fazer minha lista de dez álbuns para se ouvir na praia. Ou melhor, dez álbuns que eu levaria para a praia, melhor assim. Dentro da temática "litorânea" de férias.

 10- Cafe Tacuba - Re (1994)

A mistura de rancheira com mariachi, música popular mexicana, metal, arrasta pé e bolero é quase um afrodisíaco praiano.  

9- Fernanda Abreu - Sla Radical Dance Disco Club (1990)

O melhor disco de dance music já feito no país é a trilha perfeita pra mistura de balada e ritmo de férias.  

8- The Mighty Mighty Bosstones - Let’s Face It (1995)

Um ska potente e moderno, mais acelerado e que traz a disposição necessária para o verão. 

7- Sublime - Sublime (1997)

"Santeria", "What I Got" e "Wrong Way". Na praia. Não tem erro. 

6- Lauryn Hill - The Miseducation of Lauryn Hill (1999)

A voz da Lauryn Hill combina com o mar. É do gueto, do Brooklyn, mas ela foi tão foda nesse disco que conseguiu ultrapassar o concreto e deixar a gente mais leve nas férias. 

5- Paralamas do Sucesso - O Passo do Lui (1984)

Qualquer hit desse disco você já ouviu alguma vez na praia. E vale repetir, quantas vezes for necessário. 

4- Zeca Pagodinho - Acústico MTV (2001)

Pagode é ritmo de praia sim senhor. Vamos então pegar um bem feito. O do Zeca. 

3- No Doubt - Tragic Kingdom (1997)

Se quiser agito tem "Spiderwebs". Se quiser dor de cotovelo de amor de verão tem "Don’t Speak". Pra todos os gostos tá valendo este disco genial do No Doubt. 

2- Red Hot Chili Peppers - Blood Sugar Sex Magik (1991)

Um dos melhores álbuns de todos os tempos sintetiza todo o sol da Califórnia numa inspiração absurda do Red Hot Chili Peppers. 

1- Bob Marley - Exodus (1977)

 

"Waiting In Vain", "Turn Your Lights Down Low", "Three Little Birds" e "One Love/People Get Ready". Sim, esta seqüência está em "Exodus", pra mim, o melhor disco do Bob Marley. E não consigo imaginar em nada mais perfeito pra um dia de praia do que este álbum.

discos, bandasOctober 25, 2007 3:46 am

Existem algumas bandas que eu vou defender pro resto da minha vida com unhas e dentes. Uma delas é o Soul Asylum. Injustamente, o Soul Asylum é pouco falado pelos especialistas. E volta e meia é esquecido pela mídia. Tudo bem, a culpa é mesmo da safra 89-94, a maior safra de álbuns geniais que o mundo já presenciou (junto com 67-72).

Apesar de tudo isso, ninguém se propõe a conhecer exatamente bem o Soul Asylum. Tem gente, aliás, que acha o Soul Asylum algo como o Spin Doctors, o Counting Crows, o Collective Soul ou qualquer uma dessas bandas de um hit só. Engano grotesco.

Após um início independente promissor, o Soul Asylum lançou um disco espetacular em 1988, chamado Hang Time. Pegando a esteira do alternativo dos anos 80, compôs uma obra belíssima, com um hit arrasador chamado "Cartoon". Com uma caroninha no grunge, em 1992 "Grave Dancers Union" chega pra estourar qualquer tipo de dúvida que se tinha sobre a banda.

Eu adoro seqüências iniciais em álbuns. Pra mim, as faixas 1, 2 e 3 determinam o que vai ser o disco. "Grave Dancers Union" tem Somebody to Shove, Black Gold e Runaway Train (essa que você pensa que é o único hit dele, sabe, aquele clipe dos desaparecidos). Pronto. É o que precisava pra ser um disco maravilhoso. Runaway Train é uma balada espetacular, hit instantâneo, melodia fácil, letra boa. Somebody to Shove é irresistível quando chega o refrão e Black Gold é boa por completo. Depois, o álbum fica irregular, mas com esses três hits de primeira qualidade, compensa tudo.

"Grave Dancers Union" é o grande disco do Soul Asylum. Pra mim, um dos melhores da década. E estamos falando dos anos 90. Ah, e a música que eu mais gosto deles não é desse disco. É Summer of Drugs, um single. Então, favor respeitar mais esses caras que tiveram seu momento foda na música. 

listas, discosJune 19, 2007 6:04 pm

Saiu há duas edições na Revista Aplauso a lista dos maiores discos da história do Rock Gaúcho. 40 pessoas votaram e aí houve o apanhado para chegar à conclusão das obras mais importantes para o rock do RS. Decidi fazer a minha lista. Entre parênteses, a posição que o disco está colocado na lista da Aplauso.

 1- Júpiter Maçã - A Sétima Efervescência (1996) (1)

O maior disco de todos os tempos no rock gaúcho é uma coincidência das duas listas. A Sétima Efervescência é uma síntese de como funciona a música aqui no Estado. Uma viagem completa passada por 14 faixas num delírio de ácido do gênio Flávio Basso. O disco mais ousado de todos os tempos feito em solo gaúcho. E mais: um disco que manteve a identidade do rock gaúcho (o esculacho, o escárnio,a criatividade e a falta de concessões a outros gêneros) e que criou uma outra, abrindo espaço para bandas como Cachorro Grande trilharem sua batalha por este país. Genial.

2- Os Cascavelletes - Os Cascavelletes (1988) (-)

Um EP com Carro Roubado, Menstruada, Morte Por Tesão, O Dotadão Deve Morrer, Ugagogobabagô, Jessica Rose e quatro músicos ensinando como se faz sucesso com o rock: putaria, simplicidade e taradismo juvenil. A bagaceirice em vinil estava inventada.

3-  Engenheiros do Hawaii - A Revolta dos Dândis (1987) (-)

A maior banda gaúcha de todos os tempos é a mais injustiçada, sem sombra de dúvidas. Talvez pela "falta de sotaque", pela ironia difícil, pelos trocadilhos nem sempre compreendidos ou pelo agudo exagerado na voz, Humberto Gessinger nunca foi ponteiro de nenhuma lista de melhores. Injustiças à parte, o terceiro lugar é pequeno para esta banda que foi para as capitais para vencer e reafirmar que existe vida inteligente no Estado. Ainda bem que o Humberto Gessinger é mais inteligente que qualquer crítico que use óculos de armação grossa, roupinha de grife e se amontoe de ingresso pra ver alguma premiére no Moinhos Shopping.

4- Replicantes - O Futuro é Vórtex (1985) (4)

Na época, o punk era eminentemente paulista, sério, concentrado no protesto, proletário, consciente. Aí uns caras que tocavam muito mal fizeram coisas como Surfista Calhorda,  Boy do Subterrâneo, Hippie-punk-rajneesh, Ele quer ser punk… Nascia o punk gaúcho, bagaceiro e descomprometido.

5- De Falla - De Falla 2 (1988) (7)

A banda mais psicopata do Rio Grande do Sul teve sua estréia um ano antes. Mas é com este disco que as bases do que seria feito na música nacional nos anos 90 foram colocadas. O segundo disco do De Falla tem It’s Fucking Boring to Death e uma versão lunática de "Como Vovó Já Dizia", do Raul Seixas.

6- Graforréia Xilarmônica - Coisa de Louco II (1995) (8)

 

Se um ET descesse aqui e perguntasse o que é essa porra de "rock gaúcho", mostra este disco pra ele. Não precisa entender mais nada. E tem "Amigo Punk", a música mais gaúcha de todos os tempos (superando qualquer tradicionalismo, inclusive).

7- Rock Grande do Sul - Coletânea (1985) (-)

 

Coletânea inicial que reuniu os primeiros trabalhos de bandas como De Falla, Engenheiros do Hawaii e Replicantes. O pontapé para a estrutura atual do rock gaúcho.

8- Wander Wildner - Baladas Sangrentas (1997) (-)

Responsável pelo maior hit do Estado depois de "Popozuda Rock N’Roll", no caso "Bebendo Vinho", hoje cantada por torcida em côro no estádio. Além disso, um punk brega que é mais sofisticado do que muita coisa que tem por aí.

9-  TNT - TNT 1 (1987) (5)

O disco com o maior número de hits da história do Estado. Cachorro Loco, Ana Banana, Entra Nessa e mais um monte de músicas que todos cantaram juntos na época.

10- Video Hits - Registro Sonoro Oficial (2001) (-)

 

O lançamento mais explosivo da década atual é este disco independente da Video Hits, a banda mais promissora que não durou. Um festival de hits em potencial, um vocal excepcional de Diego Medina e uma felicidade de arranjos e letras. Pena que a banda acabou.

11-  Cascavelletes - Rock A’Ula (1988)

12- Nei Lisboa - Pra Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina (1983)

13-  Walverdes - 90 graus (2002)

14- Engenheiros do Hawaii - Gessinger, Licks e Maltz (1992)

15- Almôndegas - Aqui (1975)

16-  Ultramen - Olelê (2000)

17- Cowboys Espirituais - Cowboys Espirituais (1998)

18- De Falla - De Falla 1 (1987)

19- Cachorro Grande - Cachorro Grande (2001)

20- Frank Jorge - Carteira Nacional de Apaixonado (2000)

 

* Vale lembrar que diversos álbuns citados pela revista nunca foram ouvidos por mim, casos de Liverpool, Bixo da Seda, Urubu Rei, Marcelo Birck e Julio Reny e Expresso Oriente.

** A lista é absolutamente pessoal, de acordo com o que eu ouvi ao longo desse tempo todo, constratando com relevância histórica. 

discosApril 26, 2007 4:51 am

Já cruzei com o Lobão quatro vezes na minha vida. Não sou amigo dele, o máximo que fiz foi elogiá-lo pelo lançamento de "A Vida é Doce" (1999), na época. Lobão é daqueles que presta atenção em absolutamente tudo que tu fala. Pra depois ele falar. Por horas. Comigo, que era naquele tempo um guri de 19 anos encantado com uma obra independente de altíssima qualidade, foi assim. Dois anos depois, um amigo meu deu um CD da minha ex-banda pra ele. Ele é um cara legal, acho.

No entanto, o Lobão não tem nenhum tipo de reconhecimento do público mais jovem que idolatra os Los Hermanos, e deveria fazê-lo com o Velho Lobo também. Dá pra dividir a carreira do Lobão em três partes: a oitentista, cheia de hits da época, a perdida, quando lançava sem critérios discos misturando samba e rock e a fase anos 90 do Lobão, pra mim absolutamente genial.

"Nostalgia da Modernidade", "Noite" e "A Vida é Doce" são os três melhores discos do Lobão. Três obras que devem constar entre as melhores da década. Uma trilogia sublime, que emana descontentamento com o sistema, vazio criativo, pânico e ironia de uma forma belíssima. Arranjos que apontavam para um futuro que não sei se de fato aconteceu, letras excepcionais e um instrumentista/criador numa forma esplendorosa.

Lobão brigou com gravadoras, criou uma própria e agora chega com seu Acústico. Ele mesmo define que odeia o formato. Mas o repertório colocado no Acústico sem sombra de dúvidas é bastante interessante. Mesmo que coloque os hits "Me Chama", "Decadence Avec Elegance", "Rádio Blá" e "Corações Psicodélicos", Lobão mescla com as excelentes "A Queda", "Vou Te Levar" e "A Vida é Doce", por exemplo. Tira fora, acertadamente, "Vida Bandida" e carrega nesta fase boa da carreira, que todos deveriam conhecer. Um cara sem preconceitos, completamente maduro e antenado com o que acontece.

O Acústico, bem, é um acústico da MTV, moldado pela emissora da maneira que o formato foi consagrado. Mas as músicas boas estão ali, intactas, eternas, vivas e contundentes. Um bom disco de um dos melhores compositores do Brasil. Pena que os três discos citados acima são semi-relíquias. E outra pena que a melhor música dele nessa fase, "Para o Mano Caetano", lançada como single, não está presente. Uma das melhores letras feitas na década, um chute no saco do caetanismo que domina a MPB (apesar de eu ser fã do baiano, às vezes ele vacila na super exposição e na opinião-pra-tudo).

Mas se der, baixe. Você vai conhecer um pouco do que ele fez de bom e quem sabe, baixe esses três discos essenciais para se entender um pouco do sentimento de ressaca eterna daquele que se recusou a viver sob o estigma do "Rock Brasil 80". Ainda bem que ele não fez que nem o Léo Jaime ou qualquer outro da década, que hoje se apresentam em festinhas anos 80, um revival que eu não agüento mais. Ele se modernizou. Viveu a Nostalgia da Modernidade. E está aí, lançando um acústico digno, mandando bala aos 50 mostrando a cara de 50 anos e fazendo música aos 50 anos. E principalmente, fazendo música em 2007 como deve se fazer música em 2007. 

 

discosApril 7, 2007 4:48 am

 

 

Esqueça aquela lista que eu fiz dos melhores de 2006. Ainda não tinha chegado até mim esta pérola. "Peeping Tom" é o nome do novo projeto do maior artista da minha geração: Mike Patton.

Dizem que este projeto demorou uns seis anos pra sair. Valeu a pena esperar. Viciado no lado esquisito da força com o Mr.Bungle, Tomahawk e Fantômas, Patton puxa sua artéria pop para chamar uns convidados da mais alta fineza e conceber um dos discos mais sensacionais à primeira vista dos últimos tempos.

É verdade que o rótulo Mike Patton ajuda. Fã desde 1991, sou do tipo que não consegue achar NADA que ele fez ruim. Todos os álbuns que ele fez com o Faith No More são peças fundamentais na minha coleção (The Real Thing, Live At Brixton Academy, Angel Dust, King For a Day, Fool or a Lifetime  e Album of the Year são antológicos). Gosto muito do Mr. Bungle, acho "Disco Volante" (1996) fora de série. E até os ruídos esquizofrênicos do Fantômas me agradaram.

No entanto, fora do rótulo, Peeping Tom é o verdadeiro pós modernismo de qualidade. Cantando como nunca (ou melhor, cantando como sempre, já que não há no mundo alguém que consiga cantar como este monstro sagrado), Patton reúne  Melvins, Beck, Beach Boys, bossa nova, música eletrônica, hip hop e pop moderno chamando convidados como Norah Jones, Bebel Gilberto e Massive Atack, criando uma unidade pop que não teve no ano. 

Ainda pouco conhecido, Peeping Tom parece ser daquelas obras que apontam o futuro da música. Coisas que só saem da cabeça de um visionário lunático como é Mike Patton. Faça o seguinte: baixe todo esse disco. Destaque para a faixa "Mojo" e para a parceria insólita com Bebel Gilberto em "Caipirinha".

O quê: Peeping Tom (2006), novo projeto de Mike Patton (ex-Faith No More, Mr.Bungle, Tomahawk…)

Pra quem gosta de: Mike Patton, Beck, criatividade sem afetação, música eletrônica sofisticada.

Destaque: Mojo (feat. Rahzel e Dan & The Automator)

O disco: 

  1. Five Seconds (com Odd Nosdam)
  2. Mojo (com Rahzel and Dan the Automator)
  3. Don’t Even Trip (com Amon Tobin)
  4. Getaway (com Kool Keith)
  5. Your Neighborhood Spaceman (com Jel e Odd Nosdam)
  6. Kill The DJ (com Massive Attack)
  7. Caipirinha (com Bebel Gilberto)
  8. Celebrity Death Match (com Kid Koala)
  9. How U Feelin? (com Doseone)
  10. Sucker (com Norah Jones)
  11. We’re Not Alone (com Dub Trio)

 

Duvidou de tudo isso? Assista então a esta apresentação do Peeping Tom com Rahzel (do The Roots) e com Mike Patton de REDINHA NO CABELO. Melhor coisa do youtube.


discos, bandasMarch 30, 2007 5:04 am

Quem acompanhava música em 1993 sabia do que estaria por vir. A MTV não parava de passar noticiários e matérias com uma banda de Brasília que chegava, independente, com algo que se chamava forrocore. O forrocore era um hardcore com pitadas brasileiras, anunciando qual seria o mote da década: o resgate das origens de um som autenticamente brasileiro (esquecido pelo rock brasil dos anos 80, exceto os Paralamas) com o rock alternativo que assolava o início da década passada.

Justamente por isso, o primeiro disco do Raimundos, junto com "Da Lama ao Caos", de Chico Science & Nação Zumbi, foi a estréia de um grupo mais aguardada desde o primeiro do RPM, talvez.

Em 1994, pelo selo Banguela, eles lançaram seu primeiro disco. "Raimundos" saiu no início do ano e simplesmente virou o melhor álbum feito no Brasil nos anos 1990. Revolucionário para os padrões que vinham acontecendo, o Raimundos pegou toda a sacanagem existente do mundo e construiu as letras mais impagáveis que o rock já teve notícias.

Vamos começar com "Selim", quem sabe. Quase uma canção de ninar sobre o desejo de um cara de ser o banquinho da bicicleta só pra sentir a vagina e se molhar. A pureza de um repente nordestino transformado numa balada com uma melodia linda, tudo para ser romântico. Mas o negócio deles era putaria mesmo e aí, até criança cantou isso em 1994.

Pegaremos então "Nega Jurema", um hardcore de dois minutos que faz apologia à maconha, a piadas internas da banda e transforma o sertão num campo de batalha pelo direito de plantar, fumar, ou como eles dizem: "Cumê, cagá, bebê, fumá/São as leis da natureza e ninguém vai poder mudar". Algo a dizer a respeito? Uma das melhores letras da banda, virou clipe e hit.

"Rapante" é outra pérola. Toda construída com expressões nordestinas, a letra é irreconhecível. E não pára por aí. O disco ainda conta com "Cajueiro & Rio das Pedras", com a declaração de amor " Abre as pernas meu amor/ Quero ver ficar vermelha igualzinho a uma flor". Nada pode ser mais lindo e perfeito do que botar isso numa letra.

Aí vai com "Bê a Bá", "Cintura Fina", "Deixei de Fumar Cana Caiana" e claro "Puteiro em João Pessoa". A faixa mais pop do disco deve entrar para a galeria das melhores músicas de rock de todos os tempos. A saga de um menino que perdeu a virgindade em João Pessoa é quase falada por Rodolfo, com uma base repetida de guitarras excepcional. 

Um disco que é mais do que simplesmente bom. É histórico. Fundamental. Fenomenal. A primeira gota d’água que inundou de coisas boas os anos 1990 (Skank, Pato Fu, Chico Science, Mundo Livre, Planet Hemp), coisas ruins (Os Ostras, Virgulóides - apesar da sensacional BAGULHO NO BUMBA, Maria do Relento) e outras que a gente nem se lembra (Lagoa, Psycho Drops, Skamundongos). Sem contar Mamonas Assassinas e Charlie Brown Jr.

Raimundos foi a banda que definiu o conceito de novo rock para o Brasil e que proporcionou essa diversidade que há hoje em dia. Com eles, não precisaríamos mais ficar submetidos a uma roupagem que vinha de fora e deixaríamos de ser estereotipados. A partir dos Raimundos, cada banda poderia simplesmente fazer o que desse na telha, sem a neura da obrigação do sucesso e com a liberdade para a criação natural da música.

Pena que eles não conseguiram repetir a dose. Apesar do segundo disco ter "I Saw You Saying" e "Eu quero ver o Oco", depois se perderam bonito. Mas já entraram pra história com esta estréia maravilhosa. A última grande estréia do rock brasileiro.

discos, bandasMarch 21, 2007 6:07 am

Para se escrever sobre a maior banda brasileira de todos os tempos, é preciso algum conhecimento de causa. Posso dizer que o disco "Quatro Estações" da Legião foi ouvido insistentemente em 1989, antes de idolatria pelo Guns N’ Roses. E que junto com os Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana foi realmente a primeira banda que eu reverenciei.

No entanto, sua obra prima veio dois anos depois. Antes de abordar o disco V quero justificar a primeira frase, quando afirmo que é a maior banda brasileira de todos os tempos.

Em termos musicais, Legião ficaria atrás de Mutantes, Novos Baianos, Chico Science e Nação Zumbi e Paralamas do Sucesso. Afinal, todas estas trouxeram inovações profundas para o rock brasileiro. Uma trouxe os Beatles, a outra a mistura com o samba, outra a mistura geral e uma consolidou um pop rock sedimentado até os dias de hoje.

No aspecto da revolução, Legião Urbana também passa longe. Aí eu citaria "Cabeça Dinossauro", dos Titãs, "Nós Vamos Invadir sua praia", do Ultraje a Rigor e "Raimundos", dos Raimundos.

Legião Urbana também não possui o maior disco do rock brasileiro, mérito que cabe ao primeiro disco dos Secos e Molhados (1973), até hoje uma obra prima sem precedentes.

Então, qual o fenômeno? Um vocalista feio e afetado, uma cozinha fraquinha e um guitarrista comum? Um som emulado de bandas inglesas dos anos 80? Uma postura tímida e que contraria os grandes ícones e clichês do rock and roll? 

Em primeiro lugar, as letras. Inegavelmente, Renato Russo era um poeta espetacular. Dá a impressão que ele foi um dos únicos brasileiros a simplesmente escrever o que ele queria, com uma sinceridade e agonia impressionantes. Desde críticas sociais (Mais do Mesmo, Que País É Esse?), passando por ironias finas (Índios), por romantismo puro e simples (e aí vão várias), Renato Russo transitou pelas mais diversas áreas conseguindo tirar as mais lindas melodias de temas complexos como suicídio (Vento no Litoral), homossexualismo (colocado primeiro em Daniel na Cova dos Leões, do Dois) e doença (Via Láctea).  E nisso, suas composições eram grandiosas. Músicas sem refrão e uma ousadia jamais vista na música. Duvida?

Bom, o primeiro verso de "Quatro Estações", o disco mais pop da Legião é simplesmente "Parece cocaína/mas é só tristeza". Ou então o que dizer de Pais e Filhos, que fez todo mundo cantar "Ela se jogou da janela do quinto andar". 

Mas o pior não é isso. O pior é "Faroeste Caboclo". Ou o melhor. Ali o Legião Urbana explodiu todos os limites do bom senso pop. A música não tem refrão, não tem quebra de melodia e é uma história imensa de nove minutos sobre a epopéia de mártir de João de Santo Cristo e foi cantada pelo Brasil todo. Uma música genial, absolutamente perfeita, difícil, demorada e de uma construção altamente delicada.

Esta é a explicação. Legião Urbana pegou a beleza que faltava no rock brasileiro. O lirismo, a sinceridade e a delicadeza numa época em que isso raramente existia. E que chegou ao auge com "V", de 1991. Quase messiânico, depois do desastre do show em Brasília (1988), eles não fizeram turnê pra divulgar o disco. Ao contrário da aparente simplicidade de "Quatro Estações", veio uma pérola mal compreendida. Músicas longas, letras tristes, depressivas, priorizando violões em acordes menores e histórias de cotidiano que volta e meia acabavam em tragédia.

Do disco, saíram "Vento no Litoral", "O Mundo Anda Tão Complicado", "Teatro dos Vampiros" e a épica "Metal Contra as Nuvens", dividida em partes, quase uma Bohemian Rhapsody da melancolia e que levaria qualquer sujeito um pouco mais triste à morte iminente. Uma obra em que a gente percebe toda a agonia que Renato Russo vivia na época, quando ele descobriu ter AIDS, tinha saído de um relacionamento terrível e tava bebendo feito louco. Um gênio aprisionado pelo próprio desejo e traído pelo instinto. Um homem triste e solitário, mas extremamente antenado, letrado e inteligente. E que soltou toda esta angústia em faixas que chegam a arrepiar se formos ouvir com cuidado.

Por isso, a maior banda de todos os tempos. Pela popularidade adquirida seguindo o caminho mais difícil quase sempre. Merece este título e por mim fica assim um bom tempo. E se você nao conhece "V" e tá meio mal, não faça isso agora. Ele realmente consegue tirar toda a sua esperança. Naquela época, não havia céu azul no cinza visto por Renato Russo, seja na aridez da Era Collor, na peça pregada pelo destino com a AIDS ou no preconceito existente contra homossexual, coisa que ele era.

Aí vem "V" e te joga mais pra baixo. Não é justo, mas ele fez isso só com poesia. Fazendo sucesso. Verdade, não é justo. É só pra admirar, abrir a boca e pensar que uma cabeça privilegiada dessas deveria ainda estar aprontando na frente da maior banda que eu já vi no Brasil.

discosMarch 18, 2007 6:47 am

O meu disco de 1993 foi "Siamese Dream", do Smashing Pumpkins, mas bem que poderia ser "Get a Grip", do Aerosmith. Tem show da banda no dia 12 de abril aqui no Brasil e eu só não vou por pura economia, porque realmente estou juntando dinheiro.

Como não estarei no Morumbi, resolvi dar uma ouvida de cabo a rabo neste disco lançado por eles em 1993. Cheguei à conclusão de "Get a Grip" é muito mais difícil e complexo do que se imagina.

Demorou 20 anos para a banda conseguir fazer um álbum histórico. Por mais que "Aerosmith" (1974), "Toys in the Attic" (1975) e "Rocks" (1976) sejam bons discos, o Aerosmith nunca foi uma banda que conseguiu colocar um grande clássico nas lojas. E para chegar até Get a Grip, há de se fazer um breve retrospecto na carreira do grupo.

O Aerosmith é a típica banda antes e depois das drogas. Nos anos 70, tinham relativo sucesso, indo na esteira hard rock da segunda metade dos anos 70. No entanto, vieram os 80 e eles não sobreviveram ao pique. Steven Tyler e Joe Perry brigavam, um não conseguia tocar e outro mal parava em pé. Resultado: drogas, overdose e separação.  Uma porrada de discos ruins e o tradicional ressurgimento, com uma banda de rap. Foi preciso uma sacada genial do RUN DMC para remixar Walk This Way e recolocar o Aerosmith num trilho certo.

O final dos anos 80 foi de "Permanent Vacation", seguindo a linha farofeira da época e de "Pump", este um disco bem mais consistente e de músicas excelentes, como "What It Takes" e a clássica "Jane’s Got a Gun".

Foi com Pump que surgiu de fato Get a Grip. Seria quase um Get a Grip I, para que em 1993 uma inspiração divina batesse na banda para compor um camalhaço de hits pra provar que eles ainda existiam. E que prova, meu deus do céu. Amazing, Cryin’, Crazy, Livin on the Edge, Eat the Rich, só pra pegar e sentar a lenha nas maiores power-ballads que os anos 90 presenciaram. No meio do grunge, o Aerosmith sofistica a farofagem, mete super produção e desbanca a barulheira e as novidades da década.

Mas o que fez de Get a Grip um disco altamente bem sucedido foi o fenômeno MTV. A MTV era em 1993 o que o youtube é hoje em dia. Talvez mais, o que a internet é em 2006. Era a primeira geração de TV a cabo e a MTV passava a ter uma audiência maciça. A MTV ditava a moda e gerenciava o que as rádios tocariam a partir de então. O Aerosmith venceu mais uma vez no quesito genialidade e tacou-lhe clipes com historinhas e uma personagem em comum em todos eles: Alicia Silverstone, em seu grande momento de celebridade. 

Tava pronto o estrago. O Aerosmith ganhava um status que não tinha nos anos 70. Eram uma superbanda, com um disco altamente pop, competente e bem feito. Steven Tyler finalmente ganharia o reconhecimento por tudo que é: um puta vocalista, uma presença de palco invejável, um carisma arrebatador e principalmente a cara de uma banda que apostou na famosa fórmula incendiária do rock: o guitarrista místico e o vocalista popular (Page-Plant, Ozzy-Tony, Jagger-Richards, Mercury-May, Axl-Slash, Lee Roth-Van Halen, Bon Scott-Angus Young e o último exemplo, mais recente, Zach De La Rocha-Tom Morello, Rage Against the Machine).

Ou seja, ouvir novamente Get a Grip me deu um prazer enorme. Além da qualidade do disco e da virada na carreira da banda, é a lembrança de um tempo onde eu decorava videoclipes, anotava paradas musicais e vivia intensamente a música com uma ingenuidade e um senso de descobrimento bem maior do que agora. Queria ir no show, mas não se pode ter tudo, certo? Então, eu fico aqui e escuto Livin’ On the Edge, a melhor faixa do disco, e desejando longa vida a esta banda que depois do álbum de 1993 lançou a melhor-balada-oldskool-farofa da década: I Don´t Want to Miss a Thing, que vai virar clássico logo logo.

discosMarch 15, 2007 6:38 am

Engenheiros do Hawaii - Filmes de Guerra, Canções de Amor (1993)

Retomando a série de discos subestimados, eis que me deparo com esta pérola que ninguém comenta.

Muito antes do formato acústico se popularizar e bem antes dele ser uma válvula de escape para o ócio criativo das bandas e se tornar um artifício pra recuperar boas vendagens nas épocas de seca,  ele servia como experimentalismo na obra dos artistas.

Neste caso, estamos diante de uma experiência semi-acústica dos Engenheiros do Hawaii. Ao contrário da maioria, eu sempre achei a banda excelente. Curiosamente, este foi o último disco realmente bom dos gaúchos. Os anteriores são ótimos, com destaque para Revolta dos Dândis (1987), O Papa é Pop (1990) e o absurdamente difícil e bem conduzido GLM (1992).

Esta série de grandes álbuns construíram a cozinha necessária para os EngHaw lançarem sua obra prima: um disco semi-acústico com poucos hits priorizando o arranjo, as composições e as experimentações sonoras.

"Filmes de Guerra, Canções de Amor" foi lançado em 1993 e não teve nenhum tipo de função caça níquel. Pelo contrário. Ao invés de botar na roda uma coletânea de sucessos, eles procuraram músicas mais intimistas do repertório da banda e desplugaram. Re-arranjaram, refizram.

Ali não tem Infinita Highway. Não tem Era um Garoto…, não tem O papa é pop, não tem Terra de Gigantes ou até as "caindo de maduro pra virarem acústicas" Refrão de Bolero e Piano Bar. Os três únicos sucessos são "Pra Ser Sincero", "Alívio Imediato" e "Exército de Um Homem Só"  E ainda o meio  hit "Muros e Grades".

No mais, releituras interessantes de músicas obscuras e faixas inéditas do mais alto grau de competência na composição. O álbum já abre com uma pérola, chamada "Mapas do Acaso", onde Humberto Gessinger (um excepcional letrista subestimado) escancara todo o cinismo de suas letras, evocando a dúvida em uma era em que tudo o que fazíamos era nos questionar (a era pós impeachment e o milagre de uma nova moeda): "Âncora/Vela/qual me leva/qual me prende?".

No meio, canções inéditas intercaladas com a apresentação ao vivo no Rio de Janeiro, com as novas versões. Tudo pra fechar com chave de ouro o trabalho. Para ser aplaudido de pé, Humbertão, Augusto Licks (baita guitarrista, o homem que definiu os rumos musicais da banda) e Carlos Maltz soltam "Realidade Virtual", talvez a melhor música dos Engenheiros em todos os tempos. Agressiva, sincera, contundente, é o encerramento perfeito para uma apresentação antológica.

Justamente no momento em que eles ficaram perto demais das capitais, acho que o ar fresco fora do Estado ajudou num processo criativo que rendeu grandes momentos. "É preciso fé cega/ E pé atrás" ensinava Humberto, colocando todo o ceticismo do mundo e violentando um otimismo desenfreado que vinha pela frente.

Uma obra genial, sob todos os aspectos. A sofisticação de arranjos semi-acústicos na era em que não precisava de uma parafernália de equipamentos que os acústicos usam hoje em dia (tem mais tomada nos desplugados do que nos outros discos). E a delicadeza de um álbum sério que deveria ser escutado por todos. De preferência, sozinho, com uma brisa batendo, com atenção nos instrumentos e nas letras. Aí, é impossível não se emocionar.

discosMarch 12, 2007 5:16 pm

Fiquei realmente inspirado para escrever a respeito do Coldplay depois que li um bom post a respeito da banda.  

Pra começar, eu não gosto de Coldplay. Eu nunca gostei de Coldplay. Acho a banda uma chatice sem precedentes. Talvez seja porque eu não vá com a cara do Chris Martin e o considere um dos grandes charlatões da música atual. Além de cantar mal pacas, tem aquela antipatia britânica habitual (que muitos consideram charme). Não tem o carisma de um Bono Vox, sequer de um Michael Stipe, que com toda sua timidez leva uma banda como o R.E.M. a patamares de super banda usando só a criativiade. E nem criativo o Chris Martin é.

No entanto, há de se ressaltar que o disco de 2001 da banda, "Parachutes", é um ótimo álbum. A abertura vem com "Don’t Panic", uma faixa que não poderia ser melhor para abrir um disco. Anunciando as intenções de "Parachutes", ela subverte a mesmice do brit pop em anos pouco inspirados de quem chefiava o carro, no caso o Oasis. Depois, vem "Shiver", outra música ótima. Preparando o terreno para a seqüência que torna o álbum uma referência atual e um dos melhores dos anos 2000, com "Yellow" e "Trouble". Aí, o Coldplay já ganhou o coração de todo mundo.

O disco seguinte do Coldplay, "A Rush of Blood to the Head", contém as duas melhores músicas da banda pra mim: "In My Place" e a obra prima "The Scientist". No entanto, "Parachutes" é mais coeso, e principalmente mais sincero.

Quanto ao que aconteceu depois, com a banda fazendo coisa ruim e o Chris Martin posando de Deus Supremo Da Música Pop, é simples. A culpa não é da Gwyneth Paltrow. Ela não fez nada, não mudou o cara.

Mas pense comigo: ele não era NADA, a imprensa inglesa, a mais sensacionalista de todas, passou a desejar o Coldplay como a salvação do rock mundial (lembrando: os semanários londrinos jamais apontariam alguma banda americana como salvação do rock mundial. Na época, os Strokes lançavam Is This It?, provando uma superioridade gritante em relação ao Coldplay. Eles precisavam de um álibi, que fosse aquela banda pop razoável com um vocalista bom moço), ele não suportou tanta purpurina, conseguiu comer uma gostosa famosa e aí veio de dentro das mais profundas tripas do organismo uma megalomania difícil de aceitar.

Sobre a queda na música do Coldplay? Vamos aguardar o quarto álbum e comprovar o que eu já sabia: que a banda é chata, sem grandes lances, repetitiva e monótona. Não concorda? Então vai ali e compara o grande momento do Coldplay com, por exemplo, Bittersweet Symphony (The Verve), Wonderwall (Oasis) ou Song 2 (Blur). É, assim se mede grandeza. E, apesar do ótimo disco "Parachutes" e das boas canções do segundo disco, o Coldplay tem que comer todo o feijão do mundo pra chegar aos pés do U2, que tem só 27 anos de carreira e fez, por exemplo, "One", "Sunday Bloody Sunday", "With or Without You", "Pride (In the Name of Love)"… È, falta muito ainda.