Cowboy in the Sand

listas, showsOctober 28, 2007 5:46 pm

Aproveitando que eu NÃO FUI ao Tim Festival, vou listar aqui os 10 maiores shows que eu vi na minha vida. Alguns são importantes pelas velhas histórias que acontecem nesse tipo de lugar. Outros são pela técnica, pela banda ou pelo dia mesmo.

 

1- Pixies - Pedreira Paulo Leminski, Curitiba - maio de 2004 

A expectativa de ver a minha banda preferida ao vivo foi tomando ares de "caiu a ficha" antes do show. Tanto é que logo após a apresentação do Teenage Fanclub eu cheguei a dizer: "Ah, nem vou me emocionar tanto". Kim Deal chega ao vocal e solta "CHECK… CHECK", como no início de Cannonball, dos Breeders. Uma palavra bastou pra já saber que aquele seria o show da minha vida.

2- Jamiroquai - Teatro do SESI, Porto Alegre - outubro de 1997 

Um show que eu fui com a minha mãe é o segundo inesquecível. Exatamente, em termos musicais, nada supera este show do Jamiroquai, há dez anos aqui em Porto Alegre. Parece que foi ontem. Banda impecável, som impecável, performance impecável. Pela primeira vez eu fiquei espantado pelo quesito SOM. Mal eu sabia, mas já tava ficando "maduro" em 1997.

3- Video Hits - Garagem Hermética, Porto Alegre - novembro de 1999 

Já escrevi sobre esse show. Nunca eu tive a impressão de que um lugar viria abaixo após uma apresentação. Leia ali mais detalhes. Tenho certeza que esse show entrou pra história.

4- Pearl Jam - Gigantinho, Porto Alegre - novembro de 2005 

O show do Pearl Jam foi o melhor que Porto Alegre assistiu em anos. Eddie Vedder em forma, um coral de fãs dos ANOS 90 saudosos com a década que já havia partido faz tempo e a gente nem percebeu. Tempo bom que não volta nunca mais.

5- Ramones - Gigantinho, Porto Alegre -  setembro de 1994

Vi o Ramones ao vivo. Já poderia morrer em paz. Não bastasse isso, vi também uma banda nova chamada Raimundos e o Sepultura no auge. Tudo na mesma noite. Rest in peace, véio.

6- Jorge Benjor - Estádio Municipal de Tramandaí (RS) - janeiro de 1992

Foi o primeiro show de verdade que eu fui na vida, talvez. E Benjor estava no auge, soltando todos os hits possíveis e impossíveis, com  a primeira vez na vida eu tendo a sensação de que nasci pra música, festa, celebração.

7- Rammstein - Hipódromo do Cristal, Jóquei Clube, Porto Alegre -abril de 1999 

Engraçado que eu poderia botar aqui a parafernália do Kiss, que era a banda de fundo. Mas eu ponho o show do Rammstein, banda alemã que diminuiu o circo psicótico dos mascarados, botou no bolso, aumentou o volume e espantou a galera num show perfeito.

8- Strange Boys from Outer Space - Garagem Hermética - dezembro de 1998 

Na época, essa extinta banda de amigos meus daquele período, era a coisa mais criativa que eu tinha visto aqui em Porto Alegre. Cinco guris pré-20 anos misturando TUDO que pode existir em termos sonoros, com uma sinceridade, uma ingenuidade, uma pegada e um carisma extraordinários. Acho que eles nem sabiam a força que tinha os Strange Boys, porque nunca levaram a sério. Ou será que esse era o propósito? Não sei. Sei que nesse dia (5/12), até Tonho Crocco da Ultramen ficou de boca aberta.

9- Beastie Boys - Pedreira Paulo Leminski, Curitiba - outubro de 2006

Como eu esperava: um DJ e três MCS veteranos, com um domínio absoluto do palco, chamando a galera pra uma série de hits, rimas e riffs espetaculares.

10- Mamonas Assassinas - Sede Social da SABA, Planeta Atlântida - janeiro de 1996

Até hoje é considerado um dos maiores shows dessa banda que durou um tempo e acabou. Quer saber? Cantei e pulei com todas as músicas. Algo insipirou os caras naquela noite, quem sabe prevendo alguma coisa que poderia acontecer dois meses depois. Aproveita, vê enquanto dá. E eu gostei.

 

OBS: Eu não sou muito de viajar pra ver shows, de gastar grana nisso, enlouquecer com apresentações ao vivo. Também trabalho de noite, o que me impede de assistir a shows "médios". Alguns grandes eu fui, mas não estão na lista porque esses significaram bem mais, pessoalmente. Por isso a ausência de Kiss, Metallica, Red Hot Chili Peppers e Strokes, pra citar alguns. 

 

 

showsApril 13, 2007 4:48 am

Se há algum tipo de falha na minha trajetória musical, certamente são os shows. Não fui a muitos na minha vida. Pelo menos não aqueles de grande relevância. Em Porto Alegre, estive na maioria dos bons shows desde 1993, ao menos isso. Mas a história de sair da cidade pra ver alguma banda é bem recente.

Esta omissão em eventos fora do estado contrasta com uma presença maciça em shows de bandas locais no período 1998-2002.  E nisso, chegamos a novembro de 1999 para escrever sobre o show mais incendiário que eu assisti no Garagem Hermética.

Para explicar um pouco mais do que aconteceu naquela noite, é preciso situar o cenário porto alegrense naquela época. Se hoje Superguidis, Stratopumas, Pública e Pata de Elefante são as mais "populares" no "underground" de POA, naquela época tínhamos a Walverdes (que segue mandando muito bem como a banda mais foda do Estado), a Tom Bloch e a Bidê ou Balde começando. Eram as mais conhecidas, apesar de eu gostar muito da Deus e o Diabo no início (na fase pré-artê, quando eram uns loucos pulando no palco com performances fantásticas). E tinha a figura de Diego Medina, o cara do Doiseu Mimdoisema, autor do clássico "Epilético". Hoje, ainda investe em projetos, conciliando com a carreira de publicitário bem sucedido e ator de comerciais. E certamente o projeto Video Hits gerava uma expectativa.

Havia ainda um fenômeno. Numa época pré-napster, o antigo site da Ipanema colocava gratuitamente as músicas de bandas independentes. E fazia uma parada. Ali, "Cozinha Oriental" e "Sentido Anti-Horário" eram os grandes hits. Era quase uma comunidade, antes de orkut, antes de emule, programas P2P, bittorrent, myspace ou last.fm. Só havia o mp3.com e o site da Ipanema, basicamente. E o site, com mural para recados, era o local onde conhecíamos as novidades.

Estava muito quente no Garagem. Mas quente MESMO. E por favor, esqueça este Garagem novo, amplo e arejado. Até 2000, o GH era um lugar com três ambientes com um pátio externo, única saída para a rua. A melhor casa noturna que Porto Alegre já teve, disparado. Os ambientes eram separados por portas fechadas. Era início de verão. Uns 29 graus na rua que virava uns 42 dentro do lugar.

Além do calor, o lugar estava completamente lotado. A Video Hits subiu no palco com os integrantes vestidos de atendentes de lanchonete, num visual brega-irreverente que eles adotavam na época. A primeira música foi "A 5a embalada", quase uma releitura de jovem guarda toda vinhetada. A partir da primeira estrofe desta música, o que aconteceu ali foi uma explosão conjunta que eu jamais vi em mais de 100 vezes pisando no Garagem. Foi a única vez em que eu vi as estruturas do lugar balançarem. Sei lá quantas cabeças pulando sem qualquer tipo de coordenação.

A minha reação foi de total encantamento com aquilo que eu estava assistindo. Sem dúvida, eu estava diante de um fenômeno que não vingou sei lá por quais razões. Era um desfile de músicas excelentes, hits em potencial e a força de um vocalista carismático, com duas backing vocals extremamente bem ensaiadas e uma banda que segurava tudo que tipo de improvisação que cabia naquela noite.

Quando chegou "Cozinha Oriental", a coisa passou a ficar assustadora. Eu jurava que iríamos morrer dentro do Garagem. O chão era quase uma areia movediça. O teto se mexia. O palco não parava no mesmo lugar. As paredes tremiam. As caixas de som pulsavam como se o que tinha ali dentro fosse sair a qualquer momento e romper qualquer barreira que estivesse na frente. O mesmo aconteceu em "Sentido Anti-Horário", "Furacão", "Joe Aipim" e "O Basset Azul".

Havia algo de impressionante na qualidade de humor e improvisação da banda. Em "Sobras", as meninas coreografavam o final da música inacreditavelmente cantando "Peta, peta, peta, perrugem…". O quê dizer então dos versos "Eu queria ser um WAGNER MONTES pra você", ou "Verão que a moça em questão transformou meu coração em festa de aniversário", ou então pra arrebatar, toda a letra de "Cozinha Oriental", com destaque para o refrão: "Refeição familiar/ É da cozinha oriental/  Não é um vovô esquartejado/ Temperado, desossado/ Que vai me fazer mal". Genialidade completa.

Em determinado momento, nem a banda parecia acreditar no que estava acontecendo. Uma histeria coletiva, uma certeza de que ali estaria a futura maior banda do Brasil. Algo novo, criativo, uma mistura de rock com jovem guarda com televisão brega com referências oitentistas, tudo feito por um fã de Mr.Bungle e com uma criatividade aguçadíssima. Fora as letras, excepcionais. E uma presença de palco inédita para qualquer banda nova que surgia em Porto Alegre naquela época.

A Video Hits deve ter durado uns dois anos. Depois, foi-se. Teve clipe na MTV, visibilidade nacional com "(Vo)C", mas fechou as portas. Lançou um disco oficial. Logo após o show, saiu um CD independente chamado "Doces, Refrescos e Tratamentos Dentários", disputado a tapa. Depois, o disco que saiu pela Abril Music. Mas se foi.

Pra mim, a banda deixou mais do que um disco bem feito. Apresentou o show mais enlouquecido que eu já vi na minha vida. A única vez em que eu realmente pensei que ocorreria uma tragédia num lugar onde estava acontecendo um show. Mas isso não desviou meu olhar para tudo que Diego Medina e CIA faziam naquele palquinho minúsculo do velho, saudoso e inesquecível Garagem Hermética.

Junto com o Bailão do COL de junho de 1999 e com o show do Strange Boys (um dia, prometo, escrevo sobre esta banda) em dezembro de 1998, este show da Video Hits marca pra mim uma época em que eu realmente acreditava na sinceridade, na vibração e na essência de fazer e participar de alguma coisa na música. Hoje, eu só escrevo, pra poucos lerem. Poucos que nem sei se conheceram aquele Garagem. Ou pior, se estiveram naquele dia de novembro. Se algum deles ler isso aqui, certamente vão se transportar para aquela noite insuportável de quente, mas com um sentimento que ultrapassava as fronteiras daquele lugar histórico e assumia de forma eterna um lugar cativo no coração dos presentes naquele dia.